sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Livro: O FANTÁSTICO MISTÉRIO DE FEIURINHA

Olá.

Enquanto escrevo, hoje, ainda é 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida e Dia das Crianças.
E aproveitando este último aspecto, hoje então vou recomendar, às crianças leitoras deste blog, grandinhas ou pequenas, um livro. Livro infanto-juvenil, de autor brasileiro, e possivelmente o único livro brasileiro do gênero a ganhar adaptação para o cinema.
Hoje então vou falar de O FANTÁSTICO MISTÉRIO DE FEIURINHA.

Este livro foi escrito por Pedro Bandeira, um dos autores infanto-juvenis mais famosos do Brasil. Nascido em Santos, estado de São Paulo, em 1942, e residente na capital do estado até hoje, Bandeira já possui uma sólida carreira como autor de livros para crianças e adolescentes. Poesias, fábulas, histórias de suspense, histórias detetivescas, paródias, reinvenções de obras clássicas da literatura... A obra de Bandeira é vasta e variada. Embora muitos de seus livros usem de uma linguagem professoral e sentimental, como típico adulto escrevendo para uma criança – ao invés de escrever na linguagem delas – Bandeira sabe dosar o humor, o suspense e até mesmo a polêmica em seus livros, algumas vezes também tratando de temas que dizem respeito aos jovens, como a necessidade de serem ouvidos e compreendidos pelos adultos. Sua carreira começou em 1982, com a publicação de O Dinossauro que fazia Au-au – e, desde então, nunca mais parou. Seu maior sucesso literário foi A Droga da Obediência, de 1984, o primeiro de cinco livros com a turma d’Os Karas, os cinco jovens que enfrentam bandidos, cientistas loucos e nazistas. Os outros quatro livros da série, a título de informação, são: Pântano de Sangue, Anjo da Morte, A Droga do Amor e Droga de Americana!. Outros livros muito lembrados pelos fãs do autor são A Marca de Uma Lágrima, Malasaventuras – Safadezas do Malasarte, Agora Estou Sozinha..., O Mistério da Fábrica de Livros, O Medo e a Ternura e, é claro, O Fantástico Mistério de Feiurinha. Bandeira também colaborou com muitas antologias de autores (como a série Sete Faces, da editora Moderna), adaptou alguns livros seus para teatro, e atualmente tem uma coleção só sua pela editora Moderna, a Biblioteca Pedro Bandeira, de reedições de obras suas por essa mesma editora, sua casa editorial desde que iniciou sua carreira – embora ele tenha livros lançados por outras editoras. Pedro Bandeira também já ganhou vários prêmios literários.
Bem. Isso é o básico.
FEIURINHA foi lançado em 1986, pela editora FTD, e desde então firmou-se como clássico da literatura infantil brasileira. No mesmo ano, FEIURINHA ganhou o Prêmio Jabuti – a mais importante premiação da literatura brasileira – de Melhor Texto Infantil, e suas ilustrações, feitas por Denise & Fernando, foram premiadas na Bienal Internacional de Ilustrações de Bratislava, na então Tchecoslováquia, em 1987.
Bão. Como todos os livros de Pedro Bandeira, FEIURINHA ganhou muitas edições, à média de duas por ano. Nos anos 90, ainda na FTD, as ilustrações de Denise & Fernando, cheias de hachuras e muito bem trabalhadas, foram substituídas pelas belas e dinâmicas ilustrações de Avelino Guedes, parceiro de Pedro Bandeira em outros livros – é de Guedes também as belíssimas ilustrações de A Marca de Uma Lágrima, por exemplo. Para a mais recente edição do livro, editada pela Moderna, Avelino Guedes refez as próprias ilustrações, usando inclusive novas técnicas de elaboração das mesmas. As capas de algumas das edições da obra vocês podem ver ao longo desta postagem.
É preciso dizer também: FEIURINHA teve seu texto adaptado para o teatro, pelo próprio Bandeira (assim como ele fez com A Marca de Uma Lágrima e Agora Estou Sozinha...), e foi o primeiro livro do autor a ganhar adaptação para o cinema. Foi em 2009, o filme estrelado por Xuxa, dirigido por Tizuka Yamazaki e que ganhou o nome de Xuxa e o Mistério de Feiurinha. Mas do filme falamos depois.
Bão. FEIURINHA nasceu com a seguinte proposta de reflexão: todos sabemos que, nas histórias clássicas, as moças que vivem mil aventuras e desventuras e casam-se com príncipes costumam terminar suas histórias com a clássica frase “e todos viveram felizes para sempre”. Tá, mas o que acontece depois do “felizes para sempre”? Seria garantia de que não haveria mais nenhum perigo, aventura, o que quer que seja? Será que viver feliz para sempre seria viver uma típica vida familiar, por vezes apenas uma vida medíocre, criando seus filhos, aturando o marido, etc. etc. etc.?
Bem. O que Pedro Bandeira oferece, a princípio, é a possibilidade de se imaginar o que acontece com as princesas dos contos clássicos assim que chegam ao fim. E ele se utiliza das figuras muito conhecidas da literatura infantil, como Branca de Neve, Rapunzel, Cinderela e outras, para conduzir um de seus livros mais bem-humorados e mais agradáveis de ler.
O livro é dividido em capítulos, mas os onze capítulos se estruturam assim: “Capítulo zero”, “Capítulo Zero e meio”, Capítulo Zero e três quartos”, e assim por diante, até o último, o “Capítulo um”. Isso porque a trama da história gira em torno do resgate (?) de uma personagem de contos de fadas desaparecida.
Narrado em primeira pessoa, o livro começa quando um escritor – o próprio Bandeira? – quando está se preparando para redigir um novo livro, recebe a visita de um estranho ser – Caio, o lacaio, um arauto real – que pede ajuda ao escritor e começa a explicar a situação.
Tudo começa quando a princesa Branca de Neve, grávida pela sétima vez e prestes a fazer bodas de prata – 25 anos de casamento – recebe a visita de sua amiga, Chapeuzinho Vermelho, mais velha, gorda e sempre reclamando que terminou sua história solteira e lamentando nunca ter casado (convenhamos: história mix de personagens clássicos sem Chapeuzinho Vermelho não tem razão de ser, mesmo que ela não tenha a mínima importância pra trama – como aqui). Em conversa, Chapeuzinho Vermelho, que jamais largou o capuz vermelho nem a cesta, comenta para Dona Branca Encantado – nome que Branca de Neve ganhou após o casamento, na suposição que o sobrenome de todos os Príncipes seja Encantado, não seria à toa que os Príncipes Encantados sejam assim – que uma de suas amigas, uma tal Feiurinha, desaparecera. Diante de tal notícia, Dona Branca manda chamar as outras princesas, suas cunhadas – também na suposição de que todos os Príncipes Encantados venham da mesma família.
E elas comparecem: Cinderela, também grávida e prestes a fazer bodas de prata, reclamando de dor nos pés por causa dos sapatinhos de cristal; Rapunzel, também grávida e prestes a fazer bodas de prata, reclamando de dor de cabeça porque seu príncipe insiste em subir pelas suas tranças; A Bela Adormecida, também grávida e etc., cochilando o tempo todo; Rosaflor Della Moura Torta, grávida e etc., brigando com Bela da Fera, grávida e etc., sonolenta porque seu príncipe fica uivando pra lua cheia...

MOMENTO:
De todas as princesas aqui relacionadas, Rosaflor Della Moura Torta é a menos conhecida, pois vem de um conto popular. Trata-se de uma moça que saiu de dentro de uma melancia e que, após uma imprecação com uma bruxa chamada Moura Torta, é transformada numa pomba, e essa bruxa engana o príncipe que tirou Rosaflor de dentro da melancia. Bem, essa história já foi recontada inclusive por Monteiro Lobato, o autor do Sítio do Picapau Amarelo e, bem, como nunca foi adaptada pela Disney, que adaptou todas as outras princesas (e que atualmente serve de parâmetro para suas respectivas imagens), é a menos conhecida de todas as princesas. Mas não se preocupem: o próprio Bandeira recontou sua história em livro próprio, Rosaflor e a Moura Torta.

PROSSEGUINDO:
Pois é. Todas as princesas aqui apresentadas estão todas grávidas e vão fazer 25 anos de casada, todas ao mesmo tempo. Os diálogos iniciais entre as princesas são pontuados pelo humor, pela descompostura típica das brigas entre mulheres e pelas repetições quase monótonas, com cada uma sempre se gabando de suas próprias histórias, criticando as outras, se perguntando de que príncipe estão falando, se xingando... e a Chapeuzinho Vermelho só reclamando de sua solteirice. Quando a situação motivadora da reunião é exposta – o desaparecimento de Feiurinha – aí é aquela complicação: pois se uma princesa desapareceu, as outras começam a acreditar que a mesma coisa possa acontecer com elas também, ameaçando o seus “Felizes para sempre”. Só que o problema é que nenhuma das senhoras é capaz de lembrar como era a tal história da Feiurinha, para saber por onde começar a busca. Sabendo que suas próprias histórias se eternizaram graças aos escritores, elas procuram nos autores mais conhecidos – Esopo, irmãos Grimm, Perrault, Andersen, La Fontaine, Monteiro Lobato – mas não tem êxito. Então, mandam Caio procurar um escritor para descobrir o paradeiro de Feiurinha. E foi assim que o lacaio chegou ao escritório do autor-narrador – não por este ser o melhor autor de contos de fadas, mas por ser o único que Caio conseguiu encontrar.
Recebendo a estranha missão com alguma perplexidade, o escritor, que mora com Jerusa, a velha empregada, se põe a trabalhar, pesquisando compêndios de histórias, escrevendo para especialistas de todo o mundo, aguardando respostas – quando o livro foi lançado, vivíamos na era pré-internet, por isso a comunicação se dava basicamente por carta, não é como hoje, que os e-mails tornam esse trabalho mais rápido. Enquanto isso, Caio faz ponto no apartamento do escritor, aguardando resultados.
Nesse meio tempo, o escritor acaba recebendo a visita inesperada da própria Branca de Neve, que cobra serviço do escritor. E, atrás dela, chegam as outras princesas, ocupando seu apartamento. A espera pelas respostas dos outros especialistas, que podem dar alguma esperança às senhoras, se torna desesperadora e melancólica. Nem mesmo uma festinha simples para comemorar as bodas de prata de todas elas melhora a situação.
No entanto, quando tudo parecia perdido, eis que o mistério encontra uma solução de forma inesperada. As princesas temiam terem o mesmo fim de Feiurinha, ou seja, desaparecer. Mas, como foram eternizadas pelos escritores, e foram lidas e continuarão sendo lidas por crianças do mundo todo, em todos os tempos, elas não correm o risco de desaparecer. Feiurinha desapareceu porque nunca teve sua história escrita, portanto nunca foi eternizada. E, de repente, aparece alguém que conhece a história de Feiurinha: a empregada Jerusa.
E é ela que, no antepenúltimo capítulo, conta a intrigante história de Feiurinha, uma linda menina que foi raptada e maltratada por quatro bruxas malvadas e horrorosas, que a enganam e a fazem pensar que a menina é feia, e que elas eram lindas. Aí, num momento de desespero, aparece um príncipe que a faz enxergar a verdade e...
Bem, não vou contar o que vai acontecer. É preciso ler para conhecer a história da linda menina feia. Aliás, história essa que é marcada por muitos dos clichês dos contos infantis como a presença de bruxas malvadas, príncipes transformados em animais, princesas transformadas em alguma coisa, etc. E o mais intrigante é a ambigüidade presente no mistério de Feiurinha: não se sabe se a história dela era mesmo um conto popular perdido no tempo, ou se Bandeira inventou essa história, aproveitando-se do receituário acima. De todo modo, a história de Feiurinha é interessante, e intrigante. E não muito politicamente correta, pois acaba pregando a feiúra como sinônimo de mal e a beleza como sinônimo de bem, sem exceções. E, no contexto, o nome da personagem combina bastante, e chega até a ser mais bonito que o da antagonista, a bruxa Belezinha.
FEIURINHA é, por assim dizer, uma grande brincadeira com os clichês dos contos infantis, e uma grande homenagem aos contadores de histórias, tanto os escritores que deram forma à sabedoria popular quanto às velhas contadeiras de histórias, mães, avós ou apenas conhecidas, que acalentaram as noites e sonhos de tantas crianças como alternativa às dificuldades da vida real, como a fome e o frio. Se tornou um clássico por mérito. É Pedro Bandeira em sua fase áurea. Além disso, vale dar uma procurada pelas várias edições no livro: todas podem ser encontradas facilmente nas bibliotecas e livrarias. Quer dizer, atualmente, nas livrarias, se encontram com mais facilidade as edições ilustradas por Avelino Guedes; a ilustrada por Denise & Ricardo, só nas bibliotecas. E podem reparar também que, em relação à outra, Bandeira reescreveu trechos de uma edição, acrescentou trechos, mas não alterou a essência narrativa. Ah: também dá para encontrar com facilidade a versão do texto para teatro (disponibilizada dentro da série Literatura em Minha Casa).
É isso aí: FEIURINHA se torna assim uma boa opção de presente para o dia das crianças. Um texto que estimula o gosto pela leitura e nos deixa com aquela sensação de quero mais. Garantia de que, depois de conhecer a história perdida de Feiurinha, você nunca mais vai ver os contos infantis da mesma maneira. Que se dane Disney e suas adaptações.
Para encerrar: em comemoração ao Dia das Crianças, resolvi fazer uns desenhos com minha personagem infantil, a Letícia, e seus amigos, vivendo um momento Mundo da Fantasia. Por que será que os príncipes, princesas, reis e rainha, ainda que não correspondam às nossas expectativas, fascinam o imaginário das crianças? Por que tantas meninas sonham em serem princesas – ainda mais agora que a Disney investiu com tudo na sua grife de princesas, sabem, Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida, Bela-Fera, Pequena Sereia...? O que nos fascina tanto em histórias de princesas? Não sei. O que importa mesmo é que as crianças se sentem felizes com isso. E quem somos nós para contrariar?
A versão para colorir desta mesma ilustração pode ser encontrada no site onde eu também colaboro, o Educar é Viver: http://orientarpedagogos.blogspot.com.br/. Material bom para passar aos alunos.
É isso aí.
Na próxima postagem: FEIURINHA, o filme.
Até mais!

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