segunda-feira, 26 de novembro de 2012

LUA DOS DRAGÕES - sobrevivendo no mundo das dragoas gostosas

Olá.

Hoje, de novo! Vou falar de quadrinhos.
Faz tempo que estou devendo de falar deste quadrinho. Prometi, agora vou falar.
Já fiz resenhas de vários dos quadrinhos da finada e saudosa editora Trama, cuja linha de HQ ajudou a animar o mercado de quadrinhos do Brasil no final dos anos 90. Com revistas bem produzidas e de qualidade, a Trama (posteriormente Talismã), com sua linha de HQs capitaneada por Marcelo Cassaro, mostrou que os brasileiros sabem, sim, desenhar quadrinhos, sem necessariamente se dobrar aos caprichos do mercado norte-americano.
Bão. Já foi falado, aqui, de Godless, U.F.O. Team, Capitão Ninja, Blue Fighter, Dragonesa e Predakonn. Hoje, então, vai ser cataclísmico, porque hoje vou falar de LUA DOS DRAGÕES.
Esta série foi lançada por volta de 1997. Foi escrita pelo incomparável Marcelo Cassaro e desenhada por André Vazzios, um dos melhores ilustradores brasileiros de arte fantástica.


O ARTISTA
Antes de partir pro quadrinho propriamente dito, deixa eu falar um pouco sobre André Vazzios.
Seu verdadeiro nome é André Luiz da Silva Pereira. Nascido em 1975, é formado Técnico em Desenho e Arquitetura e em Arquitetura e Urbanismo no Mackenzie, de São Paulo. Ele começou sua carreira como ilustrador na Editora Abril, em 1995, na revista Dragon Magazine. Na mesma época, se torna um dos fundadores do Estúdio Ampla Arena, que até hoje atende diversas empresas com ilustrações promocionais.
Pouco depois, ele começaria a colaborar com a editora Trama. Além de fazer ilustrações, capas e, eventualmente, quadrinhos para a revista Dragão Brasil, a melhor revista de RPG do período, ele também ficou marcado como o colorista de boa parte das capas da histórica série Holy Avenger.
Em 1997, ele produz a série Lua dos Dragões, laureada com os prêmios HQ MIX e Ângelo Agostini. Fez ainda vários trabalhos para quadrinhos e televisão, além de participar de exposições e lecionar aulas de desenho.
Seu último trabalho com quadrinhos foi com a revista Uiara e os Filhos de Eco, de 2009, patrocinada pela Secretaria de Cultura de São Paulo.

A ARTE DA OBRA
Como já dito, LUA DOS DRAGÕES, criação máxima de Cassaro e Vazzios, foi premiada com o HQ MIX e o Ângelo Agostini em 1997. Foi uma das únicas HQs da Trama que não tinha título em língua estrangeira. Apesar da boa qualidade da série, publicada em seis partes, o desempenho nas bancas foi fraco, em parte por causa dos hiatos constantes entre as edições – para se ter uma idéia, entre as edições 5 e 6 a espera foi de seis meses!
Bom. LUA DOS DRAGÕES também ganhou uma versão em romance, publicada pela editora Daemon – mas agora não sei dizer o que veio primeiro, se foi o romance ou a HQ. Mas isso não importa muito, pois é da série em quadrinhos que vou falar.
LUA DOS DRAGÕES pode ser considerada a experiência máxima dos brasileiros em matéria de literatura fantástica – depois das várias mídias envolvendo o mundo de Tormenta, é claro. Afinal, Cassaro e Vazzios foram capazes de criar uma verdadeira aventura em um mundo totalmente imaginário, de seres imaginários, porém bastante calcados em coisas que podemos encontrar na Terra. Uma experiência parecida em termos de mundos fantásticos os brasileiros só veriam em 2009, quando chegou nos cinemas o Avatar de James Cameron. Aliás, os mundos da lua de Calidori-4, onde se passa a ação de LUA DOS DRAGÕES, e a lua de Pandora são muito parecidos.
O roteiro de Marcelo Cassaro é detalhista, filosófico, cheio de referências científicas exatas, bem-escrito. Ele faz, ainda que sem o bom-humor característico de suas outras produções, uma profunda reflexão sobre as relações humanas e o contato com a natureza usando as figuras fantásticas dos antropossauros, seres que combinam características de dinossauros e de humanos. Ainda que toque em temas tabus, como a escravidão, castigos físicos, práticas sexuais exóticas e relações semi-sexuais, LUA DOS DRAGÕES também deixa espaço para tocar em temas leves, como a amizade, o respeito às diferenças culturais, a evolução e a necessidade de mudar o pensamento consagrado. Nem sempre o que consideramos condenável pode ganhar esse epíteto gratuitamente, é o que Cassaro nos quer passar.
E o roteiro ganha o adendo da arte incrivelmente detalhada de Vazzios, que torna essa HQ ainda mais valorizável. O mais interessante na arte é que, em praticamente nenhum momento, Vazzios usou o nanquim na arte: ele fez uso quase exclusivo do lápis, dando assim um aspecto de profundidade e tridimensionalidade às figuras, cenários e vestimentas. Os desenhos a lápis foram, a seguir, escaneados e tratados com programas de computador, ganhando um colorido todo especial, forte e muito realístico. Embora nas edições posteriores Vazzios reutilize muitas imagens já usadas antes nas páginas anteriores – talvez, para economizar tempo de elaboração, algumas imagens foram reutilizadas, coladas em lugares estratégicos, e atyé reinventadas, como, por exemplo, com ondas de gotas d’água em cima, dentro de penumbras... – Vazzios esbanjou talento e capricho em cada ilustração. Cada imagem levou cerca de catorze horas para ser elaborada. E é um festival de animais fantásticos, esqueletos, armaduras de couro e ossos, corpos humanóides, tudo desenhado com extremo capricho, como se essas figuras existissem mesmo.
E, como em muitas revistas da editora Trama, LUA DOS DRAGÕES apresenta a quadrinização dinâmica, com poucos quadros por página, às vezes fazendo o uso de páginas duplas, cada uma delas valendo por um pôster. E, em cima das páginas, uma verdadeira profusão de textos em caixas, balões “personalizados” para cada personagem... As letras são de Miriam Tomi.
Outro defeito de LUA DOS DRAGÕES são as capas: é visível que apenas a ilustração da capa da primeira edição é original, enquanto que as capas das edições seguintes foram montadas com imagens internas da HQ.

O MUNDO DE CALIDORI-4
A história de LUA DOS DRAGÕES se desenvolve na única lua de um planeta chamado Calidori-4. O planeta é um gigante gasoso com anéis, assim como o planeta Saturno. Mas possui uma lua, onde se desenvolve vida. É isso que atrai o narrador dos acontecimentos da minissérie, o metaliano Kursor Krion – um dos personagens principais de Predakonn. A bordo de sua nave, Kursor analisa a vida que se desenvolve nessa lua, e um episódio específico que o surpreende bastante.
A lua de Calidori-4 abriga uma grande quantidade de florestas, onde habitam seres que se assemelham aos nossos dinossauros. A grande diferença entre essa lua e o nosso mundo pré-histórico é a existência de civilizações humanas (humano, definido pelo roteirista, como um ser com inteligência e habilidades suficientes para criar uma civilização) que se formaram a partir dos dinossauros. São os chamados antropossauros.
Os antropossauros de Calidori-4 possuem corpos humanóides, postura ereta, membros adaptados para manipular instrumentos pequenos, pele macia e sem escamas, porém se diferem de nós, humanos, pelas cabeças alongadas, chifres, asas ou cristas, os pés terminados em cascos ou garras, caudas de lagarto, os costumes tribais. E, como os personagens da série são quase exclusivamente femininos, não fossem pelas cabeças, patas e caudas, os antropossauros, ou dragoas, como elas se definem, não seriam mais que mulheres gostosas, de seios fartos, cintura fina e quadril arrebitado, outro vício constante nas obras de Marcelo Cassaro. E que corpos tem essas dragoas, diga-se de passagem!
O tal episódio específico que atrai a atenção de Kursor Krion começa quando uma antropossaura da espécie sete-chifres, chamada Keyla, saiu de sua aldeia para colher vermes para alimentar seu marido. Ao voltar, Keyla se depara com a aldeia destruída, seus familiares todos mortos pelo ataque de um gigantesco inseto, e, saindo correndo a esmo pela floresta, deseja morrer. Isso se deve porque Keyla é de uma espécie polígama, ou seja, as famílias giram em torno de um macho e várias fêmeas, e, se não houver um harém, as fêmeas não conseguem sobreviver sozinhas na natureza.
E foi em tais condições que Keyla, que antes de tudo é muito dócil, acaba sendo capturada por outra antropossaura, uma caçadora feroz chamada Raíssa. Esta é de uma espécie diferente da de Keyla: possui crista na cabeça, é muito menor que a sete-chifres, porém está no topo da cadeia alimentar: é uma caçadora, habilidosa, feroz, capaz de subir em árvores, extremamente orgulhosa. Raíssa consegue capturar Keyla sem muito esforço – Keyla, sem sua família, deseja mesmo que a pequena fera a mate. Mas, em vez disso, a caçadora cura os ferimentos da giganta e a amarra com cordas, depois disso levando-a para sua aldeia.
As caçadoras possuem outro hábito bizarro – e condenável sob o ponto de vista do politicamente correto: a escravidão e o bondagismo. Quer dizer: todas as fêmeas capturadas pelas caçadoras são mantidas amarradas com cordas de seda perfumada, e servem para um único propósito: serem torturadas e sangradas, para o sádico prazer das caçadoras.
A princípio, a vida de escravidão, para Keyla, é apenas sofrimento contínuo. E isso é constatado no momento em que chega à aldeia de Raíssa, que fica nas copas de árvores gigantescas: como não é acostumada a se afastar do chão, Keyla sofre com as vertigens. Suas dores são minoradas com o exótico tratamento que é proporcionado pela drogadora da aldeia, uma dragoa mais velha, cujo único propósito na vida é curar ferimentos, fazendo uso de remédios inusitados, como misturar o leite dos próprios seios com o veneno de insetos peçonhentos.
Keyla, apesar de ser dolorosamente torturada e de ter de passar a maior parte do tempo amarrada e/ou enrolada em cordas, acaba descobrindo que a vida de escrava não é de todo ruim. Primeiro, porque as caçadoras tem por principal dever, com suas escravas, protegê-las de perigos (mais ou menos a suposta intenção que alguns tem em prender pássaros nas gaiolas: protegê-los de supostos perigos externos, como predadores naturais). Afinal, mais que o desejo sádico, as caçadoras tem paixão por suas escravas, lindas, macias e de olhos tristes. E, segundo, porque Raíssa não é uma vilã, e sim uma moça cheia de problemas. A caçadora de crista vermelha, apesar de arrogante, está insegura, uma vez que assumiu a chefia da aldeia (após vencer a antiga líder em combate) em um momento delicado, e ela não é reconhecida como líder pela maioria das outras caçadoras. Aos poucos, os sentimentos que Raíssa começa a e despertar – e demonstrar – por Keyla, sua presa mais preciosa, vão além da simples relação senhora-escrava. Muito embora Raíssa não admita a princípio – como na cena em que Keyla, ao saber que Raíssa havia matado o inseto que destruíra sua aldeia, como forma de gratidão, propõe amizade com a caçadora; e a recompensa que obtém é o açoite.
Não vai ser fácil para Raíssa obter algum respeito das outras dragoas. Por exemplo, a líder fica furiosa ao saber que uma das dragoas da aldeia, Dana (de crista roxa), achou um ovo que contém em seu interior um ser simbionte que pode dar asas ao seu hospedeiro. A recepção do simbionte se dá em um estado de inconsciência, de forma dolorosa, em que o bicho sai do ovo e se prende às costas do hospedeiro, e a partir daí ambos tornam-se um só. A partir desse ritual, parcialmente interrompido por Raíssa, Dana passa a ter a capacidade de voar.
A seguir, começa o momento do clímax da série: em uma cerimônia, onde Keyla é amarrada a um totem e seu sangue é tirado e bebido pelas outras dragoas, em um delírio, a giganta e as dragoas se vêem dentro de uma caverna vulcânica, onde se defrontam com a divindade máxima das caçadoras, a monstruosa (mas não menos atraente) Divina Serpente. O objetivo desse contato é resolver o grande problema da aldeia: a falta de machos, sem os quais as caçadoras irão se extinguir. A divindade, que chega a indagar Keyla, que é na verdade muito amada pelas caçadoras, dá um enigma para Raíssa resolver. E, após o retorno à consciência, Raíssa resolve o enigma para contornar a falta dos machos: ela e uma comitiva devem rumar à Floresta de Seda, um vale onde as dragoas colhem, de tempos em tempos, as fibras para a confecção de suas preciosas cordas de amarrar escravas.
Raíssa mais uma vez desafia as outras caçadoras, ao escolher a equipe que vai acompanhá-la na viagem. Vão com Raíssa a drogadora da aldeia, Dana, a dragoa alada, e Tura, uma especialista em cordas. A grande polêmica se dá quando ela resolve levar Keyla junto, contrariando os princípios das caçadoras. Mas é inevitável: a viagem, de toda forma, vai mudar a vida das caçadoras. Essa viagem vai fazê-las questionar tudo em que acreditavam. Imagine se você se devotasse a um dever que considerasse sagrado, que você com esse dever estivesse acreditando fazer o bem a seu semelhante; agora, imagine se esse “dever sagrado” lhe fosse mostrado como sendo errado, mau, cruel. No caso das dragoas, será a sua própria concepção da escravidão.
E, diante do grande inimigo que se apresentará ao grupo de caçadoras, um demônio que deixa as próprias caçadoras cheias de dúvidas (já que tem hábitos muito parecidos com os delas), nem mesmo Keyla escapará: para poder salvar a vida das pessoas que aprendeu a amar, ela mesma terá de contrariar seus próprios instintos. E, desse modo, o final acaba sendo cataclísmico. E a história acaba sendo excelente, do início ao fim. Porque o prêmio final, aos personagens, é muito mais que a resolução do problema inicial: acaba sendo a evolução para um nível superior.
LUA DOS DRAGÕES, é preciso avisar, combina quadrinhos com texto narrativo. Quer dizer, a maior parte da série é quadrinhos, mas nas páginas centrais (exceto na edição 6), há textos romanceados, que são essenciais para se compreender lances da narrativa. Nesses textos, Cassaro, ou Kursor Krion, explica mais sobre o cenário da história, os simbiontes alados, insere episódios que não constam nos quadrinhos, bastante reveladores, e até contém um prelúdio para Predakonn. Se eu soubesse disso antes... Se eu tivesse lido LUA DOS DRAGÕES antes de Predakonn...
Nos número 1 e 3, há extras: Cassaro e Vazzios oferecem os bastidores da criação da obra, como os desenhos e as páginas foram feitos. E a última edição ainda tem um brinde ao leitor: ilustrações dos personagens da série no traço dos diversos artistas da Trama, todos colaboradores de Marcelo Cassaro: o próprio Cassaro, Evandro Gregório, Rodrigo Reis, Joe Prado, Eduardo Francisco, André Valle e Erica Awano.
Ah, eu ia esquecendo: as características dos personagens também tiveram suas características aproveitadas no mundo de Tormenta. Os antropossauros foram incluídos como parte do mundo de Arton, como desafios para os jogadores do RPG cujo cenário faz parte de muitas aventuras de Cassaro, como as séries Holy Avenger e Dungeon Crawlers.
De toda forma, LUA DOS DRAGÕES é uma obra-prima dos quadrinhos nacionais. Como ela ainda não foi relançada?! Um roteiro sensacional, uma arte mais sensacional ainda. Apesar das insinuações sexuais, da apologia ao bondagismo e do sexo lésbico, vale a pena ser conhecida. O porém é que LUA DOS DRAGÕES não é recomendado para menores de 18 anos.
Para ler esta obra-prima, só procurando nos sebos, ou os seis números separados, ou a edição encadernada. A menos que ela seja relançada, um dia.
É pena que ainda persista esse preconceito em relação ao quadrinho nacional.
Para encerrar, eis aqui uma ilustração que fiz de Keyla e Raíssa. Admito que não ficou a melhor das ilustrações, principalmente porque errei a posição das mãos da giganta. Buá! Mas, de toda forma, é minha forma de reverenciar André Vazzios, o melhor tradutor das loucuras de Marcelo Cassaro – ao lado de Érica Awano, Daniel HDR e Eduardo Francisco.
Qualquer dia desses, eu volto com mais uma das séries da Trama/Talismã. Pode ser Holy Avenger, pode ser Lilo, o Terror Vivo, pode ser Killbite, pode ser Dungeon Crawlers ou pode ser Victory, 1 ou 2. Só o tempo dirá.






Até mais!

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