quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre a atual situação do país ou: assinando o meu óstraco

Olá.
Faz um tempo que o blog não recebe atualizações. Eu havia avisado que a diminuição no ritmo das postagens se devia a alguns trabalhos extras que ultimamente ando fazendo, tudo ao mesmo tempo, que ocupam boa parte de meu tempo.
Infelizmente, se tornou irresistível para mim fazer alguns comentários sobre a atual situação política do Brasil. E desenhar a respeito, também.
Com esta postagem, infelizmente, posso estar marcando meu homicídio enquanto desenhista, cartunista, blogueiro. Se não o foi das outras vezes, será agora.

Os últimos tempos e a observação da posição adotada pela maioria dos brasileiros, sobretudo meus amigos virtuais e colegas cartunistas, tem me deixado desse modo:



É porque são tempos em que o pessoal está descendo o porrete na classe política, e tem pegado pesado, muito pesado. Tempos de polarização, de maniqueísmo, de perda de amigos, em que a solução é a grosseria, a virulência, a violência real e virtual.
Eu não estou dizendo que apoio o governo. O que estou evitando é uma tomada direta de posição, um engajamento direto, antes de ter todas as informações a respeito de determinados assuntos, como a reforma da Previdência e etc.
O que estou percebendo, e talvez digam que estou completamente equivocado, é que o que está se promovendo, no Brasil, não é conscientização quanto aos problemas do país; é, sim, promoção de bullying. O Brasil não vai acabar com o bullying: não antes que as classes "oprimidas" se tornem bullyers, façam as classes "dominantes" pagarem por mais de 500 anos de opressão.
OK, a nossa classe política tem demonstrado ser a mais tosca e perversa dos últimos tempos. Mas, até o momento, não propuseram nenhuma alternativa melhor ao que "está aí": só se preocupam em falar mal do governo, xingar o governo, falar mal da Reforma da Previdência ("você vai trabalhar para sempre, ou você se engaja contra essa reforma, ou adeus, nunca mais me procure")... e não propõem nada, nenhuma alternativa melhor. Tudo é apenas ver o presidente Temer como um canalha, claro que por causa (apenas) da cara de canalha que ele faz nas fotos oficiais. Muita gente simplesmente não gosta da cara dele, sei disso. Não é pelo que ele fez ou faz, é só pela cara dele.
É tudo apenas crítica e bullying. Contra o governo... e contra os apoiadores do governo.
Apoiar o governo, hoje em dia, está sendo entendido como ser "do mal", indigno de confiança, corrupto, inaceitável, e a principal consequência é a perda dos amigos, de amizades de anos. Quem não grita "Fora, Temer" é considerado aliado da corja, dos corruptos, e, portanto, nunca mais será convidado para as festas. Os "alienados" serão condenados, na nova sociedade que está sendo proposta, a uma vida de impuro, de favelas, de guetos, de subempregos, de falta de sexo. Pelo menos é isso que ando percebendo: ninguém quer mais ser amigo de quem se opõe ao "povo". Qualquer palavra que seja entendida como "anti-povo", "anti-trabalhador", "anti-mulher", "anti-negro", etc., já é garantia de xingamentos nas redes sociais - "não vou ser amigo de um cara que defende a perda dos direitos trabalhistas e o retorno do regime militar"!
E o pessoal da "esquerda" está utilizando, pelo que percebo, da mesma estratégia usada para a reeleição da ex-presidente Dilma: arregimentar apoio através do medo. Da perda de direitos, do retorno do Brasil à condição de "colônia", do fim do poder aquisitivo, enfim.
Ninguém quer mais enxergar o Brasil como uma "república de bananas", de "povo que faz tudo errado", de "povo indigno de confiança" - "você, americano, compraria um carro usado de um brasileiro?" - pensar no Brasil como mais um mero pedaço de terra no Planeta Terra. Ninguém quer mais pensar no Brasil como um país que não sabe organizar um grande evento internacional, seja uma Copa ou uma Olimpíada... sem fazer desvio de dinheiro.
Dane-se o que está acontecendo em outros países: dane-se Donald Trump, dane-se que ele iniciou a destruição a natureza, dane-se o ataque de gás venenoso na Síria, dane-se o Brexit, dane-se a crise política na Venezuela, dane-se todo o Planeta Terra, que ele seja logo consumido pelo aquecimento global: para o brasileiro, de um modo geral, tudo o que importa é a maldita Reforma da Previdência, se a gente vai receber aposentadoria ou morrer trabalhando. Tudo o que importa é tirar Michel Temer do Planalto de uma vez por todas. Tudo o que importa é implantar o comunismo, a monarquia ou a ditadura militar de uma vez por todas (já que a democracia não funciona), dane-se a liberdade de imprensa e de expressão, se falar mal do povo, do trabalhador, da mulher ou do negro, vai direto pro "campo de concentração", para a "fazenda de reeducação", para aprender.
Bem. Estas palavras podem não estar sendo claras, ou precisas. Estou tentando me expressar da melhor forma que posso. O pessoal está esperando que eu diga de uma vez: "Fora Temer", ou "Fica Temer". Nem um meio-termo.
Porém, se eu disser que estou dando benefício da dúvida ao Temer, sei que estarei preparando minha urna para votação do meu ostracismo. Ninguém mais vai confiar em Rafael Grasel. Ninguém mais vai ler meus blogs, meus textos. "Rafael Grasel virou 'cachorrinho do Temer'. Rafael Grasel agora faz parte da 'corja'. Será que Rafael Grasel não sabe que todos, todos, todos os cartunistas, sem exceção, devem ser "de esquerda", sindicalistas, defensores do comunismo, anti-globalização, anti-neoliberalismo? Devem defender o povo? Devem se opor à Rede Globo, aos empresários, aos políticos, à volta da Ditadura Militar, à revista Veja? Rafael Grasel vai direto pro campo de concentração, vai ser o primeiro a perder o emprego, vai reinaugurar o pau-de-arara do DOPS. Fora, Grasel. E ainda se diz professor de História, Rafael Grasel? Até um bêbado entende de política e economia mais do que você, Rafael Grasel."
Isto é, se é que vão ler este texto, deixar seu comentário, olhar os desenhos (feitos, como muitas vezes tenho feito, diretamente com caneta, sem esboço) que ilustram esta opinião, admitidamente confusa. Se é que, nas outras vezes, não vou ser formalmente ignorado.
Pensei que este país fosse democrático. Que fosse livre a expressão de opiniões, desde que com o devido respeito. Notem que não ataquei ninguém no decorrer deste texto. Não usei palavras de baixo calão, não me dirigi a nenhuma pessoa em especial. Enquanto este país ainda se disser democrático, vou me expressando da melhor forma que consigo, mesmo sabendo dos riscos que corro nestes dias de "oito ou oitenta". Em que não há a opção de se sentar no meio da gangorra. Todos cobram engajamento de todo mundo para alguma causa, se para a implantação da "democracia de fato", ou para a "intervenção militar já". Ou você faz parte dos "canarinhos", dos "batedores de panela", ou dos "vermelhos", dos "trabalhadores". Todos os meios termos estão sendo eliminados.
Para o pessoal engajado, ser "batedor de panela" é ser um "perdedor", é garantia de ir para o "campo de concentração", porque não há escola nem educação que adiante, são as nossas figueiras estéreis. Também, num país onde cada cidadão, em média, lê (espontaneamente) apenas dois livros por ano... e passa o resto do tempo criando caso nas redes sociais.
E toda essa polarização está criando desestímulo. Estudar para quê, seguir que carreira neste país bichado, sucateado, virado em uma selva de macacos e de cobras, do jeito que os estrangeiros nos enxergam?! Pra quê desenvolvimento, tecnologia, inovação? Aqui no Brasil não se acredita mais em gente estudada, em professores: se ao menos cantassem ou jogassem futebol, aí seriam influentes... Pra quê investir no Brasil?! Por que não esperar que esse populacho se mate todo de uma vez, à vista ou à prestação?! Pra quê levar a sério o Brasil, se ninguém aqui o leva a sério?! Ninguém confia em mais ninguém no Brasil. Os diplomas são meros pedaços de papel...
Tudo isso me deixa assim, com esse sentimento:
E assim, numa profunda depressão nacional, nesse sentimento de que estou vivendo o pior momento do país, aliás, vivendo no pior país para se viver nesse momento (nem em propaganda governamental dá mais para acreditar; até o continente africano é mais digno de se viver, até no Sudão do Sul tem mais dignidade, e daí que passa por uma crise humanitária, pelo menos o problema lá não são os políticos corruptos) vou ser convidado, certamente, a assinar minha carta de expulsão da comunidade dos cartunistas brasileiros.
Talvez seja isso, a menos que eu esteja errado.
Como muitos devem enxergar que sempre estive.
Até mais.

Um comentário:

Cássio Freitas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.