domingo, 24 de abril de 2011

VÓ - Em carne, osso e cartelas de Valium

Olá.

Hoje, volto a falar de quadrinhos - e, hoje, de um quadrinho apropriado para esse clima de religião proporcionado pelo feriadão de Páscoa.

Antes, preciso dizer: uma das editoras brasileiras que atualmente vêm causando no mercado é a Leya Cult, e seu selo Barba Negra. Nessas publicações de bolso, desde 2010, estão saindo obras de muita qualidade, e a um preço acessível. Até agora, de coletâneas de quadrinhos, já saíram três obras de qualidade por essa editora: Mundinho Animal, de Arnaldo Branco; O Relatório Ota do Sexo, de Otacílio D'Assunção; e este que eu vou falar: VÓ, de Jean Galvão. E eu já tenho todos!



Jean Galvão faz parte da nova geração de cartunistas que atualmente vêm causando na cena nacional. Além de chargista na Folha de São Paulo, Jean, como ele assina, também publica ilustrações em diversas revistas, e é conhecido por três séries de tiras, todas caracterizadas pelo traço peculiar e pelo humor simples e cheio de nonsense: Animatiras, publicada semanalmente na revista Recreio da editora Abril; Chateen, que já foi publicada em diversos jornais brasileiros; e esta, VÓ.

Para falar a verdade, VÓ, até o lançamento desta coletânea pela Leya/Barba Negra, estava esquecida. Ela apareceu pela primeira vez em 2006, na revista independente Zongo Comiques, que durou apenas uma edição; e depois, foi publicada durante um período no Jornal do Brasil. Foi uma trajetória curta - o que foi uma pena.

Pena, porque a VÓ de Jean tem uma coisa que poucas personagens de HQ conseguem ter: identificação imediata com o leitor. Jean criou uma personagem verossímil, ou seja, ela, apesar de ser um personagem humorístico, existe ou pode existir em qualquer lugar. Explico: quando a gente dá uma olhada nas tiras da personagem, a gente percebe logo de cara: a VÓ parece muito com a nossa avó, ou com a nossa mãe.

A VÓ reúne diversas características de muitas avós que a gente vê por aí: moradora de uma cidade do interior, ela é religiosa - muito religiosa, e nunca perde a transmissão da bênção da água pelo radinho de pilha - , hipocondríaca - sobrevive à base de remédios - , solitária, gosta de cozinhar e de bordar para os netos, nostálgica - cultua o passado - , e cultua a memória do falecido marido. A VÓ é a avó de Jean, mas poderia ser a sua, a minha, a nossa avó. Entenderam?

Uma olhada nas tiras da VÓ também nos traz um pouco de nostalgia. A casa da VÓ é muito parecida com a da nossa avó, quando a gente ia visitá-la na infância ou ainda visita. E também traz um pouco de melancolia, já que é uma velhinha que vive sozinha, e cujos únicos passatempos são as orações, a conversa com as comadres ou a culinária e o bordado. Em suma, é uma personagem que gostaríamos de abraçar - mesmo que ela reclame de sua roupa, muito diferente da moda que ela seguia quando tinha a sua idade, e te faça comer além do que o seu estômago possa suportar.

Bem. A partir de apresentado o cotidiano da VÓ, somos introduzidos no universo nonsense e peculiar de Jean, e o nonsense se materializa a partir do momento em que o falecido marido da VÓ, Tonico, começa a se manifestar através de seu retrato no porta-retrato redondo. Isso mesmo: um porta-retrato que fala - mas que só a VÓ, até certo momento, escuta - e anda! E mais ainda: apesar de a VÓ sempre cultuar sua memória, Tonico era um grande safado em vida - e no pós-vida!

Além da VÓ e do retrato de Tonico, também fazem parte do universo da simpática velhinha: Ditinha, a vizinha velha e amiga da VÓ, apesar de também ficar se aproveitando de sua ingenuidade; o jovem farmacêutico que avia as receitas da VÓ; o vendedor de pastéis, Jesuíno, que é apaixonado pela VÓ e tenta convencê-la a fugir com ele - mas ela, presa às recordações do falecido marido, recusa; e a neta gostosinha, Carla, que vai visitar a VÓ. Apesar de ser adolescente e atraente, Carla também tem manias, como a de ser ligada em horóscopo. Ela entra em cena na segunda metade da coletânea, e já "causa" impressão.

Até mesmo a Morte participa das tiradas! Entretanto, para nosso alívio, não foi desta vez que ela levou a nossa velhinha.

A simplicidade também é marca registrada das tiradas de Jean: piadas simples, despretensiosas (apesar de ter um certo apelo) e que nunca saem de seu elemento. Diversas situações envolvem religião, culinária, remédios, conflito de gerações, as safadezas de Tonico, uma ida ao porão que pode revelar segredos "obscuros" do passado... situações que fazem parte do dia-a-dia de qualquer pessoa velha ou jovem.

As tiras se apresentam em três formatos de diagramação: na vertical, com duas tiras por página; tiras únicas que ocupam duas páginas; e tiras com os quadrinhos arranjados para caber em uma única página. E todas com um título. E apresentadas ou em forma de tiras independentes, ou em arco.

Não é à toa: VÓ foi um dos lançamentos mais elogiados do selo Barba Negra. O sucesso que está fazendo pode, de repente, garantir a continuidade da série, e, quem sabe, uma segunda coletânea. Ah: já está nos planos dos editores da Leya/Barba Negra uma coletânea da série Chateen.

VÓ tem prefácio de Bennett, que foi o editor da Zongo Comiques. E o preço é acessível: R$ 12,90! Vale o investimento! À venda nas melhores livrarias e bancas de revista!

Para encerrar, já que a VÓ de Jean é religiosa, resolvi fazer uma ilustração "religiosa" também. Tem certos momentos em que temos mais é que ouvir o ditado: "ajoelhou, tem que rezar". Isso, evidentemente, é para os católicos. Mas católico, evangélico, judeu, islâmico, budista, hindu ou outro religioso (ateus, agnósticos ou descrentes estão liberados), saibam: Deus, seja qual forma ele assuma, está observando.

Por isso meu boneco rezador está ajoelhado no milho. Todos nós precisamos acertar contas com o Criador.
UTILIDADE PÚBLICA
Atenção: neste dia 2 de maio, em Santa Maria, RS, na Feira do Livro de Santa Maria, acontecerá o lançamento de mais um número da revista Quadrante X, do Núcleo de Quadrinhistas de Santa Maria. É claro que o bonitão aqui está participando da coletânea deste ano, cujo tema central é Política.
Confira o trailer, produzido pelo pessoal do Núcleo, em: http://quadrinhossa.blogspot.com/.
Até mais!

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