segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MANGÁ DO COMEÇO AO FIM - terminando o ano com um giro de mercado

Olá.
Como última postagem de 2013 aqui no blog, hoje escolhi resenhar um lançamento recente nas bancas – muitos frequentadores de bancas de revista ainda não devem ter reparado nas seções de revistas informativas (pelo menos, era a sensação que tive até bater os olhos neste livro). Ele pode ser confundido com uma das várias publicações disponíveis que ensinam a desenhar. Mas não é uma publicação que ensina a desenhar. É um livro informativo.
Bão. Lançado agora, em dezembro de 2013, está disponível este livro informativo que já nasce indispensável aos fãs de cultura pop japonesa: 400 IMAGENS – MANGÁ DO COMEÇO AO FIM, de Sérgio Peixoto.

O livro foi lançado numa parceria entre as editoras Criativo e Discovery Publicações. E, conforme o título entrega, trata-se de um livro ilustrado, colorido, de 96 páginas (sem contar capa), reunindo uma série de artigos sobre o mundo dos mangás japoneses – incluindo coisas que a gente não sabia sobre o mundo dos BESM (“Big Eyes, Small Mouth”, “Olhos Enormes, Bocas Pequenas”), ou como preferirem, os famosos personagens de olhos grandes que tantos apreciam dos desenhos animados, quadrinhos, ilustrações... made in Japan, lógico.
Não há de se negar que o mercado dos mangás é um dos mais rentáveis do mundo. O estilo japonês de desenhar dominou o mundo entre os anos 90 do século XX e 2000 do século XXI, com força. O próprio Peixoto afirma que há tantos desenhistas no Japão quanto jogadores de futebol no Brasil – são mercados equivalentes. Porém, vocês também já devem ter reparado que, nos últimos tempos, os mangás japoneses que atualmente atulham as seções de quadrinhos das bancas junto com os comics estadunidenses e os fumetti italianos, estão perdendo qualidade, não são mais o que já eram.
Sérgio Peixoto, experiente redator e editor de revistas informativas sobre cultura pop japonesa (entre elas, revistas históricas como a Japan Fury, a Animax e a Anime EX, que faziam sucesso nas bancas entre os anos 90 e 2000), confirma essas suspeitas de que o mangá já não é mais o que já foi. O livro reúne sete matérias, em ordem não-cronológica, sobre o mundo dos mangás no Japão e no Brasil, publicadas em diversas revistas brasileiras.
As matérias assumem um tom contundente, ou apresentando ao leitor coisas que a gente não sabia sobre o mundo dos mangás, ou confirmando o que a gente já desconfiava. No entanto, o livro tem muitas informações que parecem contraditórias com outras seções do mesmo livro, ou informações consagradas, e muita repetição de informações – como os artigos foram republicados no original, provindos de revistas diferentes, é natural que Peixoto use mais de uma vez a mesma informação em um texto, depois em outro, de forma mais detalhada... mas esses textos, para não criar confusão, poderiam ter passado por uma editada, só para não ficar excessivamente repetitivo, como alguém que precise dar uma mesma explicação várias vezes, mesmo a pessoa já ter entendido o recado.
Quanto às ilustrações, elas são bem espalhadas, escolhidas, incluem fotos sobre a realidade japonesa, amostras de capas de mangás e ilustrações de séries célebres, mas poucas são as que tem legendas explicativas vitais para o entendimento do tópico.
Bão. Peixoto parte do básico para quem ainda não é totalmente fluente do universo dos personagens de olhos enormes. Após a introdução, contando de onde nasceu a paixão do autor pelo universo dos mangás e animes, no primeiro artigo, Mangá Para Quem Não Conhece, ele começa dando algumas informações básicas sobre o mercado japonês e suas origens, e um pequeno apanhado da história do mangá japonês, desde o século XIX até o XXI. Ou talvez, a origem das HQ japonesas vá bem mais para trás, por volta do século VIII d.C., quando as principais narrativas figuradas, mais parecidas com livros ilustrados, eram as dos pergaminhos ilustrados (emakimono). Só no século XIX é que apareceria Katsushita Hokusai, ilustrador e considerado o primeiro cujos trabalhos foram chamados de mangá – junção de termos japoneses que, na tradução literal, fica algo como “imagens irrisórias, engraçadas".
No segundo artigo, Os Olhos Grandes do Mangá, Peixoto dá uma explicação sobre o porquê do uso do recurso dos olhos imensos nas figuras mangá. Vocês sabiam que o inventor dos olhos grandes do mangá não foi, como muitos pensam, o “Deus Mangá” Osamu Tezuka, mas um ilustrador de revistas femininas chamado Jun-Ichi Nakahara, que atuou entre os anos 30 e 50 do século XX? Sim, foi Nakahara quem depois exerceu influência sobre Tezuka, que por sua vez influenciou todos os quadrinhistas (mangakás) posteriores. E esclarece: nem todo desenhista que desenha figuras de olhos grandes está desenhando mangá, um termo exclusivo para as HQ japonesas – mas será que já podemos chamar a produção ocidental influenciada pelo estilo japonês de mangá?
No artigo seguinte, Nem Tudo é Olho Grande, Peixoto enumera alguns exemplos, ligados aos mangás adultos (gekigá) que fogem do estereótipo dos olhos grandes em seus trabalhos. Como exemplos, ele cita os trabalhos de Matsumoto Jiro, Motofumi Kobayashi e Yukinobu Hoshino, artistas pouco conhecidos aqui no Brasil.
O artigo seguinte é O Mangá no Brasil, onde são contadas as iniciativas de artistas brasileiros de produzir arte “estilo mangá”, e principalmente se popularizarem entre os negligentes leitores brasileiros, partindo desde quando o público leitor de mangás era restrito à comunidade nipo-brasileira, até o surgimento da Editora Edrel, nos anos 60, que publicou muitas HQ no estilo; as iniciativas efêmeras da Grafipar, nos anos 70, de ressuscitar o estilo; iniciativas isoladas nos anos 80, até a explosão do sucesso do anime Cavaleiros do Zodíaco, em 1994; as primeiras revistas informativas, como a Herói (1994); a chegada com força total dos mangás japoneses em leitura invertida no Brasil; e chega até as primeiras décadas do século XXI, onde, apesar do sucesso comercial de Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Erica Awano, o mercado do “mangá brasileiro” praticamente morreu após muitas tentativas feitas por pequenas e persistentes editoras.
E, finalmente, numa matéria em três partes, O Fim do Mangá, Peixoto enumera os motivos por que os mangás japoneses já não são mais os mesmos. No primeiro artigo, ele reconta a história do mangá japonês para explicar como o mercado japonês chegou aos grandes patamares observados no início do século XXI. Vocês sabiam que os gibis japoneses – as famosas “listas telefônicas” semanais de 350 páginas que os japoneses leem e depois jogam fora – raramente dão lucro às editoras? O lucro delas vem da venda dos tankoubons (livros), onde as melhores séries publicadas nas revistas são compiladas. Sabiam ainda que a célebre revista Shounen Jump, a mais vendida do Japão, que atualmente vende cerca de 2,8 milhões de exemplares semanais, chegou a vender 6,5 milhões de exemplares (um recorde) em 1996?! Mas por que as vendas caíram “tanto” assim?
Peixoto começa a responder essa pergunta no segundo artigo da série. Ele faz um comparativo entre o mercado de mangás e as estratégias japonesas durante a Segunda Guerra Mundial (1935 – 1945). No chamado Mal da Vitória, o exército japonês resolveu, após as primeiras vitórias na Guerra no Pacífico, continuar a expansão ao invés de dar uma pausa para consolidar as conquistas – estratégia motivada por ganância e excesso de autoconfiança de seus líderes que, em pouco tempo, levou ao desgaste e à derrota do império japonês na Guerra. Algo assim aconteceu com o mercado mangás nos anos 90: com o sucesso crescente, inclusive com as adaptações para anime de muitos títulos, os editores japoneses começaram a expandir o mercado, em várias publicações semanais (sem falar no reconhecimento mundial obtido a partir do fim da década de 1980), e, consequentemente, a qualidade dos mangás começou a cair – e o interesse do público, idem, traduzindo-se em baixas vendas.
É algo que já vínhamos constatando, e que Peixoto confirma na terceira parte da série. Os mangás, atualmente, estão investindo mais em arte de alto impacto que em boas histórias, e isso pode ser constatado no aumento do fanservice, ou do uso indiscriminado de figuras de garotas sensuais nos mangás e animes – mostrando as calcinhas ou com pouca roupa, ou mesmo nuas. Ainda que o público, em tese, gostasse mais assim, a queda da qualidade dos roteiros se fez notar. Peixoto ainda enumera outros motivos para a queda do interesse do público pelos mangás: a internet, os videogames e as light novels (livros de contos ilustrados), onde atualmente estão se concentrando as histórias mais interessantes. Ao fim da leitura, estamos convencidos que o mercado de mangás não é mais o que já foi, mesmo. Eu também já sinto falta do tempo em que os japoneses tinham excelentes histórias para vender, e não só o conjunto “mulher pelada e pancadaria”. Pode até ser mais atraente assim, mas depois da leitura dá uma sensação de vazio, de que falta alguma coisa, de que poderia ter sido muito melhor.
Encerrando o livro, um artigo de Eduardo Miranda, ex-chefe da Divisão de Cinema da extinta TV Manchete (e, portanto, o principal responsável pela exibição de animes e tokusatsus no saudoso canal – e que quase foi linchado por fãs quando resolveu suspender a exibição do saudoso anime Sailor Moon), falando sobre o autor. Mas faltou ao livro, ainda, bibliografia e informações sobre de que revistas os artigos saíram. Como saber se as informações apresentadas são confiáveis? Talvez, só comparando as informações com a internet. Mas, tendo a marca Discovery (um dos maiores conglomerados de informação do mundo), já mostra ser confiável.
O livro custa R$ 24,90. E já nasce indispensável aos fãs do estilo. Para o próximo ano, já sabe o que levar das bancas.
Para encerrar o ano, duas ilustrações minhas.
A primeira é um voto de Feliz Ano Novo direcionado aos professores e profissionais de educação. De um professor para professores. Com os desejos de que o próximo ano seja melhor para o setor que o anterior. A ilustração também pode ser vista em http://orientarpedagogos.blogspot.com.br/ (Blog Educar é Viver, onde eu também colaboro esporadicamente).
E a segunda é a minha tradicional ilustração de ano novo. Este ano, encarreguei meus personagens praianos, os Bitifrendis (http://bitifrendisblog.blogspot.com.br/), da mensagem. Quis produzir um bom efeito para os fogos de artifício no papel... será que consegui? Digam vocês.
De todo modo... um Feliz Ano Novo a todos! Obrigado pelo prestígio dado neste ano! E aguardem novidades para os primeiros dias deste ano!

Até mais! 

Um comentário:

Sérgio Peixoto Silva disse...

EXECELENTE matéria sobre meu livro, Rafael! A melhor que recebi até o momento. Bem escrita, sem ufanismos ou puxações de saco - uma análise imparcial de ponta a ponta. Eu estava sentindo falta e torcia para alguém fazer, pois apesar de editar/escrever revistas há mais de 20 anos, este é de fato meu primeiro livro. Tenho outros planejados para serem feitos ainda este ano. Os erros que você aponta estão devidamente anotados, e serão levados em conta para minhas próximas publicações.

Apenas esclarecendo o item que você comentou sobre repetição de informações, algumas delas foram propositais. Fiz isso porque, em minha experiencia lidando com fãs de anime/mangá brasileiro em revistas e eventos, na média eles são muito desatentos quando se trata de gravar informação. Por isso, alguma repetição se faz necessária como o caso de eu ter citado Jun-ichi Nakahara como o criador dos olhos grandes em três matérias diferentes. Posso dizer com quase 100% de certeza que NINGUÉM no Brasil sequer citou-0 em uma minima matéria que seja, sabia? Meu livro é o primeiro a dizer com todas as letras que ele é "o criador dos olhos grandes do mangá". Ainda terei que fazer uma matéria caprichada dedicada somente a ele, pois concordo quando você diz que as informações ficaram espalhadas.

Muito obrigado por sua análise imparcial, e espero que nos conheçamos pessoalmente algum dia.

Abraços!

Se desejar me add no face: https://www.facebook.com/sergius.peixotosilva