segunda-feira, 6 de março de 2017

Livro: O SOLDADO QUE NÃO ERA

Olá.
Hoje, vamos falar de livro infanto-juvenil, para variar um pouco os tipos de livro que tenho resenhado aqui no blog. Mas também vamos continuar falando de História, já que formado em História eu também sou.
O autor do livro de hoje já faleceu. E era colega de profissão – professor, historiador e escritor. Não, nunca cheguei a conhece-lo pessoalmente. Mas sua obra me é conhecida.
E o livro de hoje trata de um episódio pouco conhecido de um dos capítulos mais conhecidos de nossa história. E, perto que estamos do Dia da Mulher, o episódio envolve uma mulher de coragem.
Todo esse preâmbulo é para apresentar O SOLDADO QUE NÃO ERA, de Joel Rufino dos Santos.

O AUTOR
Bem. Antes de falar da obra, como tenho feito muitas vezes aqui, costumo falar um pouco a respeito do autor, pensando na parcela de meus 17 leitores que está chegando agora, e que não é tão interessada em literatura quanto a princípio parece. No caso presente, Joel Rufino dos Santos (1941 – 2015) teve sua importância dentro da história da literatura infanto-juvenil brasileira, além de ativista político, professor, autor de livros didáticos e divulgador da cultura afro-brasileira.
Como sua carreira e obra são extensos, melhor que eu me sirva da biografia que peguei “emprestada” do website oficial do autor:

“Filho de pernambucanos, Joel nasceu no ano de 1941 em Cascadura, subúrbio carioca.
Desde criança se encantava com as histórias que a sua avó Maria lhe contava e as passagens da Bíblia que ouvia. Junto com os gibis, que lia escondido de sua mãe, esse foi o tripé da paixão literária do futuro fazedor de histórias. Seu pai também teve um papel nessa formação, presenteando-o com livros que Joel guardava em um caixote.
Ainda jovem, mudou-se com a família para o bairro da Glória e pouco depois entrou para o curso de História da antiga Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, onde começou a sua carreira de professor, dando aula no cursinho pré-vestibular do grêmio da Faculdade.
Convidado pelo historiador Nelson Werneck Sodré  para ser seu assistente no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), lá conviveu com grandes pensadores, e foi um dos coautores da História Nova do Brasil [1963], um marco da historiografia brasileira.
Com o golpe de 1964, Joel, por sua militância política, precisou sair do Brasil, asilando-se na Bolívia, depois no Chile. Com o exílio, não só interrompeu a sua vida acadêmica, como também não participou do nascimento do seu primeiro filho, que se chama Nelson em homenagem ao  mestre e amigo.
Voltando ao Brasil, viveu semiclandestino, e foi preso 3 vezes. Na última, cumpriu pena no Presídio do Hipódromo (1972-1974). As cartas, muitas, que escreveu para Nelson, foram, mais tarde, publicadas no livro Quando eu voltei, tive uma surpresa, que recebeu, da FNLIJ, o Prêmio Orígenes Lessa - O melhor do ano (2000) para jovens leitores.
Com a aprovação da Lei da Anistia, foi reintegrado ao Ministério da Educação e convidado a dar aulas na graduação da Faculdade de Letras e posteriormente na pós-graduação da Escola de Comunicação, UFRJ. Obteve, da Universidade, os títulos de ‘Notório Saber e Alta Qualificação em História’ e ‘Doutor em Comunicação e Cultura’. Recebeu também,  do Ministério da Cultura, a comenda da Ordem do Rio Branco, por seu trabalho pela cultura brasileira.
Como escritor, Joel [foi] plural. Escreveu inúmeros livros para crianças, jovens e adultos. Ficção e não ficção. Ensaios, artigos, participação em coletâneas. Recebeu, como autor de livros para crianças e jovens, vários prêmios, tendo sido duas vezes finalista do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. Já como romancista recebeu, do Pen Clube do Brasil, em 2014, o Prêmio Literário Nacional na categoria ‘Narrativas’.
Joel  [foi] casado com Teresa Garbayo dos Santos, autora do livro Conversando com casais grávidos. Nelson e Juliana são os seus filhos. Eduardo, Raphael, Isabel e Victoria, os netos queridos.
Joel Rufino dos Santos faleceu em 4 de setembro de 2015, por complicações decorrentes de uma cirurgia cardíaca.
Mas Joel continuará vivo no coração e na memória de todos que com ele conviveram, ou o conheceram através da leitura de seus livros, e reconhecem o valor de uma  vida marcada pela luta por justiça social, pelo fim dos preconceitos  e pela defesa da cultura popular brasileira.
Sua última função pública foi no Tribunal de Justiça, onde exerceu, de forma inovadora, a função de Diretor Geral de Comunicação, estabelecendo pontes entre o Tribunal e a sociedade civil.  Provocou debates, encenou o ‘desenforcamento’ de Tiradentes e promoveu um baile ‘charme’ em que o povo pobre e negro foi convidado a comparecer não como réu, mas como criador de beleza, como pensador.
Quer saber mais sobre o Joel? Ele também foi:
- Coordenador, no ISER, do programa ‘Quanto vale uma criança negra’;
- Diretor do Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro;
- Presidente da Fundação Cultural Palmares (MINC);
- Membro do Conselho de Cultura e da Secretaria estadual de Cultura;
- Superintendente de Cultura da Secretaria estadual de Cultura;
- Subsecretário estadual de Defesa e Promoção das Populações Negras;
- Subsecretário da Secretaria estadual de Justiça e Direitos Humanos;
- Diretor de Comunicação Social do Tribunal de Justiça e também do Tribunal Regional do Trabalho;
- Representante do Brasil no Comitê Científico Internacional da UNESCO para o Programa ‘Rota dos Escravos’;
- Consultor brasileiro do Programa Escolas Associadas, da UNESCO;
- Membro da Comissão de Comunicação Institucional do Tribunal de Justiça; 
- Membro do Conselho Estadual de Tombamento do Rio de Janeiro;
- Consultor Especial do Minc para o Programa Centenário da Abolição;
- Membro do Comitê Internacional da Diáspora Negra, Washington DC.”

Para complementar as informações acima: segundo a breve biografia constante no final de O SOLDADO QUE NÃO ERA: na infância, Joel Rufino dos Santos desejou “ser várias coisas estrambólicas: pipoqueiro, astrônomo, vendedor de gibi, craque de futebol, cigano”. Virou escritor de profissão por conta da “incurável doença de ler e escrever”. Era apreciador de futebol – “Não foi bom aluno nem bom filho por culpa dessa obsessão. Amava tanto a arte de jogar bola que nunca teve um time só: [torcia] por todos. (Uma época, é verdade, torceu pelo Botafogo; outra, pelo Palmeiras; pelo Atlético; [...] pelo Flamengo. Sempre pelo melhor.)” – e de samba - “[Era] quase um defeito, esse gostar. Não [ligava] pra rock, pra música clássica, pra bolero. Um tempo gostou muito de canção francesa e de jazz; de Sergio Endrigo e John Lennon – mas sem devoção. [Era] vibrador da Mangueira, da Vai-Vai, da Unidos do Poço, de Maceió, e assim por diante. Sonhou, quando garoto, em chegar a presidente da República e decretar a substituição das universidades por escolas de samba”. Fez política, “e primou – parece – pela falta de qualquer dogmatismo. [Achava] que o socialismo, como forma de organização social, é bem melhor do que isso que está aí; mas não [tinha] ilusões a respeito dele. Gostaria de ver o povão mais contente (pra ser exato: pela primeira vez contente) e se [animava] muito pensando que, através da Literatura, [pudesse] ajudar nessa tarefa”.
Os livros? Suas principais obras foram, tirando os livros didáticos que escreveu e/ou colaborou: na área infanto-juvenil, apontamos O Caçador de Lobisomem (1976), Marinho, o Marinheiro, e outras histórias (1977), Aventuras no País do Pinta-Aparece (1977), Uma Estranha Aventura em Talalai (1979), O Curumim que virou gigante (1980), Quatro Dias de Rebelião (1980), O Noivo da Cutia (1980), Uma Festa no Céu (1982), O Soldado que não era (1983), A Botija de Ouro (1984), Dudu Calunga (1986), Rainha Quiximbi (1986), História de Trancoso (1987), Mania de Trocar (1991), Gosto de África (1998), O Presente de Ossanha (2000), Duas histórias muito engraçadas (2002), O Barbeiro e o judeu da prestação contra o sargento da motocicleta (2007), Histórias de Bichos (2010)... Já no setor não-infantil, destacamos: O Dia em que o povo ganhou (1979), O Que é Racismo (1980), História política do futebol brasileiro (1981), Zumbi dos Palmares (1985), A Questão do Negro em sala de aula (1990), Quando eu voltei, tive uma surpresa (2000), Paulo e Virgínia (2001), A Nova Justiça (2005), Na Rota dos Tubarões (2008), Carolina Maria de Jesus – Uma escritora improvável (2010, considerado sua obra-prima), Saber do Negro (2015)... No site, há uma relação mais completa de todas as obras publicadas, e dos prêmios aos quais concorreu e/ou venceu, bem como suas participações em eventos no exterior. E também dos contos que publicou em revistas como Recreio, Nova Escola e Ciência Hoje das Crianças. Joel Rufino ainda teve passagens pela televisão: foi colaborador nas minisséries Abolição (1988) e República (1989), ambas transmitidas pela Rede Globo.

O LIVRO ESCOLHIDO
Bão. O SOLDADO QUE NÃO ERA foi publicado pela primeira vez em 1983. Todas as edições do livro foram lançadas pela Editora Moderna. Mas, no total, o livro teve três projetos gráficos. De 1983 a 1985, o livro teve capa e ilustrações de Carlos de Brito (primeira capa vista nesta postagem); de 1986 a 1997, a capa e as ilustrações ficaram a cargo de Eduardo Vetillo (segunda capa, acima); e, de 2003 em diante, a capa e as ilustrações ficaram a cargo de Rogério Borges (capa adiante).
O romance infanto-juvenil se propõe a ser uma recriação, em forma de ficção, da trajetória de lutas de Maria Quitéria de Jesus (1792 – 1853), heroína da Independência brasileira – e dentro das preceitos de sua cartilha historiográfica: um romance de fácil compreensão, em linguagem dos jovens leitores, e se preocupando em retratar a História do ponto de vista do povo, em uma época que ainda vigorava a história “oficial”, construída “nos gabinetes”, de exaltação às “grandes figuras”. Maria Quitéria esteve longe de ser uma das “grandes figuras”, apesar de tudo o que fez pelo Brasil. Mas não foi por falta de informação a seu respeito.

A HEROÍNA
Como todos sabem, a Independência do Brasil foi proclamada em 7 de setembro de 1822, quando o então príncipe-regente D. Pedro, futuro imperador brasileiro D. Pedro I, esteve se aliviando de uma “indisposição estomacal” às margens do Rio Ipiranga, no estado de São Paulo (ele e sua comitiva estavam a caminho da cidade de São Paulo), quando recebeu uma série de mensagens informando que as cortes de Portugal pretendiam limitar seus poderes governamentais; e, numa atitude inesperada, D. Pedro, conhecido tanto pela sua maneira de governar e por sua impulsividade quanto por seus casos amorosos, declarou, aos gritos, que o Brasil, daquele dia em diante, seria independente de Portugal. Meses antes (em 9 de janeiro), ele já havia desafiado essas mesmas cortes, declarando que ficava no Brasil, ao invés de voltar para Portugal.
Quem estuda história seriamente sabe que a Independência do Brasil foi fruto de um longo processo, iniciado em 1808, no momento em que a Família Real Portuguesa, fugindo da invasão de Portugal das tropas de Napoleão Bonaparte, veio se refugiar na então colônia. A abertura dos Portos às Nações Amigas (1808) e a elevação do Brasil a sede do império português (1815) foram os eventos que passaram a dar mais autonomia à colônia, acendendo o desejo da emancipação total – no entanto, quando a Família Real voltou para Portugal, deixando D. Pedro como regente, as cortes portuguesas tentaram reverter todo esse processo de autonomia e devolver o Brasil à condição de mera colônia. O grito de D. Pedro I nas margens do Rio Ipiranga foi o ponto culminante desse processo. Mas ainda faltava muito para que o Brasil fosse reconhecido como nação. E há, ainda hoje, quem acredite que o Brasil ainda não é independente: de colônia de Portugal, passou a ser “colônia”, economicamente, da Inglaterra e das multinacionais estrangeiras. Ou seja, nossa independência foi unicamente política. Mas deixemos esse assunto para depois.
Colocado assim, o processo de independência brasileira pareceu pacífico e “jogo de cartas marcadas”, sem grande participação popular, ao contrário das independências de outras nações da América Latina, que envolveram guerras e “revoluções” com apoio popular – e, por isso, são comemoradas entusiasticamente, ao contrário do Brasil, onde o 7 de setembro é visto como só mais um feriado, e as demonstrações cívicas, ligadas ao passado “nefasto” do nosso país, são vistas como traumatizantes (ainda por cima porque, apesar de independente, o Brasil manteve o modo de produção escravista, só abolido em 1888, e os interesses das classes dominantes sobre os das classes dominadas).
O que poucos lembram é que aqui, sim, houve guerra. Houve envolvimento popular na causa da independência. E quem sabe disso melhor que o restante do Brasil são os baianos: foi na Bahia que, por algum tempo antes e após o Grito do Ipiranga, foi travada uma importante guerra entre brasileiros e tropas portuguesas pela emancipação e pela consolidação da Independência. Ela ocorreu de 19 de fevereiro de 1822 a 2 de julho de 1823, data em que os portugueses foram finalmente expulsos da Bahia. Essa série de batalhas na Bahia foi travada por um exército brasileiro malformado, quase unicamente de voluntários das classes populares, já que o exército brasileiro, oficialmente, ainda não existia. Para dar auxílio, D. Pedro teve de contratar mercenários estrangeiros.
Essa guerra na Bahia foi marcada por dois episódios exóticos, ambos ocorridos em Pirajá, no dia 8 de novembro de 1822, palco da mais importante batalha: o primeiro foi a famosa e lendária história de Luís Lopes, o corneteiro que tocou o toque de avançar no lugar do de retirada, assustando as tropas portuguesas que então se encontravam em vantagem em relação aos brasileiros; e o segundo foi, claro, a atuação de Maria Quitéria.
Para esclarecer aos leitores sobre a figura de Maria Quitéria, passo agora a palavra a Laurentino Gomes, em trecho do livro 1822 (2010):
“(...) Nascida em Feira de Santana, filha de lavradores pobres, Maria Quitéria de Jesus tinha trinta anos quando a Bahia começou a pegar em armas contra os portugueses. Apesar da proibição de mulheres nos batalhões de voluntários, decidiu alistar-se às escondidas. Cortou os cabelos, amarrou os seios, vestiu-se de homem e incorporou-se às fileiras brasileiras com o nome de ‘Soldado Medeiros’. Duas semanas depois foi descoberta pelo pai, que tentou levá-la à força de volta para casa. Os colegas de quartel, já impressionados com a habilidade com que Maria Quitéria manejava armas, imploraram para que ela ficasse. O oficial comandante concordou, mas impôs uma condição: em vez da farda masculina, ela usaria um saiote à moda escocesa.
Maria Quitéria participou de pelo menos três combates e em todos se destacou pela bravura. Antes de ser destituído do comando, o general Labatut lhe conferiu o posto de primeiro-cadete. Seu substituto, o coronel Lima e Silva prestou-lhe uma homenagem em público descrevendo suas façanhas. ‘Apresentou feitos de grande heroísmo, avançando, de uma vez, por dentro de um rio, com água até os peitos, sobre uma barca que batia renhidamente nossas tropas’, assinalou. A suprema glória, no entanto, viria no dia 20 de agosto [de 1823], quando Maria Quitéria foi recebida no Rio de Janeiro pelo imperador Pedro I e condecorada com a Ordem do Cruzeiro. A inglesa Maria Graham, que a conheceu na ocasião, descreveu-a como ‘viva, de inteligência clara e percepção aguda’. E acrescentou: ‘Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis.’ De volta à Bahia, Maria Quitéria casou-se com um antigo namorado, o agricultor Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Morreu em Salvador aos 61 anos.” (GOMES, Laurentino. 1822. P. 204 – 205)
Apesar dos feitos em prol da consolidação da independência brasileira, Maria Quitéria morreu no anonimato – e consta que até fora perdoada pelo pai, mas abriu mão de sua parte na herança; mas há versões que, contraditoriamente, afirmam que o pai jamais perdoou a “travessura” de Maria Quitéria. As homenagens recebidas, além das recebidas em 1823, foram póstumas: Maria Quitéria dá nome, por exemplo, a duas comendas oferecidas pelas câmaras de Salvador e de Feira de Santana (BA) a personalidades de destaque; e a heroína também ganhou um monumento na mesma Feira de Santana. Seu retrato mais conhecido foi pintado por Domenico Failutti na década de 1920, a partir de uma gravura constante no livro de Maria Graham, Diário de uma Viagem ao Brasil.

A HEROÍNA NO LIVRO
Bem. Para começar, O SOLDADO QUE NÃO ERA é um livro de leitura rápida. Esta postagem se baseia na edição de 1990 – a 22ª – com as ilustrações de Eduardo Vetillo. Esta edição tem 48 páginas, sem contar capa. A mais recente chega a 64 páginas, mas, no todo, a leitura é breve (leva menos de uma hora) e não exige demais do leitor.
No início do livro, o autor dá um aviso aos jovens leitores:
“Esta história aconteceu de verdade. As personagens também não foram inventadas. José Luís, Lucas, o boticário Massa, Barros Falcão, Teresa, o velho Gonçalo, o Trinta Diabos, o Madeira Podre (que se chamava, na verdade, Inácio Luís Madeira de Melo), padre Brayner, e, naturalmente, D. Pedro e Maria Quitéria – eram pessoas de carne e osso.
Elas não disseram, necessariamente, aquilo que eu as diz dizer. Não importa. Como não sabemos exatamente o que disseram, podemos imaginar. Qualquer um tem esse direito.
Está contada a minha história, verdade e imaginação. Se você quiser, pode tirar uma lição. Se não quiser, pode apenas se divertir.” (p. 5)
Então, os fatos apresentados no romance são verdadeiros, visto que Joel Rufino dos Santos era historiador – mas existem alguns fatos contraditórios aos levantados em pesquisa prévia na internet e em outros livros. Sua versão da trajetória de Maria Quitéria foi dividida em três partes, e estruturada de modo a não entregar toda a trama antes do final, deixando ao leitor fazer a descoberta a respeito da identidade da senhora apresentada no início do livro. Essa estrutura do personagem construído aos poucos, no entanto, pode confundir os leitores mais jovens e desacostumados, principalmente os que desconhecem Maria Quitéria e/ou os eventos apresentados.
Bem. A história começa com uma senhora: uma velha que circulava pelas ruas da Salvador do século XIX, o Brasil já independente, trajando um fardão e levando a tiracolo uma longa espada que arrastava no chão. Ninguém sabia quem era aquela senhora, que vivia modestamente com a filha – ela nem mesmo contava a respeito de seu passado, e se limitava apenas a ser apelidada de “periquito” pela molecada. Um dia, pouco depois que a senhora sai do mercado, entra no mesmo local um homem, pedindo informações a respeito de uma certa Maria Quitéria, que praticamente ninguém ouvira falar. O homem se apresenta como enviado do Imperador do Brasil, e começa a contar a história da tal Maria Quitéria.
Na primeira parte, A noite com seus bacuraus e pirilampos, começa com os primeiros “movimentos” dos brasileiros contra os portugueses, ainda antes do 7 de setembro de 1822. O povo já estava cansado da exploração feita por Portugal. Na cidade de Cachoeira, na Bahia, muitos “patriotas”, ou melhor, pessoas que ousavam falar de independência, se refugiavam da perseguição empreendida pelo então governador militar, Inácio Luís Madeira de Melo, português e, portanto, inimigo. O movimento começou, de fato, com um tiro, que matou um tamborileiro: esse tamborileiro, Soledade, fazia parte de uma tropa rebelde do exército, a favor da causa brasileira; o tiro que o matou teria vindo de um empório administrado por portugueses inimigos. A casa do proprietário do empório foi destruída, a escuna naval enviada para capturar patriotas foi tomada, um governo foi organizado na Bahia e o exército começou a ser organizado para enfrentar os portugueses. Um dos emissários desse novo governo chegou a uma fazenda na Serra da Agulha, onde vivia um certo Gonçalo, viúvo, e suas duas filhas. Esse emissário veio pedir ajuda com homens ou dinheiro para a causa da independência, porém, Gonçalo alega que não tem como ajudar. Mas a vinda do emissário e seu assunto despertam o interesse de uma das filhas desse senhor. D. Maria. À noite, Maria acaba empreendendo uma fuga, às escondidas. Um pouco depois, em Cachoeira, se apresentava um certo Medeiros, como voluntário. Acaba sendo incorporado a uma tropa composta de gente maltrapilha e que combatia descalça, porém Medeiros sonhava, mesmo, em vestir um fardão. Insiste com seus superiores para mudar de regimento, ao constatar que haviam diferenças gritantes entre os diferentes regimentos do “exército” em formação – e consegue. E ainda faz um amigo, o furriel José Luís.
A segunda parte, O Gosto e o cheiro do sangue e da pólvora, inicia em Nazaré das Farinhas (BA). Começa quando Medeiros e Zé Luís encontram, lá, um negro preso a um tronco, besuntado de mel, condenado para ser devorado pelas formigas. Indignados, os soldados procuram a dona do escravo e negociam para que ele seja incorporado ao exército – mas teriam de pagar um alto valor em dinheiro, dentro de três meses, pelo escravo. Desse modo, o negro Lucas se torna o segundo parceiro de Medeiros. E, juntos, o trio já se destaca pela valentia: juntos, na batalha de Itaparica, conseguem capturar o temido comandante português conhecido como Trinta Diabos. E Medeiros ainda ganha uma promoção – e aulas de leitura com um boticário, Massa, um dos patriotas instruídos. Mas, um pouco depois, a verdade acaba vindo à tona, quando Gonçalo aparece em busca da filha fugitiva: Medeiros, na realidade, é Maria Quitéria. O homem tenta levá-la para casa à força, no entanto, o comandante insiste para que a moça fique – praticamente, todos no exército já sabiam que Medeiros era mulher, e exceção ali (as outras mulheres incorporadas ao exército trabalhavam na cozinha e na limpeza). Gonçalo permite a permanência de Maria, porém deserda a filha – e a deixa sem notícias da irmã, Teresa. E o prazo do “empréstimo” de Lucas está chegando ao fim, o que é uma preocupação, pois o escravo se afeiçoou a Medeiros/Maria. Pouco depois, ocorre a batalha de Pirajá, com o episódio do corneteiro que acaba dando o toque errado. A batalha tem êxito para os brasileiros, porém Luís Lopes, o corneteiro, acaba punido. Depois, em Itapoã, ocorre nova batalha. Medeiros/Maria se destaca novamente, mas acaba perdendo o amigo e possível paixão, Zé Luís. Depois disso é que Maria recebe o saiote, que passa a usar por cima das calças.
Vem a terceira parte, Os outros homens que lutaram e morreram. Com as batalhas finais da guerra da independência, vitoriosas graças à atuação de Maria Quitéria. Vem o dia 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva dos portugueses, consolidando, momentaneamente, a independência do Brasil (ainda seria preciso o reconhecimento internacional e o pagamento de uma indenização para Portugal, por parte de D. Pedro, para a plena consolidação da Independência, mas essa já é outra história). Maria recebe a condecoração do Imperador – e, como pedidos, pede apenas que D. Pedro escreva duas cartas: uma a Gonçalo, pedindo o perdão da filha, e outra, de alforria, para Lucas. Depois, Maria vai visitar a irmã, Teresa, para saber notícias – o pai ainda se recusa a ver a filha rebelde. Aqui termina a narrativa do misterioso emissário do Imperador – cuja identidade é a grande surpresa aos leitores. Quanto a Maria Quitéria, a ela está reservado um final melancólico, lhe bastando apenas a herança que deixou ao Brasil.
O SOLDADO QUE NÃO ERA constitui um bom entretenimento, tanto para quem espera apenas uma saga de aventuras brasileira, quanto para quem quer aprender um pouco de história. Muito embora o tom adotado para abordar a história não se enquadre ao da geração do “Guia Politicamente Incorreto”, do “revisionismo anti-socialista reacionário”, da anti-cultura do “coitadismo”. Lembrem-se: Joel Rufino dos Santos era socialista, foi vitimado pelo Regime Militar e já fez proveito de tal condição; portanto, como historiador, passível de ser combatido pelos atuais historiadores, que preferem concordar com Leandro Narloch (autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil) e seus “seguidores”, e acabar caindo no ostracismo onde já caíram outros historiadores “socialistas”, como Décio Freitas, Júlio José Chiavenato e Mário Schimidt. Então, O SOLDADO QUE NÃO ERA tem de ser apreciado como um livro infanto-juvenil.
De todo modo, O SOLDADO QUE NÃO ERA é um importante pedaço da era de ouro da literatura infanto-juvenil brasileira, quando havia uma enorme preocupação com o oferecimento de literatura adequada aos jovens estudantes brasileiros e com o abastecimento das bibliotecas escolares. Embora a realidade se mostrasse outra, pelo menos essa preocupação havia, ainda mais que ainda não existia internet para concorrer com o bom e velho livro de papel. Mas, é claro, existia a televisão, o que já preocupava. Ainda assim, muitos brasileiros cresceram e se formaram descobrindo autores como Joel Rufino dos Santos, Marcos Rey, Pedro Bandeira, Orígenes Lessa, Lúcia Machado de Almeida, Ana Maria Machado, Ruth Rocha... antes de partirem para os autores “maiores”, como Machado de Assis, José de Alencar, Mário de Andrade, Euclides da Cunha... vocês devem ter me entendido.
Se vocês leram até aqui, cada palavra deste textão, parabéns. Agora, é a vez do pessoal procurar, na biblioteca ou na livraria mais próximos de suas casas, O SOLDADO QUE NÃO ERA. Nada de desculpa que o mofo do papel faz mal para sua respiração. Os livros esperam que alguém lhes tire esse mofo. Que alguém os abra para serem arejados.

PARA ENCERRAR...
Desconfio que muita gente nem lê os textos que escrevo até o fim, pulam direto para a ilustração que costumo deixar ao final. OK, mas, de todo modo, como tratamos de História, deixo aqui algumas páginas de minha HQ folhetinesca, O Açougueiro. Feita em cima de um fato semi-histórico da Porto Alegre do século XIX. Até agora, as redes sociais tem dado uma boa resposta a esse esforço que faço. Mas até quando?
Aguardem novidades. Principalmente as que costumo deixar no dia 8 de março, o Dia da Mulher. Aqui no Estúdio Rafelipe também pensamos nas mulheres. Quanto será a parcela de mulheres entre os meus 17 leitores?

Até mais!

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