domingo, 20 de junho de 2010

O GAÚCHO de Júlio Shimamoto

Olá.
Depois de ver mais uma vitória sofrida mas ao mesmo tempo pouco empolgante da Seleção Brasileira de Futebol na Copa, vou resenhar mais uma HQ. Brasileira, já que o momento é oportuno.
É com muita satisfação que adquiri, dias atrás, a coleção completa, composta de quatro revistas, da série O GAÚCHO, a republicação feita pela editora Júpiter II da clássica série criada pelo mestre Júlio Shimamoto.

Há algum tempo atrás, falei de Shimamoto aqui no blog. Saiba mais sobre esse artista clicando aqui.
Pois eu adquiri esta coleção, mais uma iniciativa louvável do incansável José Salles, o editor da SM Editora/Júpiter II no sentido de recuperar a memória do quadrinho nacional.
Esta série, cujo nome completo é Fidêncio, o Gaúcho, foi publicada pela primeira vez em 1963, no suplemento Folhinha do jornal Folha de São Paulo, aos domingos. Foi publicado até 1965, encampada pela CETPA - Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre, uma associação de quadrinhistas brasileiros que visava a progressiva nacionalização dos quadrinhos nacionais em resposta à enxurrada das HQ estrangeiras nas bancas brasileiras. Duas décadas mais tarde, a editora Noblet republicou O GAÚCHO nos gibis de Carabina Slim, no formato fumetti (os gibis italianos). A série retornou, em 2007, na publicação da SM Editora/Júpiter II. Uma iniciativa similar à republicação do Raio Negro de Gedeone Malagola, pela mesma editora.
Shimamoto, para desenvolver as histórias do personagem, havia pesquisadoem muitas obras da historiografia gaúcha - na ocasião, ele havia desenvolvido uma versão em HQ da História do Rio Grande do Sul. Com base em obras que tratavam sobre o Rio Grande do Sul, como as de Simões Lopes Neto, Barbosa Lessa, Érico Veríssimo e outros, Shimamoto pôde construir o cenário, o Rio Grande do Sul da época posterior à Guerra do Paraguai (1864-1870).
O herói da história é Fidêncio, que havia servido na Guerra do Paraguai. Gaúcho "bravo e arrogante, mas buenaço", Fidêncio jurara, após a guerra, que continuaria a combater o mal e as injustiças onde quer que as encontrasse. Até aí, é possível entender que Shimamoto construiu um faroeste, similar ao dos quadrinhos italianos (tipo Tex e Ken Parker) ambientado no Rio Grande do Sul. Pois, em suas andanças pela província do Rio Grande de São Pedro, Fidêncio combate bandidos, estancieiros inescrupulosos, índios hostis e contrabandistas - Shimamoto retrata o Rio grande do Sul como uma terra onde a bandidagem corria solta, não raro fazendo vítimas, e onde gente honesta precisa lutar para sobreviver num clima tão hostil. Fidêncio é o típico herói de faroeste: valente, bom de briga, bebe pouco e tudo faz para ajudar um amigo necessitado - e não descansa enquanto tudo não estiver bem no fim. E com direito, é claro, a um ajudante mirim.
O garoto Zoca entrou na vida de Fidêncio na segunda aventura da série. O garoto teve seus pais mortos por bandidos enquanto a família se dirigia a Cruz Alta. Fidêncio trata dos ferimentos que o garoto sofreu, e decide, após perseguir os bandidos que mataram os pais do garoto, levá-lo à casa do tio, em Cruz Alta. Zoca acaba se prestando como um companheiro de aventuras ao estilo do Robin, do Batman: o guri é teimoso, destemido e não raro se mete em encrencas. Ora Fidêncio trata de salvar sua vida, ora Zoca salva a vida do gauchão.
Algumas das tramas criadas por Shimamoto são verdadeiras aulas de história. Numa delas, Fidêncio ouve de um velho (que o aprisionara em uma aldeia) a história dos eventos que antecederam a anexação da Província Cisplatina (atual Uruguai), em 1816. Este episódio da história brasileira não costuma ser retratado nos livros escolares - quando fazemos referência à Província Cisplatina, preferimos falar da Guerra da Cisplatina, ocorrida de 1825 a 1828, que resultou na independência da província, que passou a se chamar Uruguai. Pois Shimamoto conta a história das guerras empreendidas pelo governo brasileiro - então ainda sob o reinado de D. João VI, antes da independência do Brasil - para anexar essa província, que fazia parte do domínio espanhol da região do Rio da Prata, ao território brasileiro.
Quanto aos índios, são retratadas as raças que habitavam a região do RS. Fidêncio acaba interferindo numa verdadeira guerra entre tribos para ajudar uma mãe índia e seu filho, que foram raptados por um rival do cacique. Quando falei em "índios hostis", não quis dizer, portanto, os índios de faroeste, aqueles que são massacrados pelos caubóis no final.
Um clássico das HQ brasileiras rrealmente imperdível!
A republicação da Júpiter II traz, como atrações adicionais, capas novas, desenhadas pelo próprio Shimamoto, que vocês podem ver aqui (com cores de Adauto Silva) - por sinal, consta que Shimamoto não pediu direitos autorais para republicar a obra - e ilustrações tipo pin-up do personagem, feitas por colaboradores: Márcio Rogério Silva, Paulo José, Edu Manzano, Adauto Silva e Laudo Ferreira Jr. Mas talvez um problema seja a diagramação das páginas, que precisou "deformar" o formato original de publicação. Os quadrinhos tiveram de ser rearranjados nas páginas para caber no formatinho. Aqui e ali, no meio das páginas, é possível encontrar as mensagens de "continua", onde param as páginas originais publicadas no formato do jornal.
O traço de Shimamoto é conhecido pela grande quantidade de detalhes que aparecem em seus quadrinhos - para percebê-los, é preciso apurar os olhos, principalmente os que estão acostumados a passar os olhos pelas páginas. E não estranhem, também, o Fidêncio ser retratado com traços próximos aos dos nipo-brasileiros; afinal, Shimamoto é descendente de japoneses, e notabilizou-se com histórias de temática oriental.
E há também algumas tramas que não ficaram resolvidas, como é o caso da trama apresentada no segundo número da série - quem era o bandido que queria se livrar de Fidêncio, e que raptou uma dançarina que foi pivô de um crime que Fidêncio estava resolvendo? Talvez essa trama não tenha sido resolvida por causa da interrupção da série, em 1965.
Nada que impeça da obra ser apreciada como se deve. Uma página imperdível da história do quadrinho nacional.
Cada edição tem um número variável de páginas, dependendo das tramas publicadas. E isso se reflete no preço: a edição 1 custa R$ 5,00; a 2, com mais páginas, R$ 6,00; a 3, com menos páginas, R$ 4,00; e a 4, R$ 5,00.
Estas revistas não são vendidas em bancas. Para adquirí-las, escrevam para: smeditora@yahoo.com.br. Diretamente com José Salles. E dêem um incentivo aos quadrinhos nacionais!
Abaixo, uma ilustração que eu fiz de Fidêncio e seu parceiro Zoca. Gaúchos, com muito orgulho.
FALANDO NISSO...
Demorou um pouco, mas saiu. O Henrique Dornelles e a Greice Pozzatto, do blog As Aventuras de Cruzaltino (http://cruzaltino.blogspot.com/) promoveu um crossover de seu personagem com o meu personagem Teixeirão! Este é o primeiro crossover do qual um personagem meu participa nas HQ!
Valeu, Henrique! Valeu, Greice! Foi uma experiência totalmente nova e gratificante!
E vocês, não deixem de conferir o resultado aqui.
Até mais!

Um comentário:

Sam Spade disse...

Sin duda los "gauderios" nos marcan como los territorios del sur del Brasil, se encuentran culturalmente ligados a la Pampa Humeda y al Río de la Plata... Incluso pudo tratarse de un nuevo país entre Brasil, Argentina, Paraguay y Uruguay... Cordiales saludos!