sábado, 19 de junho de 2010

TEMPOS DE GUERRA

Olá.
Hoje, volto a falar de quadrinhos.
Há alguns dias, quando eu estava esgravatando uma loja de revistas usadas daqui de Vacaria, me deparei com uma HQ da qual nunca tinha ouvido falar. Quando a folheei uma vez, achava que fosse um quadrinho europeu, publicado por uma editora menor. Mas qual não foi minha surpresa ao descobrir, mais tarde, que se tratava de uma HQ brasileira!
Trata-se de TEMPOS DE GUERRA, de José Duval. Esta graphic novel foi publicada em 1993, e foi escrita e desenhada por José Duval, com enredo de Luís de Abreu. Foi editada pela Editora Book.


Ao ler afinal a história, com a certeza de que não iria gostar muito, acabei me surpreendendo. TEMPOS DE GUERRA é uma espécie de ficção científica apocalíptica, que nada fica a dever a clássicos como as HQ de Enki Bilal ou ao Akira do japonês Katsuhiro Otomo. Mas, infelizmente, esta HQ não obteve repercussão em sua época.
O caso é que o ano de 1993 não foi dos melhores para os quadrinhos brasileiros. A indústria estava minada por causa dos malfadados planos econômicos, que reduziram bastante o poder aquisitivo da população e as vendas de HQ. E o Governo Collor havia extinguido a Fundação Nacional de Artes, a FUNARTE, que distribuía títulos de HQ brasileiras.
Bem, quando adquiri um exemplar de TEMPOS DE GUERRA, ele ainda estava dentro do saco plástico vedado. O preço da HQ estava nesse saquinho - a revista não possui código de barra.
E quanto a José Duval? Atualmente, seu paradeiro não é conhecido. E tudo o que se sabe sobre ele é que, além de TEMPOS DE GUERRA, ele havia publicado, pela mesma editora Book, O Entrincheirado Hans Ribbentropp, em 1991, com roteiro de Luís de Abreu (igualmente desaparecido).
Bem. Como uma HQ tão fascinante não obteve a devida repercussão, podendo figurar entre os clássicos das HQ brasileiras?
TEMPOS DE GUERRA se apóia na crítica social para criar um futuro semi-apocalíptico para o Brasil - sintonizado com sua época, com os governos Sarney, Collor e Itamar Franco, um tempo de economia estagnada, que só veria crescimento com o Plano Real, em 1994. Com uma combinação da crítica social já citada com sexo, violência e referências à arte.
Comecemos pelo que diz o texto da capa posterior da revista:
"Um jovem na encosta de um morro olha a megalópole à distância. A enorme cidade, sombria, o atrai com seus becos imundos, mal pavimentados, que conduzem os homens às suas entranhas e seus mistérios. O jovem desce o morro em direção à cidade, que o atrai além do medo, além da prudência. A cidade cresce aos seus olhos, e uma de suas vielas o leva para dentro de si. Escurecem seus olhos. É noite."
A história de TEMPOS DE GUERRA possui uma ampla quantidade de detalhes, que não é possível esquadrinhar em um espaço tão breve quanto este. Para analisar esta obra convenientemente, seria melhor em uma monografia de conclusão de curso universitário, algo assim. Assim, vou tentar fazer uma análise a melhor possível.
O cenário da história é uma megalópole em ruínas. Por alguns detalhes do cenário, é possível perceber que a cidade, que não é nomeada, é São Paulo, em escombros. A sociedade está se recuperando de uma peste, que desestabilizou a economia. As elites residem em grandes arranha-céus, conhecidos como "Ilhas", longe da confusão que reina embaixo. O povo, nas Ilhas, é chamado de "lúmpen", um termo pejorativo.
O povo, as classes sociais mais baixas, têm duas opções de vida: ou trabalham até morrer nas lavouras e indústrias, sendo considerados pouco mais que gado; ou integram as gangues de rua, em permanente conflito com a polícia. Ou seja: ou se vive de dia, ou se vive de noite.
As elites, corruptas, fomentam a guerra entre as gangues financiando armas ou drogas. Gente que põe o lucro e os interesses pessoais em primeiro lugar.
Esses detalhes são revelados aos poucos na trama. Ela começa quando um jovem, chamado Iágar, chega a essa cidade, disposto a esquecer a vida que levava em uma cidade do interior. Esquecer a convivência com o padrasto violento, aa morte da mãe, a fuga que teve de empreender depois de destruir a sala de aula da escola técnica onde estudava.
Acompanhado apenas de um estranho gato preto, Iágar se impressiona com a imponência da cidade. Até que avista um rapaz correndo de uma gangue, e foge também. No entanto, de uma forma estranha, o gato salva a vida dos dois, e o rapaz, um fortão simpático e boca-suja chamado Bor, fica em dívida de gratidão com Iágar.
Bor apresenta Iágar à gangue do Sólis, uma das muitas gangues existentes na cidade, que aparentemente lutam contra a ordem vigente. É Bor que coloca Iágar a par da situação.
Enquanto isso, nas Ilhas, o senador Féren apresenta-se como candidato à presidência das Ilhas. Ao sofrer um atentado, ele ordena a morte de seu adversário político. O corrupto Féren, um dos que mais financiam gangues, é capaz de tudo para garantir sua candidatura - e conta, como auxiliar, com o rastejante Larco, assassino profissional sem olhos.
Voltemos lá embaixo. A gangue adversária da de Sólis é a gangue de Renk. Com pinturas tribais em seu rosto e usando na cabeça a pele de um cachorro, Renk luta contra o poder das Ilhas. Principalmente porque seu pai, um policial incorruptível, havia sido morto por Larco.
Iágar se integra à gangue de Sólis, e se encanta com a bela Kíria, espécie de amante do chefe da gangue, que também se encanta pelo rapaz. Porém, a coisa muda quando as gangues promovem um assalto aos competidores do Grande Rali Interilhas, um evento esportivo nas perigosas ruas da cidade. Iágar, ousadamente, rouba um computador de bordo de um dos carros - a ordem era apenas roubar as armas dos competidores - e acaba descobrindo que, na verdade, Sólis trabalhava para as Ilhas. Iágar presencia um diálogo entre Sólis e Larco, e quase paga caro por isso - acaba sendo salvo por Bor, que elimina Sólis e seu ajudante Mamute.
Iágar, junto com Kíria e Bor, resolve fundar uma nova gangue, que lutará de verdade contra o poder corrupto das Ilhas - um lugar, segundo Bor, de "gente meio viada e muito filha da p(...). Mas tem mulher gostosa e rango bom", mas que o fortão evita se aproximar por medo de coisas aterradoras que as mulheres de lá supostamente fazem com os "lúmpens". A nova gangue se chama Os Ratos, e vive nos esgotos. Iágar, com seus conhecimentos de informática adquiridos no colégio, monta, com uma porção de maquinários sucateados, um eficiente sistema de vigilância clandestino - o acesso à informática é proibido fora das Ilhas. E vai ganhando a adesão de cada vez mais gente.
Iágar e Bor, aproveitando a conversa de Sólis com Larco, roubam um caminhão com uma carga que ia ser contrabandeada pelo antigo chefe. É nesse momento que os dois cruzam com Renk. A carga é de metralhadoras dinamarquesas. O saldo, no entanto, é positivo: Renk, percebendo que a causa de Iágar é justa, faz uma aliança com sua gangue e Os Ratos.
Descontentes com a perda de uma carga valiosa, Féren e Larco solicitam o auxílio de um exército de Skinheads (nazistas) para acabar com Os Ratos. Mas a gangue ganha mais uma adesão nesse episódio: a dos negros favelados, liderados por Mibú. A gangue cresce, e Iágar e Kíria estão cada vez mais envolvidos um com o outro.
As coisas, no entanto, começam a ficar nebulosas. As Ilhas resolvem colocar a polícia para fazer uma grande repressão às gangues. Mas, justo nesse momento, Iágar é contactado por um dos integrantes das Ilhas, que se diz amigo da revolução, disposto a dar uma ajuda no combate ao poder corrupto. No entanto, os interesses de Bruno Iscariotes, o tal homem, são outros. Iágar e Bor penetram nas Ilhas, e conhecem uma realidade diferente do que imaginavam a princípio.
Mas o que encanta Iágar, de verdade, é a família de Bruno: Lia, sua esposa (amante de Féren, que é primo de Bruno) e Kátia, sua filha. Iágar se encanta com Kátia, com quem acaba fazendo amor; enquanto isso, Féren tenta acertar contas com Bruno, pela traição a seus planos. Mas acaba mal.
E a coisa fica ainda pior para Iágar e os Ratos, já que tudo não passou de uma armadilha. A coisa não acaba bem.
TEMPOS DE GUERRA, como eu disse, é excepcional. Não fica a dever a obras similares. E é cheia de elementos simbólicos. Dois dos mais importantes:
O primeiro é o velho Muls, uma espécie de profeta, que dedica-se a reproduzir obras de arte famosas nas paredes da cidade. Ele aparece em diversos momentos da história, prevendo a derrota dos personagens. Aliás, Duval faz muitas referências a obras de artistas famosos como Modigliani, Picasso, Matisse, Munch, Goya e Gustave Doré, tanto nos quadrinhos quanto nas reproduções feitas por Muls.
O segundo é o gato preto, que aparece em vários momentos como um indício de mau presságio.
TEMPOS DE GUERRA apresenta algumas idiossincrasias na trama (por exemplo, alguns personagens não têm sua personalidade satisfatoriamente construída e têm uma atuação idiossincrática, como é o caso de Mibú), mas é uma história de fácil compreensão, com um ritmo cinematográfico, de ação ininterrupta. E o desenho é estiloso, bonito, com um bom uso de sombras e hachuras e uma quadrinização que não fica atrás de grandes mestres como Frank Miller ou os ilustradores das histórias de Alan Moore. Os personagens falam com um linguajar das ruas, fazendo uso de numerosos palavrões. São simpáticos, quase todos. Há muita violência e cenas de nudez e sexo. E a crítica social presente é forte. E o final não é feliz. Um clássico para adultos.
Pena que incompreendido. Um diamante jogado aos porcos. Por essas e outras, merecia ser reeditado. Precisa ser conhecido. Por isso eu digo aos amantes de quadrinhos: se encontrarem um exemplar de TEMPOS DE GUERRA nos sebos de revistas, comprem sem pensar duas vezes. Vale a pena a lida.
E - por que não? - poderia ser adaptado para o cinema.
O post hoje é ilustrado com a versão dos personagens da trama, que eu fiz. Mas o meu traço não chega nem perto do de José Duval.
Droga.
Até mais!

2 comentários:

estudos de direito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cineclube Subúrbio em Transe disse...

Prezado. Muito bom seu artigo. Sua releitura dos personagens também. Li Tempos de Guerra na ocasião de seu lançamento. Gostaria que a HQ fosse reeditada e que os autores continuassem escrevendo e desenhando.