terça-feira, 20 de setembro de 2016

Livro: PÁRA, PEDRO! (neste Dia do Gaúcho, a memória de José Mendes)

Olá.
No momento em que escrevo, ainda é dia 20 de setembro, a data magna para os gaúchos – celebração dos êxitos da Guerra dos Farrapos (1835 – 1845). Nesta data, os sul-riograndenses celebram e cultivam suas tradições, sua cultura tão diversa do restante do Brasil. Entre essas tradições, está a música e seus ritmos tão distintos dos estilos que fazem sucesso no restante do Brasil. Ou a nossa música tem menos marketing que, por exemplo, o sertanejo universitário, ou nós, gaúchos, que estamos resistindo à influência nefasta do marketing.
Por isso, hoje, trago a vocês um livro. Estou, sim, falando de música gaúcha, e o livro de hoje é sobre música gaúcha. Em realidade: a biografia de um dos músicos gaúchos mais conhecidos do Brasil. Sua carreira foi breve, mas suficiente para ele estourar no Brasil e no exterior, como cantor, compositor e ator de cinema.
O livro de hoje, então, se chama PÁRA, PEDRO! – JOSÉ MENDES, VIDA E OBRA.

EM MEMÓRIA DO “ANDARENGO”
PÁRA, PEDRO! (assim mesmo, com o acento que deveria ter caído com a reforma ortográfica) foi escrito por Ajadil Costa, natural de Esmeralda, RS, cidade que se proclama “Terra de José Mendes”. Sua primeira edição é de 2002, pela editora Alcance, de Porto Alegre – a capa acima é da edição de 2013, se não me engano é a 9ª – a “edição publicitária” impressa pela MB Artes Gráficas. Mas, ao longo da postagem, vocês podem ver as capas de edições anteriores, as quais vocês podem encontrar, com alguma sorte, nas livrarias e lojas de livros usados.
Bem. O livro do produtor cultural José Ajadil da Costa Lima, que reside em Esmeralda, é um rico apanhado sobre a carreira do cantor gaúcho José Mendes Guimarães (1939 – 1974), um dos mais populares cantores regionalistas do Rio Grande do Sul. José Mendes é tão conhecido e interpretado quanto seus conterrâneos Teixeirinha, Gildo de Freitas, Jayme Caetano Braun e outros artistas que revelaram aos brasileiros a riqueza da cultura sul-riograndense. As canções de José Mendes são bastante conhecidas e reinterpretadas por diversos artistas.
No Brasil, José Mendes ficou conhecido pela canção Para, Pedro, de seu segundo disco, de 1967. Foi com essa canção que ele alcançou projeção nacional e internacional, e na mesma época foram vários os cantores que gravaram versões da canção, reconhecida pelo refrão “Para, Pedro, Pedro para, Pedro para, para Pedro”. Mas não ficou apenas nisso. Canções como Roubei a Fazendeira, Vai Embora Tristeza, Não Aperta Aparício, Esmeralda, Churrasco, Pedras no Caminho e tantas outras ainda são bastante solicitadas nos programas de música gaúcha das estações de rádio sul-riograndenses.
O sucesso de Zé Mendes não ficou limitado apenas à música, e aos oito LPs que gravou em vida – incluindo o último, póstumo, e excluindo os compactos (os mini-LPs com duas faixas). Ele ainda foi ator de cinema! Zé Mendes atuou em três filmes: Pára, Pedro! (1969), Não Aperta, Aparício (1970) e A Morte Não Marca Tempo (1973). O primeiro foi um dos maiores sucessos de bilheteria do Rio Grande do Sul. E foi nas gravações de Pára, Pedro! que Zé Mendes conheceu a esposa, Maria Izabel, com quem se amasiou em 1969, e mãe de seu único filho, José Mendes Júnior, nascido em 1971, atualmente cantor e professor de inglês.
José Mendes ainda teve suas músicas executadas na Europa – ele foi o cantor brasileiro mais ouvido em Portugal em sua época, ao lado de Altemar Dutra. E ainda desfilou no Carnaval do Rio de Janeiro, como convidado da escola Unidos de Vila Isabel, em 1970.
Mas, infelizmente, sua carreira foi interrompida de maneira trágica: José Mendes morreu em 15 de fevereiro de 1974, em um acidente de carro, entre Rio Grande e Pelotas, RS.
Até hoje, José Mendes continua sendo homenageado. Em novembro de 2004, na cidade de Esmeralda, foi inaugurado o Memorial José Mendes, um misto de centro cultural e museu dedicado ao músico. A ocasião da inauguração do local foi acompanhada pelo translado dos restos mortais do cantor de Porto Alegre, onde ele havia sido sepultado, para Esmeralda. A vista aérea do memorial, aliás, estampa a capa acima, do livro.
Se bem que, na realidade, Esmeralda é a cidade adotiva do cantor – existe alguma polêmica sobre o real local de nascimento de Zé Mendes. Já volto a esta parte.

O QUE DIZ A BIOGRAFIA
Nas 136 páginas do livro (sem contar capa), Ajadil Costa, com o apoio também de fotos, recortes de jornais e revistas e documentos, relata a trajetória do cantor do nascimento à morte prematura, e sua contribuição para a divulgação da cultura gaúcha pelo Brasil. O texto introdutório também faz um breve relato dos esforços pela conservação da cultura pastoril riograndense, que estava fadada a desaparecer, nos anos 1940, devido à influência estrangeira na sociedade gaúcha. Foi quando, em 1947, um grupo de estudantes, liderados por Paixão Côrtes, lançou a ideia da Chama Crioula e das comemorações do dia 20 de setembro como o Dia do Gaúcho. Logo, outros escritores, músicos, estudiosos e artistas começaram a resgatar as tradições campeiras do Rio Grande do Sul, como o uso de bombachas, as danças, o chimarrão e o churrasco de fogo-de-chão e, claro, as formas de fazer música dentro do Rio Grande do Sul, transformando o que antes era motivo de gozação em orgulho para os nascidos nesta terra. José Mendes não fugiu à regra, e, em suas músicas e filmes, divulgou a cultura gaúcha.
Ajadil Costa, inclusive, discute a polêmica em torno do local de nascimento de Zé Mendes: juridicamente, é aceito que ele nasceu em Lagoa Vermelha, RS. José Mendes teria nascido em São José do Ouro, RS, mas seus documentos garantem que seu nascimento foi em Machadinho, RS – ambos estes municípios, em 1939, eram distritos de Lagoa Vermelha. José Mendes também residiu em Esmeralda e em Vacaria, RS – município do qual Esmeralda, na época, era distrito. No início da carreira artística, também residiu em Júlio de Castilhos, RS, onde formou com amigos seu primeiro grupo. No auge do sucesso, o cantor fixou residência em Porto Alegre. Mas ele andou muito para chegar até onde chegou.
Seus pais, Amâncio Mendes da Fonseca e Noemy Ferreira Guimarães, acabaram se separando quando ele tinha cinco anos de idade. Zequinha, seu apelido de infância, viveu com parentes em Esmeralda, e trabalhou muitos anos como peão de estância, mas sempre alimentando um desejo de viver de música. Foi em 1960, depois de cumprir o serviço militar e residindo em Júlio de Castilhos, que Zé Mendes formou, com os amigos Florentino Rezende e Dinarte Silva, o trio Os Seresteiros do Pampa, com o qual excursionava animando bailes – mas os músicos, na época, precisavam depender de favores para conseguir hospedagem. Com Os Seresteiros do Pampa, Mendes também conseguiu fazer suas primeiras apresentações em rádios do Rio Grande do Sul. Mais tarde, Herculano Teixeira dos Reis substitui Florentino Rezende no grupo, que durou até meados de 1962.
Foi em 1962 que Zequinha, na base do tudo ou nada, e com 20 mil cruzeiros emprestados de um fazendeiro amigo seu, foi para São Paulo e gravou seu primeiro disco, Passeando de Pago em Pago, pela gravadora Continental, sob o pseudônimo de Gaúcho Seresteiro. Embora o disco contivesse um de seus primeiros grandes clássicos, Roubei a Fazendeira, e mais algumas canções referentes a aventuras vividas até ali, o disco não fez sucesso, e Mendes passou um bom tempo em caravanas artísticas. O segundo disco – e o sucesso nacional – só vieram em 1967: pela gravadora Copacabana, saiu Pára, Pedro!, e, puxado pela faixa-título, composta em parceria com José Portela Delavy, e inspirada em um causo ocorrido durante uma viagem, o disco foi um grande sucesso comercial. Os intelectuais da época atacaram virulentamente tanto a música quanto o filme homônimo, mas o público consagrou o cantor.
Aliás, a ideia de Pára, Pedro!, o filme, partiu do próprio Zé Mendes, que negociou os direitos de filmagens a partir de 1969, e a fita, produzida pelo estúdio Leopoldis-Som (também responsável pelos filmes do cantor Teixeirinha), com roteiro do tradicionalista Antônio Augusto Fagundes e dirigida por Pereira Dias, o primeiro filme colorido filmado no Rio Grande do Sul e também o primeiro a receber financiamento de um banco, enfim; Pára, Pedro! estreou em 1970, com recorde de público só no Rio Grande do Sul.
Durante as gravações do filme, Zé Mendes conheceu a esposa, Maria Izabel, que até então levara uma vida errante. A moça, natural de Erechim, RS, e que passara a infância em Mafra, SC, fugira de casa para se juntar a um circo itinerante; passou um tempo se apresentando como assistente de um astrólogo, Ivan Trilha, que era amigo de Zé Mendes, e engravidou daquele; porém, Ivan havia deixado a moça para conseguir trabalho no Rio de Janeiro e juntar dinheiro para sustentar a família, mas Maria Izabel perdeu o filho e voltou à vida errante, decidida a nunca mais ver o astrólogo; e, de início, teve receio em conhecer pessoalmente Zequinha, temendo que ele a levasse de volta para Ivan, porém o destino determinou que a moça se tornasse esposa do cantor.
Vieram também os outros discos, depois de Pára, Pedro!, todos pela Copacabana: Não Aperta, Aparício (1968) – o filme homônimo, também dirigido por Pereira Dias e que contou, no elenco, com os reforços de Grande Otelo e José Lewgoy, veio em 1970; Andarengo (1970); Mocinho do Cinema Gaúcho (1971); Gauchadas (1972) e Isto é Integração (1973) – este último, pela gravadora J.M., depois pela Continental. O disco póstumo, Adeus Pampa Querido (1974), só mudou algumas faixas, mas tem o mesmo conteúdo do disco Passeando de Pago em Pago.
O terceiro filme, A Morte Não Marca Tempo, também com direção de Pereira Dias, não foi sucesso de bilheteria por ser um filme mais sério que os dois anteriores.
Ajadil Costa analisa, em cada capítulo, tudo a respeito de José Mendes, colhendo histórias como um emocionante reencontro com o pai durante um baile, ainda na fase d’Os Seresteiros do Pampa; a história de Maria Izabel até conhecer Zé Mendes; detalhes sobre os bastidores dos três filmes; o sucesso internacional de Zequinha, inclusive com as cópias dos recibos de direitos autorais vindos de Portugal, Áustria, Suécia, Bélgica e Suíça; uma rara curiosidade: o registro de quatro músicas desconhecidas do público brasileiro, mas que circularam na Suíça; a passagem do cantor no Carnaval carioca; sobre os compactos, um com marchinhas de carnaval e outro com músicas orquestradas; notícias sobre o cantor divulgadas em revistas nacionais; e a comoção com a morte do cantor em 1974.
Zé Mendes fez tanto em tão pouco tempo, o que já é, pelos padrões, motivo de admiração. Por isso, quem aprecia cultura gaúcha, não pode deixar de ter PÁRA, PEDRO!, o livro, na estante – ainda mais porque Ajadil Costa escreve a biografia em linguagem acessível ao público em geral, de fácil assimilação. O livro ainda possui um prefácio escrito por José Mendes Júnior – que, inclusive, gravou um CD interpretando músicas do pai. Detalhe também para as orelhas do livro – com texto de Marina Brito Boschi – que possuem um recorte especial de modo a formar a silhueta de um violão.
Para este dia 20 de setembro, nada mais adequado que recordar a cultura gaúcha de raiz.

PARA ENCERRAR...
Não tendo outra coisa, coloco hoje mais um trecho do atual arco de tiras do meu personagem gaúcho, o Teixeirão. Acho que agora vai: A Irmandade do Chimarrão, o atual arco de tiras, já se encaminha para o seu final, depois de mais de 150 tiras!
Confiram as tiras mais recentes em https://naestanciadoteixeirao.blogspot.com.br/, com uma cuia de chimarrão do lado.
E, com isso, deixamos nossa lembrança do dia 20 de setembro. Em breve, falamos mais do Rio Grande do Sul, no nosso blog.

Até mais!

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