domingo, 19 de fevereiro de 2017

Livro: A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO

Olá.
Hoje, vamos colocar um pouco de cultura no nosso dia-a-dia. Vamos parar uns quinze minutinhos para falarmos de literatura brasileira e gaúcha.
Hoje, vou falar de livro, que fala a respeito de uma das entidades que mais fez pela literatura do Rio Grande do Sul em pouco menos de 200 anos, desde que o Brasil se firmou como nação, a partir de 1822. Talvez você nunca tenha ouvido falar nessa entidade, e na sua atuação – muito embora ela ainda exista, nos dias de hoje. Existiu por cerca de vinte anos, e, mais de um século depois, foi reativada.
Hoje, então, vocês tomarão conhecimento a respeito do Parthenon Litterário de Porto Alegre, RS. Através de um dos mais completos trabalhos a respeito dessa entidade: o livro A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, de Benedito Saldanha.
INICIALMENTE, SOBRE O AUTOR
A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO foi publicado em 2003, pela editora Alcance, de Porto Alegre. E foi o livro de estreia do escritor, poeta e pesquisador Benedito Melgarejo Saldanha, atualmente integrante do Parthenon Litterário. Mas sua atuação como escritor vem desde antes. O problema é que muitas informações a respeito do escritor, disponíveis na internet, estão desatualizadas e incompletas, e seu website oficial está desativado. Vamos tentar traçar um perfil com o que pudemos achar.
Natural de Triunfo, RS (não consegui descobrir seu ano de nascimento), Saldanha já trabalhou como funcionário público no Departamento Municipal de Água e Esgoto de Porto Alegre, na Secretaria da Saúde do Estado e organizador de campanhas comunitárias em Viamão. Pelo que consta, ele ainda tira seu sustento do funcionalismo, e em Porto Alegre, onde reside atualmente, mas nunca deixou de lado o ativismo cultural. Ah: ele já concorreu à vereador nas eleições municipais de 2012.  
Em 1999, ele editou o jornal Gotas de Cultura, de divulgação literária. Mais tarde, criou o jornal trimestral Revolução Cultural, e é coordenador do Sarau com Ritmo, atividade de promoção cultural apresentada mensalmente na Casa de Cultura Mário Quintana, de Porto Alegre. Também já presidiu (não sei se ainda preside) a Academia de Letras e Artes de Porto Alegre, e integra, ainda, o Parthenon Litterário de Porto Alegre.
Após A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, Saldanha publicou diversos outros livros, dentre os quais: Apolinário Porto Alegre, a vida trágica de um mito da província (editora Nova Prova, 2008); Lobo da Costa, um bardo rio-grandense (editora do autor, 2009); Álvares de Azevedo de Bolso (Revolução Cultural, 2011); Luciana de Abreu (Sdijuc, 2013); Grandes Momentos do Rádio Gaúcho (em dois volumes: o primeiro saiu em 2013, e o segundo em 2014, ambos pela editora Revolução Cultural); e o romance Laços Eternos (Editora do Parthenon Litterário, 2016).

APRESENTAMOS A SOCIEDADE DO PARTHENON
O trabalho, altamente didático, de Benedito Saldanha, se propõe a resgatar a história do Parthenon Litterário (assim mesmo, com dois “t”), a primeira grande sociedade de poetas e escritores do Rio Grande do Sul, e que muito fez pela promoção da cultura dentro da então Província (a primeira sociedade do Parthenon Litterário apareceu no século XIX). Para se ter uma ideia da importância que essa sociedade teve, basta dizer que ela não apenas promovia importantes poetas e escritores da Porto Alegre do século XIX, não apenas editava uma importante revista mensal de divulgação, e não apenas promovia saraus literários muito concorridos, onde se promoviam bailes, palestras, recitais de poesia e de música e representações teatrais; os membros do Parthenon Litterário também estiveram envolvidos em causas muito importantes, como o apoio à emancipação feminina da época, a defesa da abolição da escravatura e da proclamação da República, a promoção do ensino público, através de aulas noturnas gratuitas, abertas à toda a população, e também as primeiras iniciativas, dentro do Rio Grande do Sul, de promover, na literatura, o regionalismo e o resgate da cultura pastoril riograndense.
Bueno. O primeiro Parthenon Litterário existiu de 1868 a 1886, perfazendo quase vinte anos de atuação. A sociedade foi reativada pouco mais de um século depois, em 1997, praticamente continuando o trabalho dos pioneiros do século XIX. De tão importante que essa sociedade foi, um dos bairros da grande Porto Alegre, hoje, se chama, justamente, Parthenon.
Hoje, os membros do Parthenon Litterário original são pouco lembrados por estudiosos de literatura e leitores contemporâneos, mesmo os apreciadores de poesia do século XIX – e não é por falta de tentativa de resgatar suas memórias. As edições da Revista Mensal, que o Parthenon editava, e que servia como principal veículo de divulgação dos membros da entidade, estão bem conservadas em arquivos públicos, mas não são muitos que procuram-nas para leitura e consulta. Também os livros publicados de membros como Apolinário Porto Alegre, Lobo da Costa, Múcio Teixeira e outros, são difíceis de achar, mesmo publicados em edições contemporâneas por editoras entusiastas em resgate de material antigo. Para se ter uma ideia, o romance A Divina Pastora, escrito por um dos membros do Parthenon, Caldre e Fião, e publicado em 1847, esteve por muito tempo desaparecido, e praticamente se tornado uma lenda, até um exemplar ser achado, em tempos recentes, em Montevidéu, por um bibliófilo de Pelotas; mais tarde, o livro foi adquirido pelo grupo RBS e republicado em edição da L&PM editores.
Bom, sem mais desvios de assunto: o Parthenon Litterário foi fundado, oficialmente, no dia 18 de junho de 1868, e, mesmo sendo uma tarde chuvosa, a solenidade reuniu uma considerável quantidade de autoridades e espectadores no salão da Sociedade Musical Firmeza e Esperança, uma de suas primeiras sedes provisórias. E, até o seu encerramento, o Parthenon Litterário agitou a sociedade da provinciana Porto-Alegre de então, ainda uma cidade que mal recebera a iluminação pública a gás (e que não atingia todos os bairros) e mantinha escravos negros (a cidade só declarou extinta a escravidão em 7 de setembro de 1884, cerca de quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea de 1888), mas já tinha um edifício arranha-céu, o primeiro dos muitos que surgiriam depois. E, na época, ainda corria a Guerra do Paraguai (iniciada no ano anterior e que terminaria apenas em 1870).
Os membros fundadores do Parthenon Litterário contavam idades entre 21 e 32 anos, sendo, portanto, jovens – a exceção era o escritor veterano José Antônio do Vale Caldre e Fião, que contava quase 50 anos em 1868. Caldre e Fião, que tinha prestígio desde 1847, quando publicou seu já citado romance A Divina Pastora, a primeira novela sul-riograndense, era membro ativo e foi presidente de honra da associação. Dos cerca de 138 membros que fizeram parte da associação, incluindo os que colaboravam à distância, além de Caldre e Fião, se destacaram: Apolinário Porto Alegre, seu mais ativo membro, e seu irmão Aquiles Porto Alegre; Lobo da Costa; Hilário Ribeiro; Múcio Teixeira; Damasceno Vieira; Eudoro Berlink; Afonso Marques; José Bernardino dos Santos; Aurélio Veríssimo de Bittencourt; e também mulheres, como Luciana de Abreu, matrona do feminismo sul-riograndense, e Amália Figueiroa.
Dentre as muitas realizações do Parthenon Litterário, destacam-se: a fundação da já citada Revista Mensal, que circulou por dez anos, de março de 1869 a setembro de 1879, com hiatos entre edições (perfazendo quatro fases de publicação), porém divulgando, entusiasticamente, poesias, contos, romances de folhetim, peças teatrais e teses para discussão; a promoção de saraus literários muito concorridos, onde haviam bailes, peças teatrais, recital de poesias e discussões acadêmicas; a promoção de campanhas em prol da abolição da escravatura, inclusive arrecadando fundos e promovendo festas para a libertação de crianças filhas de escravos; a promoção de aulas noturnas gratuitas para a população de todas as classes sociais, iniciativa que, apesar de louvável, no sentido da universalização da educação, custava muito aos fundos da entidade; a construção de uma biblioteca e de um museu, cujos acervos, hoje, estão perdidos; e discussões a respeito da situação da mulher da época, buscando, inclusive, atribuir às mesmas papeis diversos ao do tradicional “dona de casa”, submissa ao marido (nesse propósito, a professora e poetisa Luciana de Abreu foi o maior destaque).
Mas a sociedade também teve suas frustrações – a maior delas foi a de nunca ter conseguido construir sua própria sede. O Parthenon Litterário teve três sedes para reunião, todos prédios emprestados; apesar do empenho dos membros e do prestígio junto à sociedade porto-alegrense, o Parthenon Litterário nunca conseguiu juntar fundos para a construção da sede, que se pretendia assemelhar-se ao Parthenon de Atenas, na Grécia (símbolo da alta cultura de várias épocas). As aulas noturnas e a publicação da Revista Mensal consumiam mais da metade dos fundos que a sociedade conseguia arrecadar.
Quanto ao estilo cultivado pelos escritores membros, em seus poemas e prosas, predominava o Romantismo – porém, o estilo literário já caíra de moda no restante do país. O Parthenon Litterário foi o último reduto do Romantismo literário no Brasil. Muitos escritores preferiam a estética urbana, mas, ainda assim, foram pioneiros na literatura regionalista gaúcha, ao fazerem poemas e prosas tematizando a sociedade pastoril, o homem do campo da então Província do Rio Grande de São Pedro (muito embora os autores, evidentemente, nunca tenham ido à zona rural testemunhar a atividade pastoril in loco, e se valiam mais de especulações sobre) – movimento que teria força maior a partir da segunda metade do século XX, com o movimento tradicionalista gaúcho.
O grupo também teve conflitos internos. Foram muitos os casos de dissidências, e não havia consenso entre os membros quanto à política – muitos membros apoiavam o movimento republicano, visando a derrubada da monarquia; outros apoiavam a manutenção de Pedro II no poder. Vários membros saíram do grupo e fundaram suas próprias agremiações literárias, com revistas próprias e tudo mais.
O Parthenon Litterário foi decaindo gradativamente. Foi encerrando suas atividades aos poucos: as aulas noturnas, os saraus, a Revista Mensal; até a dissolução completa. Suas últimas atividades foram registradas entre o final de 1885 e o início de 1886. Foram quase vinte anos marcantes na sociedade gaúcha.
Como já dito, o Parthenon Litterário foi reativado mais de um século depois: a refundação ocorreu em 19 de julho de 1997 (mas será que está correto continuar escrevendo o nome com dois "t"?). E, pelo que pudemos apurar, a sociedade ainda está em funcionamento, com atividades culturais ricas, porém sem grande alarde na imprensa. Eles tem um blog próprio, ainda ativo, mas suas atualizações não são constantes: http://partenonliterario.blogspot.com.br/.

DO LIVRO
A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, de Benedito Saldanha, praticamente foi a porta do ingresso do escritor e pesquisador no novo Parthenon Litterário. O trabalho, no entanto, não foi escrito para tal intento, pelo que se pode notar. Há um tom de elogio às atividades do antigo Parthenon Litterário, mas sem bajulações. Na realidade, o livro foi escrito em tom acadêmico, como um trabalho de conclusão de curso, mas visando o grande público, por isso foi escrito em linguagem acessível.
Saldanha fez um estudo exemplar da atuação do Parthenon Litterário no século XIX – o livro é dividido em duas partes. Na primeira parte, a análise de todas as atividades do Parthenon Litterário é dividida em capítulos, cada um abordando uma determinada área de atuação da entidade. A sessão inaugural; o contexto histórico (como era a Porto Alegre da época, porém, sem abordar os folclóricos acontecimentos de anos anteriores, como os crimes da Rua do Arvoredo – ou o “caso da linguiça humana” – de 1863 e 1864, e as “estripulias” do “teatrólogo” Qorpo-Santo, entre 1864 e 1870); a definição do Parthenon Litterário, como um todo; sua diretoria; a sua produção literária – cada capítulo dedicado: ao cultivo do romantismo literário, ao regionalismo, ao teatro produzido e às teses; a biblioteca, o museu, a Revista Mensal; as suas atividades, como as sessões ordinárias, os aniversários de fundação, os saraus e as aulas noturnas; as causas pelas quais se envolveram, como a importância da mulher e o abolicionismo, bem como as posições dos membros quanto ao movimento republicano; a frustrada procura por uma sede só sua; as dissidências e, por fim, como se deu o término da sociedade. Todos os capítulos enriquecidos com amostras de poemas e de textos em prosa ilustrativos de cada membro da sociedade, bem como trechos de notícias de jornais da época com relatos das atividades do Parthenon Litterário. Mas as ilustrações, propriamente ditas, são raras, apenas retratos de alguns membros da sociedade.
A segunda parte do livro é dedicada aos Heróis do Parthenon Litterário – breve biografia, relação das principais obras e uma amostra, de poemas ou de prosa, dos principais e mais atuantes membros da sociedade. Foram escolhidos: Afonso Marques, Amália Figueiroa, Aquiles Porto Alegre, Augusto Totta, Bernardo Taveira Júnior, Eudoro Berlink, Lobo da Costa, Hilário Ribeiro, Damasceno Vieira, José Bernardo dos Santos, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Luciana de Abreu, Apolinário Porto Alegre, Caldre e Fião e Múcio Teixeira.
Não por acaso que Benedito Saldanha, posteriormente, dedicou três livros a três dos membros da sociedade: Apolinário Porto Alegre, Lobo da Costa e Luciana de Abreu.
Inclui textos de orelha de Luiz de Miranda e Nelson Fachinelli.
A leitura de A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO praticamente retrata uma sociedade que já foi culturalmente mais rica: a do século XIX, época de altíssimo analfabetismo e sem as facilidades tecnológicas de hoje, para a divulgação de livros e obras literárias, mas onde os escritores faziam o que podiam para ganhar algum reconhecimento. Época em que um escritor podia sentir que não nascera para ser apenas “mais um” em uma verdadeira enxurrada de livros lançada anualmente. Época em que a leitura era uma forma saudável de lazer, unicamente em impressos em papel, que só cansavam os olhos quando a luminosidade da sala era insuficiente. Estão me entendendo?
Bem. Por onde andará Benedito Saldanha no momento em que escrevo? Ele vai ler esta postagem? Não sei... Afinal, eu sou apenas “mais um” na internet, se metendo a escritor e resenhista, sem um livro publicado além de participações esparsas em antologias de textos e desenhos, e praticamente pensando como se estivesse no século XIX... em termos culturais, é claro. Rafael Grasel... quem você pensa que é?!

PARA ENCERRAR...
...ainda com a cabeça no século XIX, mas praticamente criando um século XIX alternativo para Porto Alegre, continuo com O Açougueiro, minha HQ folhetinesca, publicada às pílulas toda vez que resenho livros, filmes e quadrinhos de temática eminentemente cultural. E ainda sem saber como terminar, enquanto lido com muitas coisas ao mesmo tempo... E introduzindo cada vez mais personagens na trama...
E tenho certeza que não sou muito bom com poemas. Será que os versos criados para esta história ficaram bons? Eles servem ao propósito da história? Onde está o feedback, dizendo se devo continuar ou não?
Aguardem novidades para os próximos dias. De minha parte, meus 17 leitores não haverão de ficar na mão – mesmo que eles não manifestem sua opinião.

Até mais!

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