quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ah, Morená-Moreninha...

Olá.
Na última postagem, falei sobre a Edição Maravilhosa, a famosa série da finada editora EBAL que adaptava romances célebres da literatura para HQ. Aliás, as adaptações de romances para os quadrinhos têm sido uma grande tendência em nosso país - mais que isso, representa uma forma de sobrevivência das HQ brasileiras, que não podem se sustentar com as criações originais.
Bem, tenho em casa duas adaptações de romances para HQ feitas para a Edição Maravilhosa. A primeira eu já falei aqui, O Guarani, de José de Alencar, adaptada por André Le Blanc; e a segunda vou falar agora: A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, adaptada por Gutemberg Monteiro.



O ROMANCE
A MORENINHA foi publicado em 1844. É considerado o livro fundador da estética do romantismo brasileiro - o movimento literário que valorizava o índio, a nacionalidade, o medo da morte e a idealização dos personagens. O livro é o primeiro grande sucesso de Joaquim Manoel de Macedo, o dr. Macedinho.
Alguns críticos consideram o livro, hoje, bastante ingênuo. Mas desde a sua publicação, no formato folhetim (em capítulos, similar às nossas telenovelas), A MORENINHA vem cativando o público. Já foi adaptada diversas vezes para cinema, TV e - claro - quadrinhos.
O romance gira em torno da paixão de Augusto, um estudante de medicina bem-humorado e namorador incorrigível, por Carolina, irmã de Filipe, colega deste. Os dois se conhecem durante uma festividade na ilha de Paquetá, onde a moça mora. Bem, podemos resumir assim só para dar uma idéia da trama principal.
O romance também possui um grande conflito que atrapalha o envolvimento amoroso dos dois jovens. Trata-se de uma promessa que Augusto havia feito no passado a uma menina que conhecera, mas que desconhece a identidade. Para se manter fiel a essa promessa é que ele se faz inconstante, ou seja, galanteia o maior número de mulheres possível. Isso, até conhecer Carolina, uma moça muito viva, inteligente e, como não poderia deixar de ser, muito bonita. O que impede a união dos dois é a promessa de Augusto, mas uma grande reviravolta pode conduzir ao tradicional final feliz.
A MORENINHA é um romance muito interessante. Não é apenas um romancezinho açucarado: Macedo também faz um retrato da sociedade do Rio de Janeiro do século XIX, retratando estudantes universitários, mocinhas faceiras, costumes dos jovens da época, o comportamento das senhoras da sociedade, festas... enfim, o ambiente de sociabilidade da época do Império brasileiro.
E aqui lanço uma tese: Carolina, a Moreninha, é a primeira personagem hiperativa de nossa literatura. Claaaro! Na época, a hiperatividade era desconhecida, mas o fato de Carolina ter sido descrita como uma moça que não parava quieta é muito mais do que o fato de ela ser uma menina travessa, irrequieta, engraçada, impertinente, viva. É, eu estudei sobre isso na faculdade, e posso diagnosticar: hiperatividade. Leiam o parágrafo que descreve a personagem:

"(...) Toda a dificuldade, porém, está em pintar aquela mocinha que acaba de sentar-se pela sexta vez, depois que Augusto entrou na sala: é a irmã de Filipe. Que beija-flor! Há cinco minutos que Augusto entrou e em tão curto espaço já ela sentou-se em diferentes cadeiras, desfolhou um lindo pendão de rosas, derramou no chapéu de Leopoldo mais de duas onças de água-de-colônia de um vidro que estava sobre um dos aparadores, fez chorar uma criança, deu um beliscão em Filipe, e Augusto a surpreendeu fazendo-lhe caretas: travessa, inconsequente e às vezes engraçada; viva, curiosa e em algumas ocasiões impertinente. O nosso estudante não pode dizer com precisão nem o que ela é, nem o que não é: acha-a estouvada, caprichosa e mesmo feia, e pretende tratá-la com seriedade e estudo para nem desgostar a dona da casa, nem se sujeitar a sofrer as impertinências e travessuras que a todo momento a vê praticar com os outros. (...)"

Concluam: não é sintoma de hiperatividade? Em outras ocasiões do romance, Carolina apresenta um comportamento similar, uma espécie de "bicho carpinteiro".
Bem, teses à parte, o romance já entrou em domínio público no século XX, ou seja, pode ser publicado e adaptado por qualquer editora e/ou produtora sem necessidade de pagamento de direitos autorais. Por isso, são inúmeras as edições do romance disponíveis ao público, por inúmeras editoras. Esta edição que vocês vêem, e uma das melhores na minha opinião, é a da série Bom Livro da Editora Ática: completo com vocabulário e notas explicativas de rodapé, dados biográficos do autor e apreciação crítica de especialistas.

O QUADRINHO
A adaptação do romace do Dr. Macedinho para HQ para a Edição Maravilhosa data de 1953 - é o no. 71. O volume ganhou duas outras edições: em 1969, pela coleção Clássicos Ilustrados, também da EBAL; e esta que vocês vêem, a terceira, de 1975. A capa da primeira edição é de Gutemberg Monteiro; a da terceira é de Antônio Euzébio. Mas a arte interna é de Gutemberg Monteiro, também conhecido como "Goot", apelido que recebeu nos EUA.
Gutemberg Monteiro nasceu em Faria Lemos, Minas Gerais, em 1916. Começou sua carreira nos anos 40, e foi encontrado por Adolfo Aizen - Gutemberg era filho do motorista do presidente da EBAL. Mas foi na editora RGE, de Roberto Marinho, que Monteiro começou sua carreira como capista. Era dono de um estilo próprio, pois ao contrário de seus pares, não copiava desenhos de outras publicações. Gutemberg Monteiro trabalhou para a EBAL, para a RGE e para a editora Continental/Outubro. A MORENINHA foi seu primeiro trabalho para a Edição Maravilhosa. Ele também colaborou com a série Romance em Quadrinhos, da RGE, e foi desenhista brasileiro das aventuras do Fantasma, publicada pela mesma editora. Nos anos 70, Gutemberg Monteiro começa a desenhar no exterior: nos EUA, desenhou para as revistas de terror Eerie e Creepy e as HQ de Tom e Jerry.
Sim, um senhor currículo. Bem.
A MORENINHA, HQ de 50 páginas, foi adaptada pela regra das outras obras da coleção: o texto condensado, reduzido apenas ao essencial da trama, de modo que não substituísse a obra original. No quesito roteiro, a adaptação cortou algumas partes essenciais que ajudariam a explicar lances da trama. Assim, a unidade da história ficou um pouco prejudicada.
Já nos desenhos, é pior. Gutemberg fez uma espécie de aquarelado, que deixou a arte um pouco suja - publicado em preto-e-branco, os desenhos ficaram prejudicados. As partes em flashback são um pouco mais "limpas", numa espécie de linha-clara. A adaptação abusa também das imagens em close dos personagens, os cenários difusos e/ou inexistentes e de diálogos em profusão - às vezes, várias falas em um mesmo quadrinho. Ah, mas a caracterização dos personagens principais ficou boa - sobretudo Carolina e Augusto.Esta edição foi publicada em ocasião da exibição da telenovela baseada na obra. A adaptação foi assinada por Marcos Rey, e trazia no seu elenco Nívea Maria (Carolina), Mário Cardoso (Augusto) e Marco Nanini (Filipe). Por isso, na quarta capa da HQ, há fotos do elenco de personagens da novela.Ao menos, é bom como apoio à obra original, para aqueles que têm dificuldade de visualizar as cenas descritas por Macedo. E bom como importante página da história das HQ nacionais.
Para encerrar, um desenho de como imaginei a Carolina do Dr. Macedinho. Baseada, naturalmente, no desenho de Gutemberg Monteiro. E, justiça seja feita, o paradigma não poderia ser melhor.
Ao Gutemberg Monteiro e ao Dr. Macedinho, estejam onde estiverem.
Até mais!

2 comentários:

Francbrairym disse...

Hoje este registro tem um valor até maior do que ser apenas uma adaptação em quadrinhos do romance. Trata-se de outra tentativa de se manter o contato entre duas modalidades diferentes de códigos a serviço da narrativa literária; enquanto projeto editorial na época, hoje é uma curiosidade preciosa da nossa cultura, a aproximação, no século XX, entre arte sequencial e literatura brasileira.

Erichson disse...

Onde posso fazer o download deste HQ?