terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Yndio do Hayti - André Le Blanc

Olá.
Nesses dias que ainda correm a tragédia no Haiti, acabo lembrando de um personagem haitiano.
Com a proximidade do dia 30 de janeiro, dia do Quadrinho Nacional, é de bom alvitre lembrar de um haitiano que ficou famoso aqui no Brasil e nos EUA. Apesar da nacionalidade estrangeira, esse homem contribuiu bastante para o desenvolvimento dos quadrinhos brasileiros.
Trata-se de André Le Blanc.

Le Blanc (ou LeBlanc, não sei dizer ao certo a grafia correta do nome) nasceu no Haiti em 1921, e morreu nos EUA em 1998. Ele começou sua carreira nos EUA (país onde foi educado), como assistente do mestre Will Eisner, nos anos 40.
Por volta de 1947, Le Blanc aportou no Brasil (é preciso que se diga que Le Blanc falava seis idiomas; portanto, a adaptação do artista ao Brasil não deve ter sido difícil). Nesse mesmo ano, ele começou a desenhar uma tira chamada Morena Flor, a primeira tentativa brasileira de syndication (distribuição) aos moldes norte-americanos - ou seja, foi uma das primeiras HQ brasileiras a ser exportada para outros países no sistema americano de corporação. A empresa se chamava APLA (posteriormente, ICA), e a tira foi publicada na Argentina, no Chile e nos EUA.
Em 1948, a editora EBAL, de Adolfo Aizen, lançou uma coleção que marcou a história das HQ nacionais: a Edição Maravilhosa. Tratava-se de revistas de, em média, 50 páginas, onde se publicavam adaptações de livros célebres da literatura mundial em HQ. As tramas dos livros, em geral, eram reduzidas apenas ao essencial - a idéia era que as HQ não substituíssem os livros, apenas servissem como um apoio à leitura da obra original. A Edição Maravilhosa começou publicando adaptações de literatura estrangeira. A partir de 1950, a revista começou a publicar adaptações de livros brasileiros. O primeirão foi O Guarani, de José de Alencar. A adaptação foi feita por quem? André Le Blanc, lógico.
Le Blanc colaborou ativamente com a Edição Maravilhosa: ele quadrinizou toda a obra de José Lins do Rego (de Menino de Engenho, Fogo Morto, etc.) e obras de José de Alencar, Dinah Silveira de Queiroz (A Muralha, etc.), Herberto Sales e Maria José Dupré (Éramos Seis) para essa coleção. Além disso, Le Blanc ficaria célebre no Brasil como ilustrador dos livros infantis de Monteiro Lobato - suas ilustrações ainda hoje servem de paradigma para muitos artistas.
Nos anos 60, ele voltou para os EUA. Lá, além de ter feito uma célebre adaptação para HQ da Bíblia, ele colaborou com histórias do Fantasma - foi contratado como assistente do artista de então da série, Sy Barry. Em 1977, Le Blanc desenha - sem créditos - o evento mais aguardado pelos fãs do imortal de Bangala: o casamento do herói com Diana Palmer. E foi um feito e tanto, pois o herói precisou ser desenhado de ângulos que seu rosto, sem a máscara, não aparecesse.
Porém, como muitos artistas brasileiros, Le Blanc foi esquecido com o passar do tempo. Hoje, é preciso procurar bastante por qualquer referência a esse importante artista. Mas nem tudo está perdido: no website do Spacca, é possível ler um texto sobre esse mestre (de lá saiu, "emprestada", a foto acima, do artista), bem como à entrevista que Le Blanc concedeu ao jornalista Ed Rhoades). Link:

O GUARANI
Já que falamos em Le Blanc, vou falar agora da adaptação literária mais célebre feita por esse artista.
O Guarani, do romancista cearense José de Alencar (um dos maiores nomes do Romantismo brasileiro), foi publicado em 1857. Seu personagem principal, Peri, seria o maior mito do indianismo brasileiro - o movimento literário que valorizava o índio como o "herói" nacional, como a representação maior do Brasil enquanto pátria. E, sem querer, é o nosso primeiro "super-herói". Disposto a tudo para defender sua amada, a branca Cecília, Peri faz coisas sobre-humanas: afinal, pegar uma onça à unha, perseguir bandidos mesmo com um ombro ferido, combater índios inimigos com o corpo envenenado, descer em uma grota cheia de serpentes venenosas para apanhar uma jóia que lá caiu e ainda por cima arrancar do chão uma palmeira, com tronco e tudo, com Cecília em seu topo, e ainda por cima sob uma enchente? E Tudo sozinho?? Não é para qualquer um. E os escritores tinham mesmo uma imaginação prodigiosa, né não?
Bom, mas o fato é que O Guarani é o romance de aventura mais célebre da nossa literatura. Inspirou a mais célebre ópera de Carlos Gomes, e no século XX foi um dos romances brasileiros mais adaptados para HQ.
Das adaptações de O Guarani para HQ, conhecem-se cinco versões: a primeira, feita por volta de 1947, é de Francisco Acquarone, para um álbum editado pelo jornal Correio Universal, do Rio de Janeiro; a segunda, também de 1947, foi feita em formato de tiras, no jornal Diário da Noite, também do Rio, pelo mestre português Jayme Cortez, então recém-chegado ao Brasil; a terceira é a de 1950, feita por André Le Blanc para a Edição Maravilhosa da EBAL; a quarta é de 1970, feita por Edmundo Rodrigues; e a última e mais recente é a de 2009, publicada pela editora Ática, escrita por Ivan Jaf e desenhada por Luís Gê (HQ que marca o retorno do iconoclasta desenhista às pranchetas).
Bem, a edição que eu tenho em mãos é justamente a de Le Blanc. Esta impressão, também da EBAL, foi feita por volta de 1975, para a série especial Clássicos Ilustrados - seria a segunda impressão da Edição Maravilhosa no. 24, onde a história foi publicada em 1950.

A capa da edição original também era de Le Blanc. A desta edição é de Roberto Ricardo, sobre desenhos de Le Blanc. É, a capa desta foto está amassada por conta do estado em que o livro estava no local onde adquiri, a baixo preço, este volume. Ilustrando o artigo, páginas escaneadas da obra original.
Nesta HQ, dá para se notar que Le Blanc era um artista excepcional. Ele tinha muita propriedade para criar sequências de ação. Sem falar que os personagens são muito bem desenhados - muito embora em alguns momentos eles careçam das expressões faciais adequadas para cada cena. Em alguns momentos a arte é confusa, é preciso apurar os olhos para captar todos os elementos. Mas a arte-final é limpa e não prejudica a bela arte de Le Blanc.
No mais, embora com algumas idiossincrasias, a trama é fiel à do livro. Os parágrafos descritivos da obra de Alencar foram dispensados. Mas o texto é abundante, e a idéia é preservar as idéias da obra original.
Com o que está acontecendo agora no Haiti, é justo relembrar o mestre Le Blanc. Existiu pelo menos um haitiano famoso, e é justo que recordemos, ainda que por um instante.
Para encerrar, um desenho do herói Peri e da amada Ceci que eu fiz.
Para Le Blanc, esteja onde estiver!
Até mais!

5 comentários:

Isabela disse...

Olá.. Rafael..
irei interpetrar Ceci e estava buscando algumas coisas sobre ela no google..achei seu blog.
Estás de parabéns..
adorei a matéria sobre o Guarani..
ass isabela

Vivienne disse...

I am Vivienne Le Blanc, Andre's daughter. I'm so glad you remember his work "O Guarani".

If you have any questions about dad's work in Brasil, please write me. I did lettering for him and still have many of his sketches

Vivienne disse...

For the record, pop's mother was French, and his father owned properties in many Caribbean islands. His birth in Haiti is more accidental than cultural, and pop was only 3 years old when his father was killed. At that point the family headed back to France, but after a detour caused by an accident, remained in New York City, which my father considered his home and major influence. That is where he met Will Eisner, Joe Simon, Lee Ames and all his friends from the cartoon world. However, he fell in love with Brazil after his whirlwind romance with my mother Elvira Telles in Rio de Janeiro. Brazil was a romance, a passion and a lifelong inspiration for him.

Africano Setana disse...

Tenho 4 quadros de andré le blanc para leilor liga nesse numero
(73)8119-9034
(73)8155-7252

O quadro aquarela e de 1950 o numero e 1249.

Africano Setana disse...

Jah axo o conprado do quadro aquarela?