sábado, 30 de junho de 2012

Filme: MONSIEUR N.

Olá.

Hoje, vou falar de filme. Faz tempo que não falo de filme.
Este filme não é muito conhecido, mas está disponível em DVD no Brasil. Pode não ser apreciado por todos, pois se trata de um filme épico, com fato histórico verídico como pano de fundo – mas sem grandes garantias de fidelidade histórica. E, além disso, é com uma figura histórica que já foi retratada mais de uma vez no cinema.
Este filme pode ser encontrado sob dois títulos: MONSIEUR N., o nome original, ou o esdrúxulo (porém não destituído de sentido) nome dado pela distribuidora brasileira, NAPOLEÃO – A ÚLTIMA BATALHA DO IMPERADOR. Vamos chamar este filme, aqui, pelo nome original.

Bem. Este filme foi produzido em 2003, na França e no Reino Unido. Atualmente, é difícil um filme europeu desse porte passar pelo circuito brasileiro de cinemas. Está disponível em DVD, distribuído pela Casablanca filmes. Foi dirigido por Antoine de Caunes, com roteiro de René Manzor.
Existem muitos filmes que retratam uma das figuras mais influentes da política mundial, o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769 – 1821), que dominou a França entre 1804 e 1815, e que, indiretamente, contribuiu para o processo de independência do Brasil, ao forçar a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil em 1808. Ele mesmo, o homem do cavalo branco. O homem do chapelão e da mão dentro do casaco. O homem que fez do nepotismo uma norma de conduta. Etc. Todos já devem ter ouvido falar nesse homem, e sabem o que ele fez – isso se não fugiram das aulas de História na escola.
Como eu disse, muitos filmes já retrataram sua figura. Há, por exemplo, a produção de 1927, dirigida por Abel Gance, Napoleón. Há também, para citar outro exemplo, a produção de 1971, Waterloo, dirigida por Sergei Bondarchuk, que retrata a batalha onde ele foi derrotado, em 1815.
A proposta de MONSIEUR N. é diferente: trata-se do retrato dos últimos anos de Napoleão, passados na ilha de Santa Helena, no Oceano Atlântico, para onde o Imperador foi levado, como prisioneiro dos ingleses, em 1815, e morreu, em 1821. O filme combina uma pretensa reconstituição da história com um pouco de teoria conspiratória. Porém, tudo alicerçado em um bom roteiro, daqueles no qual os pequenos detalhes tem importância fundamental. E também em uma bela fotografia, cenários exuberantes, figurino bem-feito e boas atuações.
A narrativa é conduzida pelas memórias de um oficial inglês, o então tenente Basil Heathcote (Jay Rodan), que havia sido designado para Santa Helena para vigiar Napoleão (interpretado por Philippe Torreton), e tenta reconstituir os últimos anos de vida do Imperador, e também tentar entender alguns enigmas daqueles anos – bem como tentar localizar a mulher amada.
Bom. O filme, que apresenta vários saltos no tempo, começa em 1840, quando o corpo de Napoleão é exumado de seu túmulo em Santa Helena, a fim de ser conduzido, com pompa, para Paris. E só depois o filme retorna a 1815, quando Napoleão chega a Santa Helena. O governador da ilha é o autoritário oficial Hudson Lowe (Richard E. Grant, de Assassinato em Gosford Park), que pretende, o mais possível, tornar a estadia de Napoleão difícil, uma vez que sua conduta combina ódio e, ao mesmo tempo, admiração pela figura do Imperador. Aliás, é só o séquito de seguidores de Napoleão, que vieram com ele a Santa Helena, que o chamam de Imperador; os ingleses, os carcereiros, preferem chamá-lo de General. Afinal, foram os ingleses, aliados a outras nações européias inimigas de Napoleão, que causaram sua derrota em Waterloo, e o depuseram do cargo de Imperador.
Mesmo no exílio, Napoleão procura demonstrar que não foi derrotado ainda. Mesmo que Lowe tente dificultar sua vida, impondo um quase boicote econômico (numa das cenas, Napoleão propõe inclusive derreter a própria prataria para contornar a falta de dinheiro), Napoleão ainda se porta como se estivesse no poder: não se deixa abater com respostas, dá ordens a seus seguidores, organiza suntuosos, embora frugais, banquetes na casa onde fica aprisionado. Enquanto isso, relata aos seus próximos alguns feitos de sua vida.
O séquito de Napoleão em Santa Helena é constituído por: seu mordomo e principal confidente, Cipriani (Bruno Putzulu); o general Monthlon (Stephane Freiss) e sua esposa, Albine (Elza Zylberstein), um casal bajulador e interesseiro (Albine, inclusive, é amante do Imperador, e com o conhecimento do marido); O general Gourgaud (Fréderic Pierrot), bonapartista ferrenho; e o general Bertrand (Roschdy Zem), o mais fiel seguidor de Napoleão. Sem falar em Ali (Igor Skreblin), o criado estrangeiro. O próprio Napoleão se preocupa com aquele universo de bisbilhoteiros, bajuladores, falsos seguidores, possíveis espiões dos ingleses.
Outra personagem intrigante que aparece na história é Betsy Balcombe (Siobhan Hewlett), filha de conhecidos de Napoleão, que visita a ilha. Basil se encanta por Betsy, mas ela tem olhos para Napoleão. Mesmo quando explicita sua paixão, o Imperador permanece impassível – aparentemente, ele parece ligado à primeira esposa, Josephine (apenas citada na trama). Em verdade, Napoleão parece não expressar emoção nenhuma, enquanto arma intrigas – como um plano para fugir da ilha. Porém, em certo momento, ele confessa que não quer voltar a assumir o poder.
Enquanto isso, Betsy chega até mesmo a discutir com Albine, sobre os sentimentos de ambas pelo Imperador: enquanto Betsy tem uma afeição verdadeira por Napoleão, Albine é mais ligada pelo interesse – os privilégios de estar perto da outrora figura mais poderosa da Europa.
Enquanto isso, Hudson Lowe está obcecado pelo encargo de impedir Napoleão de fugir. Apesar de saber que Santa Helena é praticamente inexpugnável (impossível de fugir) devido ao terreno montanhoso e cheio de precipícios, o intransigente oficial se preocupa bastante com a possibilidade de fuga. Inclusive, chega a propor indiretamente ao médico particular do Imperador, o Dr. O’Meara (Stanley Towsend) que o envenene secretamente. Ante a recusa do médico, Lowe cogita utilizar alguém próximo de Napoleão para o serviço.
Enquanto isso, o plano de fuga está em curso – numa cena, Napoleão sai para cavalgar com Basil, e o Imperador fica bastante à sua frente, reconhecendop o terreno da ilha. Uma das cenas do filme, pretensamente, se passa no Brasil, onde um antigo oficial bonapartista lá exilado, Von Holgendorp (Bernard Bloch) e o inglês Carpenter (Jake Nightingale) conversam acerca do plano para a invasão da ilha.
Mas esse plano de invasão não dá certo – mesmo com a ilha invadida, Napoleão recusa-se a sair da ilha. E é lá que ele morre, numa sequência dramática. Ou, pelo menos, é o que querem que todos pensem.
É justamente aí que entram as cenas do filme passadas na França, em 1840, onde o agora coronel Basil, após assistir a procissão de condução do corpo de Napoleão ao seu túmulo, no Cemitério Des Invalides, em Paris, conversa com várias pessoas que estiveram perto do Imperador naqueles anos, com dois intuitos: esclarecer as circunstâncias de sua morte, e encontrar Betsy, claro. (Em tempo: embora Basil e Betsy se cruzem várias vezes ao longo do filme, o então tenente nunca confessou seus sentimentos à garota.)
Basil conversa com Bertrand, com Gourgaud, com Albine de Monthlon e com Hudson Lowe, todos seguindo rumos diversos após a morte de Napoleão. E, a partir de diversas informações, é traçada a teoria conspiratória do filme.
Oficialmente, aceita-se que Napoleão teria falecido devido às complicações de uma úlcera no estômago (um dos motivos alegados para o fato de ele andar com a mão dentro do casaco, ato que ele não faz em nenhum momento do filme); há rumores que Napoleão teria sido envenenado, com arsênico – há quem diga que o arsênico, encontrado nos restos mortais de Napoleão analisados por cientistas, na verdade teria vindo dos remédios que ele tomava para a úlcera; outros dizem que foram gases gerados pela tintura do papel de parede de seu quarto e o bolor das paredes. No filme, é montada a seguinte versão: de que Napoleão teria fugido, sim, secretamente, de Santa Helena, e se refugiado na Louisiana, nos EUA. Através de pequenas pistas – como o fato do corpo de Cipriani, morto anos antes de Napoleão, ter desaparecido de seu túmulo em Santa Helena. Logo, não seria Napoleão quem estaria enterrado nos Invalides.
Teorias conspiratórias à parte, MONSIEUR N. é um filme envolvente, em seus 120 minutos de duração. Teve boas críticas, mas com descontos para a atuação de Philippe Torreton, apesar de as frases que o roteirista Manzor põe na boca de Napoleão terem bastante efeito. Vale a pena assistir. E preste bem atenção em cada detalhe, cada diálogo, cada analogia presente: tudo é importante para a trama, assim como uma reconstituição de um crime, a la Sherlock Holmes.
Também não é difícil encontrar esse filme para baixar na internet.
Para encerrar, inspirado em Napoleão (estive semanas dando aula sobre ele no colégio onde leciono), fiz uns desenhos sobre a figura. Uma das esquetes foi inspirada em uma esquete da revista MAD; outra traz aquela clássica pergunta. Saibam desde já: Napoleão teve vários cavalos ao longo da vida, e, numa de suas batalhas, montava na verdade um jumento. Mas há quem diga que ele teve mesmo um cavalo chamado Branco, que era marrom. Ah, mas o que importa?!

Até mais!

Um comentário:

Kenia disse...

Adorei seu blog. Parabens! ;)