domingo, 3 de junho de 2012

A volta d'O GARRA CINZENTA!

Olá.

Hoje, volto a falar de quadrinhos. Mas, desta vez, refazendo novamente uma matéria já publicada. Isso porque, recentemente, tive acesso a um material que eu cobiçava muito, sobre o qual já havia escrito anteriormente e que, agora, com uma lida mais atenta, posso falar como se deve.
Estou falando sobre A GARRA CINZENTA.

Bem, eu já havia escrito sobre esta que é considerada a nossa primeira HQ de terror (clique aqui para ler a matéria original). Porém, alguns fatos mudaram tudo o que se sabia sobre essa HQ, e sou obrigado a mudar as informações antes disponíveis. Mas vamos por partes.

SOBRE O QUADRINHO
A GARRA CINZENTA é uma história em quadrinhos que foi publicada pela primeira vez em 1937, no suplemento A Gazetinha, do jornal A Gazeta, de São Paulo. Seus autores são Francisco Armond e Renato Silva. Esta série, até recentemente, era um objeto de desejo de pesquisadores e entusiastas das HQ brasileiras. As novas gerações, só no segundo semestre de 2011, puderam começar a conferir essa HQ na íntegra, numa edição acessível. Já explico.
Como se disse, a HQ A GARRA CINZENTA foi iniciada na Gazetinha em 1937. Aliás, nesse mesmo suplemento de HQ, também apareceram pela primeira vez, no Brasil, as HQ do Fantasma e do Superman (então chamado Super-Homem, mas que curiosamente foi criado um ano depois do GARRA CINZENTA), além de outros personagens célebres das HQ internacionais. O dono do jornal A Gazeta é, na verdade, o jornalista Casper Líbero. E, além de publicar os já citados heróis Fantasma e Superman, o suplemento A Gazetinha, cuja trajetória compreendeu três fases durante sua duração, entre 1929 e 1950, publicou trabalhos de brasileiros: as obras de Messias de Mello (entre elas Audaz, o Demolidor, e Pão-duro), Jerônymo Monteiro (que passou a dirigir o suplemento em 1948) e o já citado Renato Silva.
Até então, se sabia, meio que erroneamente, que o jornal A Gazeta era dirigido pelo casal Manoel (ou Maurício) e Helena Ferraz, diretores da Livraria Civilização do Rio de Janeiro. Na verdade, A Gazeta – e a Gazetinha, que nasceu como A Gazeta Infantil – pertencia ao jornalista Casper Líbero. Mas Maurício Ferraz era, sim, o diretor do jornal Correio Universal, do Rio de Janeiro, onde foram publicadas as obras do pintor Francisco Acquarone – João Tymbira em Redor do Brasil e a primeira adaptação para HQ do romance O Guarani, de José de Alencar.

A IDENTIDADE DE FRANCISCO ARMOND
Mas a maior retificação que foi feita ate o momento sobre a obra foi quanto à sua autoria.
Não há dúvidas que A GARRA CINZENTA foi desenhada por Renato de Azevedo Silva (1904-1981), que, além essa obra, tinha no currículo a série Nick Carter, duas séries publicadas no jornal Diário de Notícias (Histórias que Ficaram na História e Histórias da História do Mundo) e os livros da série A Arte de Desenhar.
Mas é sobre Francisco Armond que recentemente um balde de água fria foi jogado sobre as certezas que antes tínhamos: revelações recentes acabam com a tese que o autor de A GARRA CINZENTA possa ser Helena Ferraz.
Até 2008, quando o quadrinhista Gedeone Malagola publicou uma matéria sobre A GARRA CINZENTA na revista Mundo dos Super-Heróis # 9, da editora Europa, tudo o que se sabia sobre Armond, segundo os guias de referência de então, era que ele era jornalista. Pois Malagola, nessa matéria, havia creditado ao pesquisador Sérgio Augusto a descoberta que Francisco Armond seria Helena Ferraz, escrevendo sob pseudônimo por conta do preconceito existente contra mulheres roteiristas de HQ nos anos 30 do século XX. Talvez porque Ferraz também escrevia poemas, e usava como pseudônimo o nome Álvaro Armando, junção dos nomes de seus filhos.
Pois, em matéria publicada em junho de 2011 no jornal Estado de São Paulo, essa versão foi desmontada: Sérgio Augusto negou ter dito que Ferraz pudesse ser Armond. E um dos descendentes da autora foi entrevistado, e esse negou o envolvimento de Helena Ferraz com o gênero terror. Bem, para saberem mais, vocês podem ler a matéria aqui.
De toda forma, até 2011, os pesquisadores estavam felizes: vários autores e pesquisadores já creditavam Helena Ferraz como a autora de A GARRA CINZENTA. Até mesmo Emir Ribeiro, quando lançou o segundo número do crossover entre Raio Negro e Velta, onde os dois enfrentavam o Garra Cinzenta, chegou a escrever uma matéria a respeito de Helena Ferraz como autora da HQ.
Verdade ou não, o certo é que o mistério sobre Francisco Armond persiste. Não que Helena Ferraz agora não possa ser a autora de A GARRA CINZENTA; é só a certeza disso que foi pulverizada.

A TRAJETÓRIA DA GARRA CINZENTA
Bem. A GARRA CINZENTA foi publicada na Gazetinha de 1937 a 1939, totalizando 100 capítulos de uma página cada. Essa HQ chegou a ser exportada para o exterior – foi publicada no México, na Bélgica e na França (onde recebeu o nome de Griffe Grise, quando apareceu na revista belga Le Moustique). Entretanto, devido à desconfiança que outros países tinham, na época, sobre as produções artísticas brasileiras, os franceses chegaram a pensar que A GARRA CINZENTA fosse produzida no México.
Após o fim da série, A GARRA CINZENTA foi publicada em dois álbuns publicados pelo jornal A Gazeta. O primeiro saiu em dezembro de 1939, reunindo os primeiros 51 capítulos. O segundo álbum, com os 49 capítulos restantes, saiu em janeiro de 1940.
Depois desses dois álbuns, a primeira republicação d’A GARRA CINZENTA foi no Almanaque Gibi Nostalgia, da editora Rio Gráfica (atual editora Globo), em 1975. Entretanto, só a primeira parte da história foi republicada aí – os primeiros 51 capítulos. Com o cancelamento da revista Gibi Semanal, os almanaques foram suspensos e A GARRA CINZENTA acabou incompleta. Era nessa republicação incompleta que se baseavam os scans até agora disponíveis na internet para download.
A saga completa d’A GARRA CINZENTA só apareceria, novamente, em 1988, quando os 100 capítulos foram reunidos no fanzine Seleções da Quadrix # 3, trabalho de Worney Almeida de Souza. Este teve de recorrer a muitas fontes para reunir os 100 capítulos, entre eles o acervo particular do colecionador Eufrásio Magalhães, que tinha um exemplar do segundo álbum da Gazetinha. O fanzine Seleções da Quadrix # 3 teve tiragem de 500 exemplares, que se esgotaram rapidamente e hoje são difíceis de serem encontrados.
Mas eis que chega 2011: um pouco depois que aparece para venda na internet uma misteriosa edição fac-similar da série, o mesmo Worney Almeida de Souza coordena a republicação da saga completa d’A GARRA CINZENTA em um álbum de luxo, lançado pela editora Conrad. Apesar de esse lançamento ter sido meio discreto – nem o site Universo HQ, principal referência para lançamentos de HQ no Brasil, noticia o lançamento do livro! – ele contentou os entusiastas, que finalmente leriam A GARRA CINZENTA na íntegra, e ainda na linguagem de época. E foi na época do relançamento d’A GARRA CINZENTA que saiu a citada matéria do Estadão, desmontando tudo o que se sabia sobre isso.
Pois bem. Consegui adquirir o álbum da Conrad. E agora tenho muita segurança para falar sobre A GARRA CINZENTA. E, ilustrando a matéria, as ilustrações que já fiz (e publiquei) do personagem, incluindo uma inédita.

A OBRA EM SI
Se persiste o mistério sobre a autoria do roteiro, a dos desenhos é certamente admirável.
A GARRA CINZENTA nasceu no período em que o cinema, os quadrinhos e os pulps (livros de contos escapistas impressos em papel de má qualidade) influenciavam as artes. Os seriados de cinema norte-americanos certamente serviram de fonte para Armond construir o seu enredo, que tem muitos elementos das histórias de suspense e mistério que eram populares no período: sociedades secretas, assassinatos misteriosos, avanços científicos à frente de seu tempo, vilões megalomaníacos, heróis inteligentes e/ou elegantes que defendiam a moral e os bons costumes dos anos 30, paredes cheias de passagens secretas e túneis que passam por baixo das cidades e até mesmo chineses, traficantes orientais de ópio.
Se diz que A GARRA CINZENTA seria a primeira HQ de terror genuinamente brasileira publicada em nosso território. Olhando a obra hoje, não se diria que A GARRA CINZENTA fosse uma HQ de terror. É, na verdade, uma história policial, mas os níveis de violência e suspense usados por Armond e Siva na história eram tão altos para a época que A GARRA CINZENTA é classificada como uma HQ de terror. Contribui para essa classificação o fato de a HQ conter elementos mórbidos para o anos 30, como o vilão trajando uma máscara de esqueleto, assumindo a face da morte, profanações de túmulos, experiências científicas cruéis (levadas a cabo antes das experiências dos médicos nazistas nos campos de concentração da Alemanha) a presença de monstros e até de um robô humanóide (na época em que o termo robô ainda não havia sido popularizado – na história, o tal robô é chamado de autômato). O próprio vilão teria, segundo especialistas, influenciado personagens que apareceram depois, como o Blazing Skull da Marvel e os italianos Kriminal e Satanik. Mas também há quem diga que o Garra Cinzenta seria um plágio de outro personagem da época, o Terror Negro.
Na parte dos desenhos, Silva apostou numa arte neoclássica, cheio de hachuras, claros-escuros construídos com linhas, cenários detalhados e personagens às vezes parecidos entre si, tornando difícil a diferenciação de um e outro – além de muito movimento nos tecidos das roupas. O formato das páginas segue a disposição em prancha, como era publicado nos jornais – os quadros dispostos em um espaço retangular padronizado, diferenciando-se assim do formato tira (ou daily strip). O formato prancha seria o mais usado nas páginas dominicais de HQ dos jornais, com histórias mais longas dos personagens, e se consolidaria com os suplementos de quadrinhos, precursores dos gibis como hoje conhecemos. Mas o layout das páginas não é o mesmo em todos os capítulos. Nos capítulos iniciais, os quadros seguem uma disposição mais tradicional, de quadros formando linhas perfeitas – e os quadros possuem legendas na parte de baixo, indicando o que acontece nas cenas, dando à HQ um aspecto de história ilustrada. A leitura, obrigatoriamente, deve começar da legenda abaixo do quadrinho e só depois ir para os balões em cima. Mas, a partir do 5º capítulo Silva começa a variar no layout: já promove o uso de quadros maiores, que quebram as linhas de quadros; pouco depois, promove uma quadrinização mais dinâmica, que quebra a “hierarquia” das páginas – em alguns momentos, há quadros “acavalados” entre outros, dispostos de modo quase caótico, mas sem quebrar a sequência de leitura (nesses momentos, porém, Silva numerava os quadros, facilitando a sequência de leitura) e alguns quadros não são mais quadrados nem retangulares, mas seguem ângulos tortuosos. A partir do 27º capítulo, Silva começa a dispensar as legendas aos pés dos quadrinhos, mas retorna a e as alguns capítulos depois. Até mesmo os balões de fala não seguem uma padronização: em um capítulo, eles podem aparecer quadrados; noutros redondos; em alguns, as letras são bem pequenas; em outros, grandes. E assim por diante: praticamente, Silva não usa o mesmo layout do capítulo anterior no capítulo seguinte. O desenhista não se prende a um modelo pré-estabelecido, e se deduz que Armond conferiu ao desenhista liberdade total de criação.
A arte, combinada ao enredo, dá à história do Garra Cinzenta o clima de mistério e suspense que faz da HQ um clássico nacional. O roteiro, porém, também não segue uma padronização: nos primeiros capítulos, pelo aspecto de história ilustrada da prancha, há uma quebra de timing – um fato que acontece entre dois quadrinhos não é detalhado por um quadrinho entre eles, dando a impressão de um salto de edição de um filme; pouco depois, Armond conserta a continuidade e confere um seqüenciamento e um timing mais assimilável pelos leitores. Além disso, há o fato de alguns detalhes que poderiam enriquecer a história terem ficado de fora, como a origem do vilão e de suas motivações, um detalhamento de suas experiências anteriores, etc. É de se deduzir que Armond pretendia fazer A GARRA CNZENTA uma série ainda maior, além do número 100; entretanto, fontes apontam uma misteriosa interrupção na série, de forma abrupta. Ainda assim, A GARRA CINZENTA, fora os detalhes que faltam, pode ser considerada uma aventura completa.

O ENREDO
Falta falar do enredo da HQ, claro.
Bão. Como muita gente sabe, A GARRA CINZENTA gira em torno de um vilão misterioso que aterroriza uma metrópole. Como os nomes dos personagens são ingleses, como Higgins, Curberry, Stone e Murphy, deduz-se que a história se passe provavelmente em uma metrópole dos EUA – há inclusive uma referência à Lei Seca, a lei aprovada pelo Congresso Estadunidense que proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas.
Esse vilão, o Garra Cinzenta do título, é um misterioso cientista, que usa um traje bastante apropriado a um vilão demoníaco – terno escuro, capa, um capuz e um chapéu na cabeça e uma máscara de caveira – que comanda uma gangue semianarquista, cometendo crimes como assassinatos e roubos. As intenções só são esclarecidas aos leitores mais adiante, pois alguns dos crimes comandados pelo vilão são apenas despiste para o verdadeiro motivo.
O Garra Cinzenta é o vilão, enquanto que os heróis são o inspetor Frederic Higgins e seu assistente Miller.
Cada vítima do Garra recebia, com antecedência, um cartão com uma garra desenhada, antes de ser morta misteriosamente. Nos primeiros capítulos, o vilão – que só dá as caras no capítulo 19 – faz uma espécie de jogo com a polícia, desnorteando-a. Processa seus crimes com a ajuda de capangas e aparatos tecnológicos à frente de seu tempo – mas que, nos dias de hoje, são anacrônicos e ultrapassados.
Até que Higgins consiga uma pista que leve ao esconderijo do vilão, o Garra já terá feito seis vítimas: um cientista chamado Charles Curberry (morto estrangulado) e a secretária deste, Katty (morta por um punhal jogado de uma janela no instante em que ela ia revelar alguma coisa aos investigadores); o tenor MacFlagan (que foi morto durante sua apresentação, mesmo com o teatro fortemente vigiado por policiais); um capanga do vilão (que tentou matar Miller, mas acabou preso e, antes que pudesse contar algo, foi alvejado por metralhadoras); o porteiro do teatro (que, momentos antes, havia entregue a um jornalista um livrinho com todos os nomes dos freqüentadores do teatro – esse livrinho é roubado do jornalista) e o empresário Murphy, morto alvejado durante uma festa promovida por seu rival, Tornhill, o “Rei do Aço”.
O que possibilitou que Higgins conseguisse chegar até o esconderijo da gangue foi um integrante da quadrilha: Henry, o filho de Tornhill, que entrou para a quadrilha por causa de uma dívida. Após o interrogatório com Henry, Higgins entra disfarçado no local da reunião e tem a chance de se encontrar com o vilão – mas não sem antes passar pelo resto da gangue ali reunida.
No primeiro encontro entre Higgins e o Garra Cinzenta, ficamos a par dos aparatos tecnológicos desenvolvidos por ele: a começar pela espingarda ativada por um relógio, que ele usou para matar Murphy sem ser visto; depois, temos pistolas de ar comprimido, (que ele usa para nocautear Higgins), uma plataforma elétrica e até uma tela ancestral de televisão.
Na primeira incursão contra o vilão, Higgins chega a ser preso, Miller e os outros policiais caem numa armadilha, mas todos conseguem escapar, graças à agilidade e à sorte de Higgins. Entretanto, o Garra Cinzenta foge.
E só volta a aparecer nos episódios da operação empreendida para tirar Henry, que estava sob proteção policial, do país. Nesta parte, entra em cena Kay Tornhill, irmã do jovem desajustado (não podia faltar uma mulher bonita na trama), uma moça elegante, teimosa e bastante “avançada” para a condição de seu tempo – ela atua como se fosse a verdadeira chefe da família. Os diálogos entre Higgins e Kay demonstram o quanto ela chega a ser durona, embora não tenha papel significativo na ação da trama.
Na tentativa de tirar Henry do país, o Garra volta a aparecer, e, vendo seu plano de eliminar esta testemunha falhar, foge, e Higgins vai atrás dele. Entra aí o elemento das casas de ópio – nas antigas histórias de suspense, era imprescindível a entrada de um chinês em trajes típicos na trama, talvez motivado pelo sucesso no facínora oriental Fu Manchu. E o chinês de A GARRA CINZENTA se chama Lee, o Maneta, contrabandista de ópio, mas que tem seu “negócio” assegurado pela polícia por atuar como informante da mesma. É Lee quem guia Higgins a um sistema de passagens secretas que passam pelos subterrâneos da cidade – e onde fica um dos esconderijos do Garra Cinzenta.
É a partir desta parte que mais revelações são feitas: alguns dos crimes cometidos pelo vilão eram apenas para despistar a polícia. O verdadeiro motivo da vilania do Garra é um segredo alquímico: o segredo para ressuscitar os mortos, algo que ele pretende usar como ardil para dominar o mundo. Nesse ponto, entram os elementos do terror: a começar, pelo ajudante do vilão, o autômato Flag, um robô humanóide com garras no lugar das mãos e que emite o som “glu! Glu! Glu!” para se comunicar. Apesar de rudimentar, Flag é semi-inteligente, mas pronto a tacar qualquer coisa que se mexa – o próprio Garra tem alguma dificuldade para controlá-lo. Também entra aqui um estranho homem-macaco, um monstro fruto de uma experiência mal-sucedida do vilão, e que é mantido acorrentado.
Mas o maior feito do vilão foi conseguir alcançar o objetivo de ressuscitar os mortos: ele consegue fazer reviver um cadáver de mulher. Esta mulher, que acorda sem lembranças do passado, é transformada, pelo Garra, na Dama de Negro, sensual assistente do mesmo. Essas experiências explicam outro crime do Garra: a profanação de túmulos.
A partir daí, o enredo tem menos ação e mais elementos detetivescos por parte de Higgins: antes de preparar a armadilha final para capturar o vilão, ele precisa descobrir sua identidade, para assim localizar seu esconderijo. Através de pistas fornecidas pelo desconfiado empresário Tornhill, e lendo um livro escrito por uma das vítimas – o cientista Curberry – Higgins descobre mais do que esperava.
Lances de ação, suspense e violência se sucederão até a tradicional vitória do bem contra o mal. Mesmo a revelação da identidade secreta do vilão chega a ser surpreendente.

A EDIÇÃO DA CONRAD
Os brasileiros, finalmente, podem ter em mãos, em edição de luxo e fac-similar, esta verdadeira relíquia dos quadrinhos nacionais. O acabamento do livro é primoroso – capa dura, tamanho 21,5 x 27,5, 130 páginas, e na capa a reprodução da escultura do Garra Cinzenta, que foi homenageado no 16º Prêmio HQ Mix, a principal premiação das HQ nacionais. Como já dito, a edição se baseia no trabalho de 1988, empreendido pelo mesmo Worney Almeida de Souza que republicou a obra integral do fanzine Seleções da Quadrix # 3 – e que também escreveu o texto introdutório, relatando sobre a obra, a trajetória da Gazetinha e alguns aspectos dos quadrinhos do período, bem como um breve perfil dos autores. No texto, Worney não confirma nem nega que Helena Ferraz seja Francisco Armond.
Todos os 100 capítulos estão reunidos na forma como saíram nos álbuns da Gazetinha e no Almanaque Gibi Nostalgia. Só um engano: após o capítulo 51, antes do capítulo 52 foi republicado a página de encerramento do primeiro álbum d’A Gazetinha, com a reprodução do capítulo 97. É nesse ponto que termina o arquivo disponível na internet até então.
Outro ponto interessante é que a editora e o organizador mantiveram o texto com o português da época – seria difícil verter as letras originais usadas por Silva para o português atualizado. Desse modo, o português usado na aventura é o vigente antes da primeira reforma ortográfica de 1946. Sendo assim, é divertido ver, nos textos, palavras grifadas de um modo diferente do que hoje conhecemos: palavras como “directo” (direto), “vae” (vai), “installado” (instalado), “mysterioso” (misterioso) e “rectangulo” (retângulo), entre outras; a forma oblíqua dos verbos e pronomes escritas “instalal-o” (instalá-lo), “pegal-o” (pegá-lo); e estrangeirismos que ainda não haviam sido adaptados à nossa escrita mantém a forma original, como “chauffeur” (chofer), “knock-out” (nocaute), “carnet” (carnê) e “mammuth” (mamute). Portanto, não é erro de ortografia. Era só a forma como nossos bisavós eram obrigados a escrever.
Mas, de toda forma, finalmente os brasileiros podem ler e apalpar este que era um dos maiores objetos de desejo dos pesquisadores e entusiastas de quadrinhos.
O preço nem chega a ser muito salgado: R$ 39,90 em média. À venda nas gibiterias e também pela internet. Também é possível adquirir a obra no site da editora Conrad (http://www.conradeditora.com.br/). Embora a editora ainda seja criticada por ter desativado sua linha de mangás, desta vez ela fez um ótimo trabalho.
Para encerrar, a ilustração inédita do Garra Cinzenta, reunindo ele, a Dama de Negro e o Flag. Notem que o desenho do Garra Cinzenta é diferente dos anteriores, talvez por causa que tive acesso a um modelo decente do vilão, tirado diretamente da HQ, para basear o modelo. Não sabia que o Garra usava um capuz por cima do chapéu, por exemplo. Buá!
Quem sabe desta vez o mistério que cerca a obra esteja perto de ser resolvido? Pelo menos agora que o público tem esta obra, se não totalmente acessível, pelo menos mais perto do alcance do desejo?
Até mais!

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