terça-feira, 21 de abril de 2015

Livro: HISTÓRIAS ÍNTIMAS

Olá.
Como, no momento em que escrevo, temos dois dias dedicados a fatos históricos do Brasil – dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, e dia 22, Descobrimento do Brasil – hoje vou escrever sobre História do Brasil. Melhor dizendo, resenhar um livro de História do Brasil. Mas pisando no terreno do proibido.
O livro de hoje foi um best-seller há alguns anos atrás. A bem da verdade, é um livro recente, lançado neste século XXI.
Hoje, vou falar sobre HISTÓRIAS ÍNTIMAS.
HISTÓRIAS ÍNTIMAS – SEXUALIDADE E EROTISMO NA HISTÓRIA DO BRASIL, escrito pela historiadora Mary Del Priore, foi lançado em 2011, pela editora Planeta, e ocupou, na época em que foi lançado, os primeiros lugares da lista dos mais vendidos. Hoje, se encontra esgotado.
Mary Del Priore, historiadora nascida no Rio de Janeiro, em 1952, se tornou, praticamente, uma historiadora pop, pois vários dos seus mais de 27 livros lançados, entre obras escritas por ela e outras que ela apenas organizou, tratam de temas de interesse geral, e não específico, com o levantamento, inclusive de curiosidades e fatos pouco conhecidos, tornando a história um ramo atraente para o grande público. Isso em um país que tem fama de ter pouco apreço pela sua história, pelo seu patrimônio, pelo seu passado. E o currículo de Del Priore é respeitável: ex-professora de História da USP e da PUC / RJ, pós-doutoranda na École des Hautes Etudes em Sciences Sociales, de Paris, na França, atualmente lecionando na Pós-Graduação de História da Universidade Salgado de Oliveira.
Sua trajetória literária, e altamente premiada, iniciou com a publicação de sua tese de doutorado, História da Criança no Brasil, de 1991, pela editora Contexto. A mesma editora publicou História das Mulheres no Brasil (1997) e História do Amor no Brasil (2005). O Príncipe Maldito (editora Objetiva, 2007) iniciou uma série sobre a vida pessoal da Família Real Brasileira, à qual se inclui Condessa do Barral, A Paixão do Imperador (Objetiva, 2008, vencedor do prêmio da APCA), A Carne e o Sangue (Rocco, 2012, sobre a relação entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos) e O Castelo de Papel (Rocco, 2013, sobre o relacionamento da Princesa Isabel e o Conde D’Eu). E tem ainda: Matar para Não Morrer (Objetiva, 2009, sobre a morte do escritor Euclides da Cunha), Histórias Íntimas (Planeta, 2011) e sua obra mais recente, Do Outro Lado – A História do Sobrenatural e do Espiritismo (Planeta, 2014). Dentre os prêmios que conquistou, está dois prêmios Casa Grande e Senzala, da Fundação Joaquim Nabuco (1998 e 2000), o Jabuti, categoria Ciências Humanas (1998), o Personalidade Cultural do Ano (1998) e o prêmio da Fundação Biblioteca Nacional (2009). Del Priore também colabora com revistas e outras publicações do Brasil. Conheçam mais sobre ela no seu site oficial: http://marydelpriore.com.br/.
Bão. HISTÓRIAS ÍNTIMAS faz um apanhado, resumido, daquele assunto que desperta o interesse dos leitores: sexo através da História do Brasil, desde os tempos do Descobrimento até as tendências atuais. Tudo em uma linguagem acessível, bem-humorada, na linha histórica da “História Vista Por Baixo”, a que reconstrói o modo de vida das pessoas que, tradicionalmente, não são favorecidas pela História.
O livro é dividido em cinco capítulos, e cada um deles é dividido em pequenos capítulos.
Bem, todos aqueles que estudam história, mesmo que “por cima”, já devem ter ouvido falar de como era a sexualidade nos tempos antigos. Todo mundo sabe que foram os europeus, e sua tradição católica, que trouxeram para as Américas os conceitos de pudores, de pecados, do proibido e do permitido, e também algumas doenças venéreas. Do sexo, e de falar sobre sexo, ninguém escapa, é fato, mas o que muda, com o tempo, é a forma como tratamos do assunto. Desde os tempos em que os escritores mais “educados” tinham de usar eufemismos – termos mais “inocentes” – para se referir à genitália humana, até os tempos em que nos referimos às mesmas com os mais sujos palavrões. “Bunda”, há tempos, deixou de ser um desses sujos palavrões, mas... não, não vou usar palavrões. Este é um blog de família!
A época dos pudores começou no momento em que os portugueses determinaram que se cobrisse a nudez dos indígenas – ora vista como sem-vergonhice, ora como consequência da pobreza dessas populações. E medidas para conter a sexualidade livre dos mesmos não faltaram. A tentação da carne era grande nos tempos coloniais, tempos em que os casados só podiam “se tocar” se fosse para procriar – para se divertir, não. Mulheres tinham de se enfear, e os homens, dormir de lado, nunca de costas, para não excitar os órgãos sexuais com “A concentração de calor na região lombar”. Beijos? Difícil em tempos em que não se conhecia higiene bucal, e banhos eram apenas nos finais de semana. Intimidade, em tempos em que portas com chave eram artigos de luxo, era algo difícil: a solução era ir para o mato. Namorar era um exercício de criatividade para driblar a vigilância dos pais e dos padres. Até os negros tinham um palavreado próprio para se referir, ou mesmo convidar, para os “atos libidinosos”. Naqueles tempos, não havia sensualidade nos seios nus das mulheres – o conceito do que era excitante ou não também foi uma construção cultural. E, acreditem: as igrejas, logo a instituição que mais reprimia a sexualidade, eram os locais ideais para namoricos e encontros mais íntimos. E sem falar, certamente, das escapadas dos brancos com as índias e as negras. Mulheres com furor sexual eram mal vistas; homens com tal furor, não.
Depois do capítulo sobre o Brasil Colonial, Del Priore dedica um capítulo sobre o século XIX, o “século hipócrita”. Os pudores do Brasil colonial continuavam, mas só as fontes históricas fora dos gabinetes governamentais e das igrejas revelam: corria solta, no século XIX, a homossexualidade, a ninfomania e a prostituição. Houve casos em que a iniciação sexual dos rapazes foi no ambiente dos internatos, e por colegas mais velhos. Porém, homossexualismo era visto como uma doença mental, passível de ser tratada em manicômios. Isso sem falar nos famosos casos de infidelidade, tanto os casos dentro das famílias como os bem relatados casos dentro da Família Real (alguém aí falou em D. Pedro I?). Doenças venéreas, como sífilis? Os supostos males causados pela masturbação? O fantasma da impotência? A circulação de livros pornográficos, ou dos “livros para se ler com uma só mão”? Há capítulos dedicados apenas a elas...
Na virada do século XIX para o XX, segundo Del Priore, foram constatadas as “primeiras rachaduras nos muros da repressão”. Todo mundo sabe que só na segunda metade do século XX é que a sexualidade seria amplamente discutida, com os estudos mais aprofundados sobre intimidades, doenças venéreas e as primeiras tentativas de uma sincera educação sexual. Mas no início do século XX é que percebemos algumas tentativas de se falar abertamente sobre o assunto, principalmente com a circulação de um periódico evidentemente pornográfico, O Rio Nu, na cidade do Rio de Janeiro, entre 1900 e 1916, com textos, poemas, piadas e desenhos sugestivos. Repressão, claro que havia, e só se podia falar em sexo, claro, através de eufemismos. Ah: sabia que já houve gente, nos anos 40, que defendia o casamento gay, ou algo equivalente?
O século XX assistiu a transformação na intimidade. Del Priore aborda todos os aspectos possíveis dessas transformações: matrimônio, traição, inevitabilidade de se abordar sobre sexo, doenças venéreas, a ascensão do homossexualismo como bandeira de afirmação – e as medidas para contê-lo, demonstrações de masculinidade por parte dos homens, perversões como pedofilia, o apogeu e a glória das pornochanchadas nos anos 70, a evolução das revistas de “mulépelada” desde o abrandamento da censura do Regime Militar, a ascensão das revistas com colunas de “conselhos aos leitores”, onde assuntos tabus eram abordados sem pudor, as mudanças na moda de usar na praia, crimes passionais, mudanças na forma de se ver a prostituição, o surgimento dos anticoncepcionais, que possibilitaram a liberação feminina, mas fizeram-nas baixar a guarda quanto às DSTs... os tabus iam caindo à medida que as décadas transcorriam, o Brasil sempre acompanhando a tendência internacional. A censura do Regime Militar bem que tentou fazer o país retornar aos níveis do Brasil Imperial, mas, como diz a banda Ultraje a Rigor, “pelado todo mundo gosta, todo mundo quer, pelado todo mundo fica, todo mundo é”. O jeito foi tentar se adaptar, mas com medidas para resguardar os mais jovens e inocentes do mundo das perversões.
Mas o saldo negativo da experiência também não fica de fora da abordagem: a ascensão da AIDS e a obsessão por um certo tipo de modelo de beleza. Sim, vocês sabem do que falo. Em uma entrevista, Del Priore afirmou: “foi depois que a Xuxa apareceu que as mulheres ficaram obcecadas em serem loiras e magras”.
A obra ainda contém um caderno de imagens, mas meio “pobre” para uma obra desse porte – a maior parte das imagens é de extratos do já citado O Rio Nu. Podia ter mais exemplares de imagens do século XX... Mas livro de história serve justamente a esse propósito: instigar o leitor a procurar mais obras relacionadas, fazê-lo querer saber mais sobre o assunto, enfim, fazê-lo querer mais. Como uma revista de “mulépelada”.
O prefácio do livro é do saudoso Moacyr Scliar.
Para encerrar, já que falamos no assunto sexualidade, vamos falar um pouco sobre... sexualidade no Brasil Colonial. Através dos cartuns.
A inspiração para os cartuns foram outros, do Ota, publicados no seu livro Relatório Ota do Sexo. Como historiador que sou, senti que os cartuns originais mereciam uma arrumadinha no sentido historiográfico...
...e, mesmo assim, sinto que também defequei na História, em nome do humor. Já sei que vão dizer que está tudo errado, que não é assim que aconteceu... Mas já foi. E não foi por falta de pesquisa.
À medida que os dias transcorrerem, mais livros de história serão resenhados para vocês, aqui, neste Blog Informativo, Cultural e Artístico.

Até mais!

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