Já que iniciei a História das HQ, aqui vai agora a segunda parte, do período inicial até os anos 20.
A partir de agora, alguns trechos serão coloridos - uma cor para os EUA, para a Europa, a América Latina e o Oriente.
PERÍODO INICIAL (1895 – 1909)
Os pesquisadores convencionaram tomar como marco inicial para uma história das HQ a aparição, em 1895, do Yellow Kid (Menino Amarelo) dentro da série de cartuns chamada Hogan’s Alley, criação do americano Richard F. Outcault para o jornal New York World, de propriedade de Joseph Pullitzer. Este trabalho é o primeiro a introduzir os balões com as falas dos personagens e a ação fragmentada (vários quadros, sem molduras, para indicar a sucessão dos episódios da história). A partir de 1895, portanto, as HQ, saindo dos álbuns ilustrados ou livros, passam a ser divulgados pelos veículos de comunicação em massa e, conseqüentemente, a se inserir no contexto da indústria cultural. E não é só isso: o Yellow Kid também origina o termo yellow journalism (no Brasil, o termo equivalente é imprensa marrom ou nanica) como sinônimo de imprensa sensacionalista (os jornais sensacionalistas utilizavam o recurso de publicar HQs nas edições dominicais com o objetivo de alavancar suas vendas), bem como a primeira disputa judicial envolvendo HQ: Outcault, em 1896, troca o World pelo New York Journal, de propriedade de William Randolph Hearst (rival de Pullitzer), levando seus personagens consigo.


· 1902 – Nos EUA, Outcault cria outro personagem célebre: Buster Brown (Chiquinho);
· 1903 – Nos EUA, Upside Downs, do holandês Gustave Verbeck, trazia uma proposta gráfica inusitada que jamais foi repetida: para se ler o resto da história, bastava virar a página de cabeça para baixo;· 1905 – Nos EUA, Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay, que, com seu desenho surrealista, enquadramentos panorâmicos, grandes perspectivas e jogos de cortes e sequências, prenuncia o cinema de vanguarda e, além disso, a obra introduz o elemento da continuidade nas HQ (a situação apresentada sendo interrompida no momento crítico para continuar no dia seguinte); Na França, surge a revista La Semaine de Suzette, dirigida ao público infantil feminino. Dentre as principais atrações da revista, está a personagem Bécassine, de Jacqueline Rivière e Joseph Porphyre Pinchon, considerada a primeira personagem feminina protagonista de uma HQ;
· 1906 – Nos EUA, Kin-der-kids, uma das mais destacadas obras de Lyonel Feininger, célebre pintor de origem alemã (apesar de essa HQ ter sido produzida por um artista gráfico de prestígio, a crítica ignorou que as HQ poderiam ser uma forma de arte, preconceito que se perpetuaria até recentemente);
· 1907 – Nos EUA, Mutt e Jeff, de Bud Fisher, a mais bem-sucedida tentativa de tira diária de jornal, e considerada, assim, seu marco inaugural (até então, as HQ eram restritas aos suplementos dominicais);
· 1908 – Na França, os Les Pieds Nickelés, do Louis Forton, são considerados os primeiros personagens não-infantis de HQ; Na Itália, aparece o periódico Corriere dei Piccoli, de onde saem alguns dos primeiros personagens de HQ daquele país. Entre as atrações do Corriere, Bilbolbul, de Atilio Mussino;
· 1909 – Nos EUA, Winsor McCay produz, a partir deste ano, desenhos animados baseados em criações suas. Uma de suas obras de animação mais conhecidas é Gertie, o Dinossauro.
PERÍODO DE ADAPTAÇÃO (1910 – 1928)O sucesso das HQ leva ao controle dos direitos de publicação por corporações (syndicates), cuja principal função era centralizar e distribuir as histórias a jornais e revistas, inclusive para outros países. Nesse período, existiam duas correntes de artistas: os humoristas, que viam nas HQ apenas diversão e entretenimento, e os estudiosos, que pretendiam intelectualizá-los. A partir de 1920, o cinema passa a influenciar os comics, que passam a ter cortes rápidos, angulação variada e ação seriada dos episódios. Quatro gêneros ou tipos de personagens, cristalizados no período, sobressaíram-se e acabaram virando paradigmas da arte:
· As crianças (kids strips), sejam elas travessas, caso de Sobrinhos do Capitão e Pinduca, ou induzindo o leitor à reflexão, como em Minduim e Mafalda;· Os bichos (animal strips), em geral antropormofizados (com trejeitos e comportamento semelhante ao humano), caso de Krazy Kat, Mickey Mouse, Gato Félix e Pogo;· As famílias (family strips), que também reproduzem um pouco das características da sociedade do período retratado, caso de Pafúncio e Marocas, Blondie e Ferdinando;
· As garotas (girls strips), espécie de variação das family strips, mas centrados em garotas que buscavam o casamento, caso de Blondie (em sua fase inicial); algumas girls strips, no entanto, já mostravam também o início das conquistas femininas na sociedade, caso de Winnie Winkle e Brenda Starr.Algumas das obras e fatos mais marcantes do período:
· 1911 – Nos EUA, Krazy Kat, de George Herriman, uma das mais poéticas HQ já criadas (tanto que ela não foi continuada por outro desenhista após a morte de Herriman, um caso raro na indústria das HQ);
· 1912 – Nos EUA, outra célebre disputa judicial envolvendo HQ: Dirks muda-se para o World de Pullitzer, e leva consigo os Katzenjammer Kids. A nova disputa judicial que se segue entre Hearst e Pullitzer termina com a série publicada nos dois jornais ao mesmo tempo – no entanto, Dirks teve de mudar o nome dos personagens publicados no World (a série passou a se chamar The Captain and the kids), enquanto que no Journal o nome Katzenjammer Kids é mantido, mas desenhado por Harold Knerr. Como resultado adicional desse processo, Hearst, nesse mesmo ano, funda o International News Service (que, em 1914, muda o nome para King Features Syndicate), a primeira (e maior) corporação e distribuidora de HQ do mundo;
· 1913 – Nos EUA, Bringing up Father (Pafúncio e Marocas), de George McManus, precursora das family strips;
- 1917 - Na Espanha, surge a revista TBO, publicação de HQ que, de tão influente, gerou o termo tebeos, como são conhecidas as HQ naquele país (além do termo historieta);
· 1919 – Nos EUA, Gasoline Alley, de Frank King, a primeira a mostrar personagens que crescem e envelhecem; Barney Google, de Billy de Beck (posteriormente, um personagem surgido nessa tira, Snuffy Smith, “rouba” o papel principal, o que podemos considerar como um dos primeiros casos de spin-off [série surgida de outra] nas HQ); Elzie Segar inicia a série Thimble Theatre;· 1920 – Nos EUA, Winnie Winkle, de Martin Branner, uma das primeiras girls strips;
· 1923 – Nos EUA, O Gato Félix, célebre personagem dos desenhos animados criado pelo australiano Pat Sullivan, chega às HQ;

· 1928 – Nos EUA, O Mickey Mouse, de Walt Disney, estréia nos desenhos animados. O personagem chega às HQ em 1930.
Na terceira parte da História das HQ, os férteis anos 30, ou "era de ouro" das HQ.
Para finalizar (e aproveitando o ensejo), fiquem agora com Letícia.

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