Olá.
Na
última postagem, falei a respeito do interessante livro TRAGÉDIA DA RUA DA
PRAIA, que, em forma de romance policial, trata de um episódio real ocorrido em
Porto Alegre, em 1911. O romance de Rafael Guimaraens, lançado em 2005, foi
premiado. Com sua segunda edição lançada em 2011, o livro ganhou uma versão em HQ,
no mesmo ano.
E é
dessa versão que hoje vou falar. TRAGÉDIA DA RUA DA PRAIA foi vertida para HQ
pelo próprio escritor, Rafael Guimaraens, com desenhos do conterrâneo Edgar
Vasques, um dos maiores cartunistas gaúchos dos séculos XX e XXI, grande
representante da charge de crítica social e exemplo maior do cartunismo gaúcho
como um dos mais combativos do Brasil.
O CRONISTA DA MISÉRIA
Antes
de prosseguirmos falando da HQ, vamos falar desse que é um dos mais
conceituados quadrinhistas, caricaturistas, publicitários, ilustradores e
chargistas do Brasil e do Rio Grande do Sul, da segunda metade do século XX e
início do XXI. Edgar Vasques possui um longo currículo como artista gráfico, e
ainda se encontra em atividade. E seus fãs ainda estão se dedicando a tentar
reanimar seu principal personagem, o Rango, na memória das HQ brasileiras. E
eu, o redator desta postagem, tenho orgulho em dizer: conheci esse artista
pessoalmente. Foi na ocasião do 4º Cartucho (Encontro de Cartunistas Gaúchos)
de Santa Maria, RS, em 2007. Ele não apenas foi um dos participantes, como
também foi o homenageado da ocasião.
Edgar
Vasques é um artista que, nos dias de hoje, se tornou uma figura rara – nos
termos artísticos: é um dos raros artistas que preferem fazer os desenhos, as
cores e as letras de suas HQ totalmente a mão, dispensando computadores. Seu
trabalho é reconhecível pelo traço que, apesar das composições econômicas,
consegue passar sensação de tridimensionalidade, graças ao uso extensivo de
hachuras e preto, quando o trabalho é em preto e branco; quando o trabalho é
colorido, ele domina como poucos a arte do aquarelado.
Já
em relação às suas convicções políticas e sociais, que norteiam seu trabalho,
Edgar Vasques não mudou praticamente nada – sua forma de denúncia da miséria e
da desigualdade da sociedade brasileira continuam as mesmas desde os anos 1970.
Bueno:
Edgar Luiz Simch Vasques da Silva nasceu em Porto Alegre, em 1949. É formado em
Arquitetura e Urbanismo pela UFRGS, em 1979, mas nunca exerceu a profissão. Sua
carreira como desenhista começou em 1968, ainda estudante, como chargista de
esportes do jornal Correio do Povo, de
Porto Alegre. E é criador do célebre personagem Rango, que muitos fãs
consideram a melhor representação do brasileiro nos quadrinhos (será)? Passemos
a palavra ao próprio Vasques, que explica a gênese do personagem:
“Quando a gente lança
um personagem, nunca sabe o bicho que vai dar. É como fazer um filho (já dizia
o Henfil): viverá muito ou pouco? Terá sucesso? Será benquisto, ignorado,
execrado? No caso do Rango, o mistério durou pouco. Lançado em 1970, na efêmera
(um único número) revista Grillus da
Faculdade de Arquitetura da UFRGS, conquistou logo um fã-clube no campus e
adjacências. Eu havia posto o dedo na ferida. Por isso, quando, em 1973, o
chargista de esportes da Folha da Manhã, Edgar
Vasques, foi convidado para cobrir as férias do cronista Luis Fernando
Veríssimo, já sabia o que publicar. E assim, aos três anos, o Rango pintava na grande imprensa
diária... Foi ‘golo’, como se diz no Rio Grande. Lançado em livro (1974), pela
recém-fundada L&PM Editores, foi o primeiro personagem de quadrinhos a ser
‘best-seller’ na tradicional Feira do livro de Porto Alegre. E junto com
Veríssimo, Canini, Fraga, Santiago e outros, ajudou a estabelecer um espaço
nacional para o humor do Rio Grande do Sul. Em 1975, a Folha da Manhã, sob pressões internas e externas, dispensou grande
parte de sua equipe que a transformara no mais rápido sucesso jornalístico do
Sul, e mudou sua linha editorial. O Rango
pede demissão e segue sua vocação de desempregado, sem terra, marginal e
biscateiro: sai peregrinando pelo Brasil e pelo mundo. Os leitores de O Estado do Paraná, Correio de Notícias (Curitiba),
O Pasquim, Artes Visuales (México) e Charlie Mensuel (Paris) que o digam...
Hoje, apesar da anistia, o Rango está
exilado da grande imprensa... Só consigo pensar o seguinte: se a ideia foi,
desde o começo, dividir com os outros a perplexidade com a questão da fome (que
segue sendo sempre a primeira questão), abrir a ferida para que ela não
apodreça fechada, eu consegui.” (In: GOIDA e KLEINERT, André. Enciclopédia dos Quadrinhos. Porto
Alegre: L&PM, 2011. P. 485 – 486).
O
miserável personagem, que, enquanto passa fome em um lixão, reflete sobre a
realidade em companhia do filho pequeno, ganhou sete álbuns pela L&PM,
entre 1974 e 1981, em formato pequeno horizontal (13,5 x 21 cm) – atualmente, a
editora os disponibilizou em formato e-book. Uma antologia comemorativa do
personagem foi lançada em 2005, dentro da coleção L&PM Pocket – Rango 35 Anos – acompanhado de uma
exposição na Feira do Livro de Porto Alegre desse ano. E, atualmente, estão
saindo tiras inéditas no jornal Extra
Classe, de Porto Alegre. Rango é
um personagem que permanece atual: surgido no contexto do Regime Militar
Brasileiro (1964 – 1985), era um contraponto ao Milagre Brasileiro, propagado
pelo governo de então – a representação do brasileiro que não pode aproveitar o
crescimento econômico que o país experimentou nos anos 1970. Rango adentrou a
Nova República sempre criticando a miséria, a alienação e a propaganda
governamental. De certa forma, sua realidade não mudou muito. E, até hoje, fãs
de HQs brasileiras defendem o resgate e a valorização de Rango, o personagem
brasileiro por excelência – contra a onda dos super-heróis brasileiros, que
muitos acusam de serem meras cópias dos estrangeiros. Mas, infelizmente, Rango
também é uma vítima da pouca valorização que os próprios brasileiros dão ao
trabalho dos quadrinhistas brasileiros.
Bem:
nem só de Rango, e nem só de crítica social, o trabalho de Edgar Vasques é
feito. Ele também participou de trabalhos que pouco tem a ver com a política, a
economia e coisas relacionadas. Seu primeiro trabalho como ilustrador de livros
veio com Pega pra Kapput (1978),
romance coescrito por Moacyr Scliar, Josué Guimarães e Luis Fernando Veríssimo,
onde Vasques desenha as sequências de HQ que entremeiam a absurda aventura
envolvendo nazismo, judaísmo, ditadura militar brasileira e o testículo único
de Hitler, que veio parar na Porto Alegre dos anos 1970.
Ainda
nos anos 1970, Vasques participa de várias antologias de humor. De livros
coletivos de humor, ele participa de QI14
(1975), Tubarão Parte II (1976), Antologia Brasileira de Humor (1976), Humor de Sete Cabeças (1978), E o Bento Levou... (1985), etc. Nos anos
1990, ele participou de mais obras coletivas: Separatismo, Corta Essa! (L&PM, 1993) e Humores Nunca Dantes Navegados (Secretaria da Cultura RS / Grafar,
2000). Aliás, ele é um dos fundadores da Grafar (Associação de Artistas
Gráficos do Rio Grande do Sul), no fim dos anos 1980.
Solo,
ou em parceria, Vasques publica álbuns pela editora L&PM nos anos 1980,
agora em formato grande vertical (27,5 x 21 cm) – já que ele foi, praticamente,
o co-fundador dessa que é uma das maiores editoras de livros do Brasil, e uma
das que mais ajudou a popularizar os quadrinhos no Brasil, através da coleção
Quadrinhos L&PM, que publicou muito do melhor do quadrinho brasileiro e
mundial. O primeiro álbum pela L&PM foi O
Analista de Bagé (1983), onde Vasques adapta para quadrinhos o personagem
criado nas crônicas de Luis Fernando Veríssimo (que também é quadrinhista,
criador de As Cobras, as Aventuras da
Família Brasil e Ed Mort). Com o
sucesso do álbum, Veríssimo e Vasques desenvolvem O Analista de Bagé em páginas publicadas na revista Playboy, de 1983 a 1990 – as aventuras
do psicanalista gaúcho machão e um tanto bronco, e de sua sensual secretária,
Lindaura, ficam mais picantes nessa revista. Em 2009, um álbum reunindo boa
parte das páginas publicadas na Playboy (As Melhores do Analista de Bagé) sai
pela editora Objetiva.
Pela
L&PM, saem ainda: Abaixo do Cruzeiro
– O Brasil nas Melhores Histórias do Rango (1984), Alô! Nova República? (1986), A
Lei do Cão (E Mais Alguma Coisa) (1988), O Vento Assassino (1987), Coisa
Feia (1989), Tangos & Tragédias
em Quadrinhos (1990; em parceria com Cláudio Levitan, adaptando a célebre
peça teatral dos gaúchos Hique Gomez e Nico Nicolayewski, e reeditado pela
mesma L&PM em 2007); Caras Pintadas (1993)
O Gênio Gabiru (1998) e Sottovoce – A Morte Fala Baixo (1998).
Por
outras editoras, seus trabalhos principais são (considerando apenas
quadrinhos): a participação no livro Histórias
da História de Porto Alegre, com Tabajara Ruas e Liana Timm (Prefeitura de
Porto Alegre, 1995); a adaptação do romance Triste
Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, com roteiro de Flávio Braga,
publicado pela Desiderata em 2010; e este TRAGÉDIA DA RUA DA PRAIA EM
QUADRINHOS, pela Libretos, em 2011 – e, pelo que pudemos apurar, seu trabalho
mais recente.
Participações
em revistas? Ih, é o que ele mais tem. Inclui O Pasquim, Versus, Ovelha Negra, Coojornal, Jornal do Tchê, Mil Perigos
(com o personagem Piru, o Papão das
Mocréia), Mega Quadrinhos, Made HQ
Brasil, DumDum (com a série O Clube),
O Interior (com a série A Família Pilchada)... Seu currículo
ainda inclui as ilustrações de livros, as representações como conferencista,
palestrante e professor de HQ em oficinas em diversas cidades brasileiras, as
representações em eventos de cartunismo no Brasil e no Exterior, exposições
individuais no Brasil, na Itália, na França, na Bélgica e na Argentina...
E,
claro, as premiações. Foram dois prêmios ARI (Associação Riograndense de
Imprensa) de Charge, em Porto Alegre; Prêmio de Cartum “Humor da Biblioteca”,
em Curitiba; Prêmio de Charge Salão Internacional Desenho de Imprensa, em Porto
Alegre, 1992; Prêmio para Iliustração no Salão Internacional de Imprensa, em
Porto Alegre, 1994; Troféu HQ MIX de Melhor Desenhista, em 1998.
E
acho que já deve ser o suficiente para falar a respeito do homem. Se esqueci
alguma coisa, me avisem...
E AGORA, DE VOLTA À CRÔNICA GRÁFICA DO
CRIME...
Bem.
TRAGÉDIA DA RUA DA PRAIA EM QUADRINHOS foi lançada pela editora Libretos, a
mesma que lançou o romance original, com financiamento da Fumproarte, da
Secretaria Municipal da Cultura de POA, e da Prefeitura de Porto Alegre.
Vejam
como são as coisas: em 1911, o crime foi transformado em filme. Em 2005, foi
tema de romance; e, em 2011, o romance foi vertido para quadrinhos. O ser
humano tem fascinação por acontecimentos trágicos, ainda mais quando eles são
vertidos para as mídias visuais.
A
parceria entre Guimaraens e Vasques pareceu muito natural, já que ambos os
autores são portoalegrenses, portanto, conhecem bem a cidade. Não por acaso, Vasques,
depois de TRAGÉDIA DA RUA DA PRAIA, faz ilustrações para outros dois livros de
Guimaraens, Mercado Público – Palácio do
Povo (2012) e Águas do Guaíba (2015).
E
nota-se que Guimaraens e Vasques se esmeraram para reconstituir o Crime da Rua
da Praia com o máximo de fidelidade, valendo-se da pesquisa histórica para
reconstituir os passos dos criminosos – e já que o filme dos irmãos Petrelli é
considerado perdido. O próprio Guimaraens ilustrou o seu romance com uma grande
quantidade de fotos da época; coube a Vasques conferir o devido movimento
através das HQ aos personagens citados, através de caricaturas. Mas, não tendo
todos os personagens as devidas imagens registradas, Vasques teve de criar
fisionomias. Mas os cenários foram os mais fielmente recriados – a documentação
das ruas de Porto Alegre no início do século XX é mais farta.
Bão.
Em 60 páginas, sem contar capa, é reconstituída a Tragédia, com a mesma
narrativa fragmentada em episódios paralelos. Uma ou duas páginas para cada
“núcleo” de fatos que conduzem a narrativa, do ponto inicial – o assalto à casa
de câmbio da Rua da Praia – até o desfecho, com a estreia do film dos Petrelli. O assalto em si,
recortes nas redações dos jornais, os acontecimentos durante a fuga dos
assaltantes, as investigações dos jornalistas Mário Almeida e Mário Cinco Paus,
a desastrada ação de voluntariado do jornalista Carlos Cavaco... culminando com
o tiroteio onde os quatro assaltantes acabam mortos, o cortejo do exército
conduzindo os corpos pelas ruas, os bate-bocas entre os que aprovavam e os que
desaprovavam tais ações... O dinamismo empregado pelo desenhista garante a
ação.
O
romance, no entanto, é mais detalhado – ele explica, inclusive, quem são os
personagens retratados, através de perfis breves. A HQ é mais resumida, não tem
muita contextualização além do que o leitor está vendo – os personagens são
identificados, muitas vezes, através de falas alheias ou, discretamente,
através de placas ou cartazes espalhados pelos cenários. O que pesa mais em
favor da HQ é a arte de Edgar Vasques, que, evidentemente, não abriu mão de
fazer tudo a mão, no seu estilo: os desenhos, a arte-final, as letras dos
balões, tudo no pincel e no nanquim. Quando muitos, atualmente, preferem
colocar as letras dos balões por computador, Vasques preferiu fazer as letras a
mão. E seu traço é cheio de hachuras, e com esmero nos efeitos de luz e sombra,
de modo a conferir um efeito tridimensional aos desenhos, que, mesmo nos
momentos de economia caricatural, ganham mais vida. Nas cenas de flashback, ele
simplesmente suprime as sombras, deixando a linha clara.
O
mais que se pode dizer, então: tanto o romance quanto a HQ complementam um ao
outro. Os dois devem ser lidos juntos. O romance explica mais os
acontecimentos; a HQ ajuda a visualizar as partes confusas do romance. No mais,
é um ótimo pretexto para ver o mestre Edgar Vasques em ação – depois que Rango
foi “interditado”. Deixemos que o tempo diga o que acontecerá dentro de alguns
anos.
E
fazia tempo que eu não falava de autor brasileiro de quadrinhos. Quem sabe com
isso se crie um interesse em procurar a obra de Vasques nos sebos da vida?
PARA ENCERRAR...
...mais
páginas de meu folhetim gráfico, O
Açougueiro, é claro! Já que falamos de Porto Alegre e sua história, esta
história é ambientada em uma Porto Alegre do século XIX... de um universo
paralelo. E deve continuar... vai depender da disposição do autor.
Em
breve, estarei trazendo aos meus 17 leitores mais livros de Rafael Guimaraens,
encontrados por aí. Está criada uma nova geração de escritores tipicamente
portoalegrenses – difícil não ter uma forte relação afetiva com a capital dos
gaúchos.
Até
mais!
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