segunda-feira, 20 de junho de 2011

Laerçon J. Santos, o Sr. Boca Suja

Olá.
Da nova leva de gibis que adquiri da editora Júpiter 2, do sempre persistente José Salles, recebi mais duas muito interessantes – uma delas foi obtida com muita sorte.
Quem costuma estar ligado nos meios alternativos dos quadrinhos brasileiros – comprando fanzines, por exemplo – já deve ter ouvido falar de Laerçon J. Santos, ou simplesmente Laerçon.
Ele é desenhista e escritor marginal, como muitos artistas gráficos do nosso país. Marginal, claro, no bom sentido. Ele é editor, desde o final dos anos 90 do século XX, do zine Boca Suja. Esse zine é uma miscelânea de quadrinhos e textos underground (ou udigrudi, como conhecemos). Foi no Boca Suja onde Laerçon lançou alguns de seus personagens mais conhecidos.

À primeira vista, o trabalho de Laerçon parece abominável, pois é caracterizado pelo traço tosco e mal-comportado e pelos textos repletos de palavrões e má educação; no entanto, após uma leitura mais atenta, percebemos que o traço de Laerçon é cheio de vida, com muitas expressões e movimentos, apesar dos bonequinhos “palito”, e seus textos, antes do palavreado chulo, são caracterizados pela franqueza, pela necessidade de dizer as coisas na hora certa (e como realmente queremos dizer) e pela crítica à sociedade e à própria humanidade. E, por isso, são geniais.
Mas nem só de palavrões se caracterizam os textos de Laerçon. Também podemos encontrar textos mais “comportados”, alguns trazendo mensagens de otimismo e cristãs.
Bem. Mas quem são os personagens de Laerçon?
São eles: Carta para Afras, uma dupla de amigos que andam pela cidade conversando sobre a vida (esses personagens são baseados no próprio Laerçon e em um amigo chamado Afras, com quem ele costumava se corresponder); O Pato de Botas, um pato (chamado Fagundes) desbocado e, como já diz o nome, que usa botas (!!!); The Paraibanos do Subúrbio, um grupo de punks desbocados e inconformados com a sociedade hipócrita de nossos dias; Zé Boy, o mauricinho e defensor da ecologia que divide a cena tanto com Afras quanto com os Paraibanos; e Nomys, o personagem filosófico do autor, um ser feito de quadrados (difícil dizer se ele é humano ou não) que reflete sobre a vida.
Bem. José Salles, da Júpiter 2, atualmente vem dirigindo ácidas críticas às mídias udigrudi, principalmente classificando como “nefasta” a influência exercida pela revista Chiclete com Banana. Talvez não sem razão, porque a Chiclete, editada nos anos 80 pelo popstar Angeli, fazia apologia ao consumo de drogas, ao sexo escabroso e à violência. Mesmo assim, muitos artistas admiram a revista, e seguem essa linha anárquica para criticar a sociedade, fazendo o uso do sexo e das drogas para enfrentar as imposições do mercado.
No entanto, o trabalho de Laerçon, mesmo calcado nos princípios do udigrudi, só faz uso dos palavrões e da violência. Assim, a editora Júpiter 2, que atualmente segue a linha das publicações “úteis à sociedade”, lançou duas revistas com seus personagens.
A primeira, The Paraibanos do Subúrbio Comix, foi lançada em 2005. Nela, vemos quadrinhos dos próprios e também do Pato de Botas e de Carta para Afras. Todas as HQ foram publicadas no Boca Suja, e trazem o estilo tosco, franco e cheio de palavrões do autor. Tirinhas, pequenas historinhas de meia página, histórias de uma e de duas páginas. Nelas, os Paraibanos vivem situações malucas, entre elas tentar conquistar garotas muito bravas, ataques de bichos esquisitos com forma de pênis humano, uma discussão com um louco (e sua irmã gostosa), participação em um protesto a favor da ecologia, liderado por Zé Boy, e até um diálogo com o diabo. Já o Pato de Botas se mete, com seu amigo, em encrencas em temporada de caça, brigas por causa de ofensas pessoais e discute com uma tartaruga chamada Rubinho Barrichello. E as revista com a participação especial da Mônica (a do Maurício de Souza) numa versão tosca, violenta e desbocada!
Nomys e Outros Tipos, lançada agora em 2011, traz o personagem filosófico em mensagens cristãs e gags visuais divertidas. Alguns textos do Nomys são de Cecília Fidelli, poetisa e fanzineira. Nesta edição também conferimos algumas histórias de Pato de Botas e Carta Para Afras, desta vez sem os palavrões – mas sem deixar de serem divertidas. O Pato de Botas, por exemplo, conversa com seres inanimados como uma bomba, um crânio e uma gaita de boca. E Afras discute com a tecnologia e com a busca de trabalho. Nada mau!
Talvez o trabalho de Laerçon seja o que falta a muitos artistas daqui: espontâneos e dizendo as coisas na hora certa. Conheça mais do trabalho dele (e leiam mais de suas historinhas malucas) em: www.blogdolaercon.blogspot.com/.
Já na parte dos gibis, The Paraibanos do Subúrbio Comix já está esgotada, por isso já não dá mais para adquirir (tive sorte de conseguir a última com o José Salles!), mas Nomys, por ser um lançamento recente, pode ser adquirida, ao preço de R$ 3,00, através do e-mail: smeditora@yahoo.com.br. Conheçam esse e outros lançamentos da editora em: http://jupiter2hq.blogspot.com/.
Para encerrar, uma ilustração especial: apenas um comparativo entre meus personagens, Os dois, e os de Carta para Afras. Constatem que Os Dois não são muito diferentes deles. Na verdade, criei Os Dois bem antes de conhecer Carta para Afras, que apareceram nos anos 90 do século XX. Plágio involuntário? Não acredito nisso.
Até mais!

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