sábado, 5 de setembro de 2009

Livro: TOMATES VERDES FRITOS

Olá.
Faz algum tempo que não falo de livros aqui no blog. Pois hoje eu volto trazendo uma belíssima obra.
Todos vocês já devem ter ouvido falar do filme Tomates Verdes Fritos, dirigido em 1991 por Jon Avnet. Um drama muito sensível e delicioso. Pois recentemente vi as duas mídias: o filme e o livro no qual o filme se baseia, escrito por Fannie Flagg em 1987. No Brasil, o livro foi publicado pela editora Globo. Aliás, o nome completo do livro é TOMATES VERDES FRITOS NO CAFÉ DA PARADA DO APITO.
Bem, não pretendo aqui discutir as diferenças existentes entre o filme e o livro, que são muitas, mas de um certo modo perdoáveis - ambas as mídias, a seu modo, são belíssimas. O filme ainda mantém a essência do livro, que é um entremeado de histórias ligados por um núcleo comum.
O cenário da história é o estado do Alabama, nos EUA. No início do século XX, a moral vigente era bem diferente da de hoje, e o preconceito racial era muito forte - os negros, numa escala de valores humanos, eram colocados como animais.
A narrativa não-linear concentra-se em duas épocas: o início do século XX até os anos 60, e os anos 80. É nos anos 80 que conhecemos Evelyn Couch, uma frustrada e desajustada dona-de-casa americana, em crise depressiva. Um dia, ao visitar com seu marido uma parenta em um asilo, Evelyn conhece a simpática Ninny Threadgoode, que mal conhece a dona-de-casa, já começa a contar sua história de vida. E ela, numa verdadeira cadeia de histórias, vai tecendo um rico panorama dos EUA no início do século XX. Diversos personagens desfilam na narrativa. Mas a história concentra-se em duas personagens da época: Idgie, a rebelde parenta de Ninny, e a doce Ruth Jaminson. Ambas viveram na pequena comunidade de Parada do Apito, próxima a Birmingham, Alabama, então em franco desenvolvimento por causa da atividade ferroviária.
Idgie, que desde pequena fazia o que lhe dava na telha e não levava desaforo para casa (e inclusive se misturava com tipos não recomendáveis para a sociedade da época, como vagabundos, boêmios e negros), havia perdido o irmão favorito, Buddy, em um acidente de trem. Ela aprendeu a superar a dor da perda quando Ruth entrou em sua vida. As duas praticamente se apaixonam uma pela outra. Porém, Ruth teve de largar Idgie e a Parada do Apito para casar-se e mudar-se para a Geórgia - o pior erro de sua vida, pois o marido, Frank Bennett, revela-se um covarde, que agredia a esposa.
Pois Ruth só toma coragem de fugir do marido após a morte da mãe. E Idgie, cuja afeição por Ruth nunca esmoreceu apesar da distância e da decisão impensada, é quem vai buscá-la. As duas, retornando a Parada do Apito, abrem um restaurante, que logo torna-se o principal point do vilarejo. A atração principal do local, logicamente, são os tais tomates verdes fritos, e outros pratos elaborados pelos cozinheiros negros Sipsey e Big George.
As duas linhas temporais cruzam-se entre si. Evelyn, Ninny, Idgie e Ruth são mulheres que buscam, em suas épocas, seu lugar no mundo. Que vão descobrindo uma nova maneira de viver apesar das imposições. Os encontros entre Evelyn e Ninny vão se revelando benéficos: enquanto Ninny recupera sua memória e seu passado, Evelyn vai descobrindo uma nova razão de viver e uma válvula de escape para sua vida medíocre e até então perdida.
Já a vida de Idgie e Ruth continua: Ruth tem um filho, Toco, que perde um dos braços no acidente de trem. No entanto, Idgie nunca deixa que alguém fique de baixo astral na Parada do Apito, e ajuda qualquer pessoa, seja ela negra ou branca, seja o filho de Ruth (que aprende com Idgie a sublimar a sua deficiência, tornando-se um grande esportista e atirador), sejam os filhos de Big George (como o episódio em que Idgie traz um elefante do zoológico de Birmingham para Parada do Apito para alegrar Passarinho Sapeca, a filha de Sipsey).
No entanto, Idgie se mete em encreca quando Frank Bennett, que retorna a Parada do Apito para reaver o filho, desaparece, e ela torna-se a principal suspeita de um possível assassinato.
Enquanto isso, o café acompanha o apogeu e a decadência do vilarejo, que segue o desenvolvimento e a queda da importância das ferrovias americanas.
Outros personagens que aparecem com muita importância na narrativa são o vagabundo Smokey e os familiares de Big George, os filhos Passarinho Sapeca e Artis.
Flagg constrói seu painel humano em capítulos curtos, que entremeiam o dia-a-dia de Evelyn, seus encontros com Ninny no asilo Rose Terrace, os acontecimentos da vida de Ruth e Idgie e notícias de jornal, com destaque para a folha de amenidades O Semanário Weems, editado na Parada do Apito por Dot Weems.
Existe no livro uma insinuação ao lesbianismo que foi sublimado pelo filme, através de Idgie e Ruth. Mas o que mais vale a pena, no livro, além das várias histórias entrelaçadas, são os trechos que tratam do preconceito racial. Desde os ataques da Ku-Klux-Klan até as referências a produtos para "embranquecer" os negros. Essas partes são as mais interessantes do ponto de vista sociológico.
Aliás, Flagg usa muito referências a marcas quando vai colocar um determinado produto na trama - marcas de doces, sorvetes,produtos de beleza, mercados... E também pesa contra o livro a visão americanizada da vida. Mas nada que impeça que o livro seja apreciado. Ah, sim: no final, a autora ainda fornece as receitas originais que Sipsey preparava no Café: os biscoitinhos de manteiga, o frango frito, as tortas de coco e nozes e os tomates verdes fritos. Aliás, vou ver se um dia experimento essa receita... afinal, parece bem simples. O problema acho que é encontrar os tais tomates verdes...
Aliás, quer uma dica? Assista ao filme antes de ler o livro. É desse modo que você entenderá melhor as várias histórias - ainda mais se você não estiver acostumado a narrativas não-lineares.
Bem, TOMATES VERDES FRITOS mostra porque esse prato virou, segundo as palavras dos editores, "um prato obrigatório no banquete da sensibilidade". E não é um livro destinado apenas às mulheres: homens, não sejam vocês mesmos uns Franks Bennetts, vocês podem apreciar TOMATES VERDES FRITOS!
É um retrato de um tempo que já se foi, para melhor e para pior. Para melhor, já que as convenções sociais são outras, as mulheres usufruem de mais liberdade e o preconceito racial é condenável; e para pior, pois hoje há menos contato entre as pessoas, a vida tomou rumos severos com a modernização, e hoje o cardápio do Café não é considerado saudável para os olhos dos nutricionistas...
Bem. Era isso.
Para encerrar, Letícia.
Até mais!

2 comentários:

Fernando disse...

Eu não li o livro, mas assisti a esse filme nos idos dos anos 90. Na época, que eu nem gostava tanto de histórias desse tipo, consegui gostar do filme.

Ana Luíza disse...

Muito boa crítica! Gostei do filme e quero ler o livro. Sabe onde posso encontrar? Beijos, Ana

anaturalista@gmail.com