Olá.
Hoje, no dia em que ocorre mais uma entrega do Prêmio Ângelo Agostini, continuamos nossa série especial sobre os 25 maiores momentos da História dos Quadrinhos Nacionais, elegidos por mim.
Vale lembrar que a elaboração desta cronologia se baseia em opiniões pessoais, embasadas em ampla pesquisa. Os leitores não tem obrigação de concordar com os fatos aqui expostos. Qualquer opinião a respeito, escrevam um e-mail ou comentário, daí podemos debater.
Bem. Aqui vão os fatos 11, 12, 13, 14 e 15. Lembrando que os 25 fatos elegidos seguem a ordem cronológica.
11 – A aparição da editora Continental / Outubro / Taika (1959)



O mineiro Ziraldo Alves Pinto (1932 -) possui, até hoje, uma sólida carreira como cartunista, quadrinhista, escritor de livros infantis e artista multimídia. Já publicou desenhos e livros para crianças e adultos. Difícil determinar qual dos personagens que ele criou é o mais marcante – Pererê, Supermãe, Menino Maluquinho, Mineirinho o comequieto, Jeremias, O Bom. Mas dá pra se dizer que o primeiro grande marco de sua carreira como quadrinhista – portanto, a escolha para este trabalho – foi quando, em 1960, apareceu, pela editora O Cruzeiro, o gibi do personagem Pererê. Através de um rico elenco de personagens tipicamente brasileiros – Pererê, o saci, o índio Tininim, a onça Galileu, o macaco Alan, o coelho Geraldinho, o jabuti Moacir, o tatu Pedro Vieira e muitos outros que compõem o microcosmo da Mata do Fundão – Ziraldo criou uma série que, mais que um gibi infantil, é uma profunda reflexão sobre o Brasil da era populista. Mas, infelizmente, o nível excessivo de “intelectualização” das tramas do Pererê, combinada à inocência e o regionalismo das tramas, bem como o olhar atento da censura federal, foi responsável pelo pouco sucesso que o gibi obteve. O gibi do personagem voltaria a ser editado nos anos 90, pela editora Abril – que também editou o gibi do Menino Maluquinho. Depois do Pererê, que inclusive ganhou duas séries de TV com atores, viriam os outros personagens já citados: o Jeremias, o Bom (1965), a Supermãe (1969), o Mineirinho (1977) e o seu carro-chefe, o Menino Maluquinho, saído do livro infantil lançado em 1980 para os gibis, em 1989. E a carreira de Ziraldo ainda inclui os muitos livros infantis, a colaboração no Pasquim, a criação da revista Bundas...
13 – A aparição da “Mônica” de Maurício de Souza (1963)
A carreira de quadrinhista do ex-repórter policial Maurício de Souza (1935 -) começou com o cachorrinho Bidu, criado em 1959 para o jornal Folha da Manhã (atual Folha de São Paulo). Mais tarde, ele criaria mais personagens: o menino-cientista Franjinha e o menino trocaletras Cebolinha seriam os mais proeminentes, até que, em 1963, ao perceber que suas tiras de quadrinhos não tinham meninas no elenco, após ser chamado de “misógino” por um leitor, ele resolveu criar uma, à imagem de sua filha. Desse modo, apareceu a Mônica, a menina mais forte do mundo. E essa menina, mais os personagens anteriormente criados, seriam os responsáveis pelo maior sucesso editorial dos quadrinhos nacionais – ampliado quando a Mônica ganhou um gibi próprio, em 1970, pela editora Abril. Apareceriam mais personagens para enriquecer o universo da menina, como Cascão, Magali (também inspirada numa outra filha de Maurício), Chico Bento, Jotalhão e a Turma da Mata, Papa-Capim, Piteco, Horácio (único personagem desenhado até hoje pelo próprio Maurício), Astronauta, Penadinho, Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho (esses dois inspirados nos dois célebres jogadores de futebol – o primeiro apareceu em 1976, e o segundo em 2006), Tina e Rolo e muitos outros. Graças ao grande sucesso nos quadrinhos, aos rendimentos com o merchandising (inclusive com os desenhos animados) e ao uso dos personagens em campanhas educativas, o elenco de personagens de Maurício de Souza garantiu ao autor ser o único artista brasileiro a viver exclusivamente de quadrinhos e ter conseguido atravessar, intacto, às crises econômicas dos anos 80 e 90, com todo o vigor – o sucesso perdura até hoje, e ainda mais quando, em 2006, os personagens viraram adolescentes, tornando a Turma da Mônica Jovem, desenhado em estilo mangá, o gibi mais vendido da América Latina, superando as cifras de vendas dos gibis de super-heróis – só as quatro primeiras edições desse novo gibi venderam 1,5 milhão de exemplares.
14 – A aparição do fanzine “Ficção” (1965)

Em 1966, aparece a editora Edrel, que, assim como a Continental / Outubro, apostava em material produzido no Brasil. Mas com uma diferença marcante: os artistas eram basicamente influenciados pelo estilo mangá, então pouco conhecido no Brasil. O público leitor de mangás japoneses, nos anos 60, estava restrito aos descendentes de japoneses, e a Edrel, editora fundada por Minami Keizi (1945 – 2009), em parceria com Salvador Bentivegna (1922 – 1987) e Jinki Yamamoto, e localizada na rua Tamandaré, 150, bairro da Liberdade, São Paulo, promovia este estilo no Brasil, que por muito tempo chegou a ser marginalizado (os fãs de mangá chegavam a ser chamados de “bando de malucos que gostam daqueles desenhos de olhos grandes”), mas fazia sucesso graças às séries e aos desenhos animados importados do Japão que passavam na televisão. O mais ativo artista da Edrel foi Cláudio Seto (Chuji Seto Takeguma, 1944 – 2008), reconhecido como um dos primeiros desenhistas em estilo mangá do Brasil – ele foi discípulo do artista japonês Sampei Shirato, criador de A Lenda de Kamui. O primeiro gibi da Edrel foi o Álbum Encantado, uma coletânea de contos infantis escritas por Keizi e ilustradas por Fabiano Dias, lançadas em 1966 pela editora Bentivegna (pois a Edrel não havia sido registrada). Depois, vieram as revistas O Ídolo Juvenil, os gibis produzidos por Seto, como os infantis Ninja, e Flavo, o épico Samurai e o erótico Maria Erótica, e os gibis dos heróis Pabeyma, de Nelson Cunha e Paulo Fukue, e Fikom, de Fernando Ikoma. A editora, apesar dos expressivos números de vendas (500 mil exemplares por mês em seus primeiros tempos), fechou em 1975, por conta da censura federal que implicava com os gibis de terror e policiais da Editora. A editora, por causa disso, e por causa das limitações da época, não conseguiu realizar o seu plano de trazer ao Brasil mangás japoneses traduzidos, antes mesmo que os Estados Unidos o fizessem; mesmo assim, a editora Edrel abriu caminho para a aparição dos “mangás brasileiros”, cuja produção seria expressiva entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2000, entre gibis independentes e os que conseguiram chegar às bancas. Além de Seto, o desenhista brasileiro mais identificado com o estilo mangá, entre os anos de 60 a 90, foi Júlio Shimamoto (1939 -), que desenvolveu seu estilo baseado nos mangás adultos, ou gekigá, em gibis de terror, histórias de samurais e publicações de temática brasileira (Shimamoto foi o primeiro artista a produzir e publicar uma história de samurais fora do Japão: O Fantasma do Rincão Maldito, na revista Histórias Macabras no. 19, da editora Outubro).
Na próxima postagem da série, os fatos 16, 17, 18, 19 e 20.
Como ilustrações minhas, deixei apenas imagens já publicadas da Welta e do Escorpião. As outras imagens são da internet.
É isso aí, por enquanto.
Até mais!
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