Olá.
Hoje,
vamos colocar um pouco de cultura no nosso dia-a-dia. Vamos parar uns quinze
minutinhos para falarmos de literatura brasileira e gaúcha.
Hoje,
vou falar de livro, que fala a respeito de uma das entidades que mais fez pela
literatura do Rio Grande do Sul em pouco menos de 200 anos, desde que o Brasil
se firmou como nação, a partir de 1822. Talvez você nunca tenha ouvido falar
nessa entidade, e na sua atuação – muito embora ela ainda exista, nos dias de
hoje. Existiu por cerca de vinte anos, e, mais de um século depois, foi
reativada.
Hoje,
então, vocês tomarão conhecimento a respeito do Parthenon Litterário de Porto
Alegre, RS. Através de um dos mais completos trabalhos a respeito dessa
entidade: o livro A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, de Benedito Saldanha.
A
MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO foi publicado em 2003, pela editora Alcance, de
Porto Alegre. E foi o livro de estreia do escritor, poeta e pesquisador
Benedito Melgarejo Saldanha, atualmente integrante do Parthenon Litterário. Mas
sua atuação como escritor vem desde antes. O problema é que muitas informações
a respeito do escritor, disponíveis na internet, estão desatualizadas e
incompletas, e seu website oficial está desativado. Vamos tentar traçar um
perfil com o que pudemos achar.
Natural
de Triunfo, RS (não consegui descobrir seu ano de nascimento), Saldanha já
trabalhou como funcionário público no Departamento Municipal de Água e Esgoto
de Porto Alegre, na Secretaria da Saúde do Estado e organizador de campanhas
comunitárias em Viamão. Pelo que consta, ele ainda tira seu sustento do
funcionalismo, e em Porto Alegre, onde reside atualmente, mas nunca deixou de
lado o ativismo cultural. Ah: ele já concorreu à vereador nas eleições
municipais de 2012.
Em
1999, ele editou o jornal Gotas de
Cultura, de divulgação literária. Mais tarde, criou o jornal trimestral Revolução Cultural, e é coordenador do
Sarau com Ritmo, atividade de promoção cultural apresentada mensalmente na Casa
de Cultura Mário Quintana, de Porto Alegre. Também já presidiu (não sei se
ainda preside) a Academia de Letras e Artes de Porto Alegre, e integra, ainda,
o Parthenon Litterário de Porto Alegre.
Após
A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, Saldanha publicou diversos outros livros,
dentre os quais: Apolinário Porto Alegre,
a vida trágica de um mito da província (editora Nova Prova, 2008); Lobo da Costa, um bardo rio-grandense (editora
do autor, 2009); Álvares de Azevedo de
Bolso (Revolução Cultural, 2011); Luciana
de Abreu (Sdijuc, 2013); Grandes
Momentos do Rádio Gaúcho (em dois volumes: o primeiro saiu em 2013, e o
segundo em 2014, ambos pela editora Revolução Cultural); e o romance Laços Eternos (Editora do Parthenon Litterário,
2016).
APRESENTAMOS A SOCIEDADE DO PARTHENON
O
trabalho, altamente didático, de Benedito Saldanha, se propõe a resgatar a
história do Parthenon Litterário (assim mesmo, com dois “t”), a primeira grande
sociedade de poetas e escritores do Rio Grande do Sul, e que muito fez pela promoção
da cultura dentro da então Província (a primeira sociedade do Parthenon
Litterário apareceu no século XIX). Para se ter uma ideia da importância que
essa sociedade teve, basta dizer que ela não apenas promovia importantes poetas
e escritores da Porto Alegre do século XIX, não apenas editava uma importante
revista mensal de divulgação, e não apenas promovia saraus literários muito
concorridos, onde se promoviam bailes, palestras, recitais de poesia e de
música e representações teatrais; os membros do Parthenon Litterário também
estiveram envolvidos em causas muito importantes, como o apoio à emancipação
feminina da época, a defesa da abolição da escravatura e da proclamação da
República, a promoção do ensino público, através de aulas noturnas gratuitas, abertas
à toda a população, e também as primeiras iniciativas, dentro do Rio Grande do
Sul, de promover, na literatura, o regionalismo e o resgate da cultura pastoril
riograndense.
Bueno.
O primeiro Parthenon Litterário existiu de 1868 a 1886, perfazendo quase vinte
anos de atuação. A sociedade foi reativada pouco mais de um século depois, em
1997, praticamente continuando o trabalho dos pioneiros do século XIX. De tão
importante que essa sociedade foi, um dos bairros da grande Porto Alegre, hoje,
se chama, justamente, Parthenon.
Hoje,
os membros do Parthenon Litterário original são pouco lembrados por estudiosos
de literatura e leitores contemporâneos, mesmo os apreciadores de poesia do
século XIX – e não é por falta de tentativa de resgatar suas memórias. As
edições da Revista Mensal, que o
Parthenon editava, e que servia como principal veículo de divulgação dos
membros da entidade, estão bem conservadas em arquivos públicos, mas não são
muitos que procuram-nas para leitura e consulta. Também os livros publicados de
membros como Apolinário Porto Alegre, Lobo da Costa, Múcio Teixeira e outros,
são difíceis de achar, mesmo publicados em edições contemporâneas por editoras
entusiastas em resgate de material antigo. Para se ter uma ideia, o romance A Divina Pastora, escrito por um dos
membros do Parthenon, Caldre e Fião, e publicado em 1847, esteve por muito
tempo desaparecido, e praticamente se tornado uma lenda, até um exemplar ser
achado, em tempos recentes, em Montevidéu, por um bibliófilo de Pelotas; mais
tarde, o livro foi adquirido pelo grupo RBS e republicado em edição da L&PM
editores.
Bom,
sem mais desvios de assunto: o Parthenon Litterário foi fundado, oficialmente,
no dia 18 de junho de 1868, e, mesmo sendo uma tarde chuvosa, a solenidade
reuniu uma considerável quantidade de autoridades e espectadores no salão da
Sociedade Musical Firmeza e Esperança, uma de suas primeiras sedes provisórias.
E, até o seu encerramento, o Parthenon Litterário agitou a sociedade da
provinciana Porto-Alegre de então, ainda uma cidade que mal recebera a
iluminação pública a gás (e que não atingia todos os bairros) e mantinha
escravos negros (a cidade só declarou extinta a escravidão em 7 de setembro de
1884, cerca de quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea de 1888), mas já
tinha um edifício arranha-céu, o primeiro dos muitos que surgiriam depois. E,
na época, ainda corria a Guerra do Paraguai (iniciada no ano anterior e que
terminaria apenas em 1870).
Os
membros fundadores do Parthenon Litterário contavam idades entre 21 e 32 anos,
sendo, portanto, jovens – a exceção era o escritor veterano José Antônio do
Vale Caldre e Fião, que contava quase 50 anos em 1868. Caldre e Fião, que tinha
prestígio desde 1847, quando publicou seu já citado romance A Divina Pastora, a primeira novela
sul-riograndense, era membro ativo e foi presidente de honra da associação. Dos
cerca de 138 membros que fizeram parte da associação, incluindo os que
colaboravam à distância, além de Caldre e Fião, se destacaram: Apolinário Porto
Alegre, seu mais ativo membro, e seu irmão Aquiles Porto Alegre; Lobo da Costa;
Hilário Ribeiro; Múcio Teixeira; Damasceno Vieira; Eudoro Berlink; Afonso
Marques; José Bernardino dos Santos; Aurélio Veríssimo de Bittencourt; e também
mulheres, como Luciana de Abreu, matrona do feminismo sul-riograndense, e
Amália Figueiroa.
Dentre
as muitas realizações do Parthenon Litterário, destacam-se: a fundação da já
citada Revista Mensal, que circulou
por dez anos, de março de 1869 a setembro de 1879, com hiatos entre edições
(perfazendo quatro fases de publicação), porém divulgando, entusiasticamente,
poesias, contos, romances de folhetim, peças teatrais e teses para discussão; a
promoção de saraus literários muito concorridos, onde haviam bailes, peças
teatrais, recital de poesias e discussões acadêmicas; a promoção de campanhas
em prol da abolição da escravatura, inclusive arrecadando fundos e promovendo
festas para a libertação de crianças filhas de escravos; a promoção de aulas
noturnas gratuitas para a população de todas as classes sociais, iniciativa
que, apesar de louvável, no sentido da universalização da educação, custava
muito aos fundos da entidade; a construção de uma biblioteca e de um museu,
cujos acervos, hoje, estão perdidos; e discussões a respeito da situação da
mulher da época, buscando, inclusive, atribuir às mesmas papeis diversos ao do
tradicional “dona de casa”, submissa ao marido (nesse propósito, a professora e
poetisa Luciana de Abreu foi o maior destaque).
Mas
a sociedade também teve suas frustrações – a maior delas foi a de nunca ter
conseguido construir sua própria sede. O Parthenon Litterário teve três sedes
para reunião, todos prédios emprestados; apesar do empenho dos membros e do
prestígio junto à sociedade porto-alegrense, o Parthenon Litterário nunca
conseguiu juntar fundos para a construção da sede, que se pretendia
assemelhar-se ao Parthenon de Atenas, na Grécia (símbolo da alta cultura de
várias épocas). As aulas noturnas e a publicação da Revista Mensal consumiam mais da metade dos fundos que a sociedade
conseguia arrecadar.
Quanto
ao estilo cultivado pelos escritores membros, em seus poemas e prosas,
predominava o Romantismo – porém, o estilo literário já caíra de moda no
restante do país. O Parthenon Litterário foi o último reduto do Romantismo
literário no Brasil. Muitos escritores preferiam a estética urbana, mas, ainda
assim, foram pioneiros na literatura regionalista gaúcha, ao fazerem poemas e
prosas tematizando a sociedade pastoril, o homem do campo da então Província do
Rio Grande de São Pedro (muito embora os autores, evidentemente, nunca tenham
ido à zona rural testemunhar a atividade pastoril in loco, e se valiam mais de
especulações sobre) – movimento que teria força maior a partir da segunda
metade do século XX, com o movimento tradicionalista gaúcho.
O
grupo também teve conflitos internos. Foram muitos os casos de dissidências, e
não havia consenso entre os membros quanto à política – muitos membros apoiavam
o movimento republicano, visando a derrubada da monarquia; outros apoiavam a
manutenção de Pedro II no poder. Vários membros saíram do grupo e fundaram suas
próprias agremiações literárias, com revistas próprias e tudo mais.
O
Parthenon Litterário foi decaindo gradativamente. Foi encerrando suas
atividades aos poucos: as aulas noturnas, os saraus, a Revista Mensal; até a
dissolução completa. Suas últimas atividades foram registradas entre o final de
1885 e o início de 1886. Foram quase vinte anos marcantes na sociedade gaúcha.
Como
já dito, o Parthenon Litterário foi reativado mais de um século depois: a
refundação ocorreu em 19 de julho de 1997 (mas será que está correto continuar escrevendo o nome com dois "t"?). E, pelo que pudemos apurar, a
sociedade ainda está em funcionamento, com atividades culturais ricas, porém
sem grande alarde na imprensa. Eles tem um blog próprio, ainda ativo, mas suas
atualizações não são constantes: http://partenonliterario.blogspot.com.br/.
DO LIVRO
A
MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO, de Benedito Saldanha, praticamente foi a
porta do ingresso do escritor e pesquisador no novo Parthenon Litterário. O
trabalho, no entanto, não foi escrito para tal intento, pelo que se pode notar.
Há um tom de elogio às atividades do antigo Parthenon Litterário, mas sem
bajulações. Na realidade, o livro foi escrito em tom acadêmico, como um
trabalho de conclusão de curso, mas visando o grande público, por isso foi
escrito em linguagem acessível.
Saldanha
fez um estudo exemplar da atuação do Parthenon Litterário no século XIX – o
livro é dividido em duas partes. Na primeira parte, a análise de todas as
atividades do Parthenon Litterário é dividida em capítulos, cada um abordando
uma determinada área de atuação da entidade. A sessão inaugural; o contexto
histórico (como era a Porto Alegre da época, porém, sem abordar os folclóricos
acontecimentos de anos anteriores, como os crimes da Rua do Arvoredo – ou o
“caso da linguiça humana” – de 1863 e 1864, e as “estripulias” do “teatrólogo”
Qorpo-Santo, entre 1864 e 1870); a definição do Parthenon Litterário, como um
todo; sua diretoria; a sua produção literária – cada capítulo dedicado: ao
cultivo do romantismo literário, ao regionalismo, ao teatro produzido e às
teses; a biblioteca, o museu, a Revista Mensal; as suas atividades, como as sessões
ordinárias, os aniversários de fundação, os saraus e as aulas noturnas; as
causas pelas quais se envolveram, como a importância da mulher e o
abolicionismo, bem como as posições dos membros quanto ao movimento
republicano; a frustrada procura por uma sede só sua; as dissidências e, por
fim, como se deu o término da sociedade. Todos os capítulos enriquecidos com
amostras de poemas e de textos em prosa ilustrativos de cada membro da
sociedade, bem como trechos de notícias de jornais da época com relatos das
atividades do Parthenon Litterário. Mas as ilustrações, propriamente ditas, são
raras, apenas retratos de alguns membros da sociedade.
A
segunda parte do livro é dedicada aos Heróis do Parthenon Litterário – breve
biografia, relação das principais obras e uma amostra, de poemas ou de prosa,
dos principais e mais atuantes membros da sociedade. Foram escolhidos: Afonso
Marques, Amália Figueiroa, Aquiles Porto Alegre, Augusto Totta, Bernardo
Taveira Júnior, Eudoro Berlink, Lobo da Costa, Hilário Ribeiro, Damasceno
Vieira, José Bernardo dos Santos, Aurélio Veríssimo de Bittencourt, Luciana de
Abreu, Apolinário Porto Alegre, Caldre e Fião e Múcio Teixeira.
Não
por acaso que Benedito Saldanha, posteriormente, dedicou três livros a três dos
membros da sociedade: Apolinário Porto Alegre, Lobo da Costa e Luciana de
Abreu.
Inclui
textos de orelha de Luiz de Miranda e Nelson Fachinelli.
A
leitura de A MOCIDADE DO PARTHENON LITTERÁRIO praticamente retrata uma sociedade
que já foi culturalmente mais rica: a do século XIX, época de altíssimo
analfabetismo e sem as facilidades tecnológicas de hoje, para a divulgação de
livros e obras literárias, mas onde os escritores faziam o que podiam para
ganhar algum reconhecimento. Época em que um escritor podia sentir que não nascera
para ser apenas “mais um” em uma verdadeira enxurrada de livros lançada
anualmente. Época em que a leitura era uma forma saudável de lazer, unicamente
em impressos em papel, que só cansavam os olhos quando a luminosidade da sala
era insuficiente. Estão me entendendo?
Bem.
Por onde andará Benedito Saldanha no momento em que escrevo? Ele vai ler esta
postagem? Não sei... Afinal, eu sou apenas “mais um” na internet, se metendo a
escritor e resenhista, sem um livro publicado além de participações esparsas em
antologias de textos e desenhos, e praticamente pensando como se estivesse no
século XIX... em termos culturais, é claro. Rafael Grasel... quem você pensa
que é?!
PARA ENCERRAR...
...ainda
com a cabeça no século XIX, mas praticamente criando um século XIX alternativo
para Porto Alegre, continuo com O
Açougueiro, minha HQ folhetinesca, publicada às pílulas toda vez que
resenho livros, filmes e quadrinhos de temática eminentemente cultural. E ainda
sem saber como terminar, enquanto lido com muitas coisas ao mesmo tempo... E introduzindo cada vez mais personagens na trama...
E
tenho certeza que não sou muito bom com poemas. Será que os versos criados para
esta história ficaram bons? Eles servem ao propósito da história? Onde está o
feedback, dizendo se devo continuar ou não?
Aguardem
novidades para os próximos dias. De minha parte, meus 17 leitores não haverão
de ficar na mão – mesmo que eles não manifestem sua opinião.
Até
mais!
Um comentário:
Obrigado, lhe agradeço sensibilizado por divulgar meu primeiro livro hoje já tenho 10.
abraço Amigo e tudo de bom na tua carreira e parabéns teu blog é muito bem feito e com muitas informações preciosas.
Benedito Saldanha
https://www.facebook.com/benedito.saldanha
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