Hoje, continuando a 2a. edição de minha História das Histórias em Quadrinhos, a versão revista e ampliada de meu trabalho mais monumental, eis aqui a 3a. parte - as décadas de 50 e 60.
DÉCADA DE 50
Na Europa, a crise nas HQ estava praticamente superada, mas, nos EUA, a indústria é paralisada por conta da rigorosa censura do período macarthista (1950 – 1954) e pela perseguição aos comics, que são acusados inclusive de incitar a delinqüência juvenil. As HQ mais perseguidas pela “cruzada antiquadrinhos” foram as de super-heróis, de crime e de terror. A partir de 1954, com o estabelecimento do Código de Ética dos Comics, por conta da rigorosa censura, muitos editores acabam indo à falência, desenhistas ficam desempregados, títulos são cancelados, inclusive os de muitos super-heróis; poucos são os que resistem, e foram aqueles que já eram sucesso consolidado há tempos, como o Batman e o Superman. Representantes do período:
• 1949 – Nos EUA, Big Ben Bolt, de Elliott Caplin (irmão de Al Capp) e John Cullen Murphy; No Chile, Condorito, de Pepo (René Rios);• 1950 – Nos EUA, Peanuts (Minduim), de Charles Schulz, o “Freud dos Comics” (nessa tira, surgem os célebres personagens Charlie Brown e Snoopy. De um início pouco promissor, em apenas sete jornais no primeiro ano, Schulz acaba se tornando o cartunista mais bem pago do século XX); Beetle Bayley (Recruta Zero), de Mort Walker (no início uma tira sobre a vida na universidade, mas que evolui para a mais conhecida sátira às instituições militares dos EUA);


DÉCADA DE 60
Acontece uma renovação no mundo dos super-heróis: eles passam a ser representados com fraquezas humanas e, às vezes, lidando com problemas cotidianos enquanto salvam o mundo (o mais representativo desta nova tendência é o herói Homem-Aranha), o que permite a identificação com o leitor. Também se cristaliza, na época, o conceito dos anti-heróis, ou os heróis que fogem ao modelo consagrado, sejam nas intenções pouco nobres, seja no caráter violento e pouco “exemplar” – é o caso de heróis como Homem-Coisa, Hulk, Justiceiro e Wolverine. É também a época em que as HQ são vistas com seriedade, pois os europeus iniciam uma série de estudos “sérios” sobre o papel das HQ na cultura mundial. Surge nova safra de personagens femininas relevantes, algumas em histórias de cunho erótico, mas muitas delas emancipadas (em contraposição às frágeis namoradas dos heróis das décadas anteriores), ajudando a aproximar as HQ do público adulto; falando nisso, nessa época, é o início das graphic novels, os álbuns de grande apuro gráfico, que abrem um filão adulto no mercado; sem falar nas HQ underground, sintonizadas na contracultura cultivada no período (inclusive o movimento hippie), com a mistura de sexo, drogas e política em reação às imposições do mercado. Com isso, as HQ deixavam, gradativamente, de ser dirigidas exclusivamente aos jovens – as HQ underground são consideradas a gênese dos atuais quadrinhos “adultos”. Representantes do período:
• 1960 – Na França, surge a revista humorística Hara-Kiri, criada por artistas dissidentes da Pilote; No Japão, Kaze no Ishimaru (Samurai Kid), de Sampei Shirato, mangá no qual se baseou a clássica série de anime;• 1961 – Nos EUA, Quarteto Fantástico, de Stan Lee e Jack Kirby, na revista homônima, da então editora Atlas (ex-Timely), posteriormente Marvel Comics. Lee e Kirby dariam vida a inúmeros heróis, como Homem-Aranha (Lee e Steve Ditko), Thor, Hulk (todos esses em 1962), X-Men, Dr. Estranho, Homem de Ferro (Lee e Don Heck), (esses, de 1963), Daredevil (Demolidor – Lee e Bill Everett) (esse de 1964), Pantera Negra (o primeiro super-herói negro) e Surfista Prateado (esses em 1966), além de “ressuscitar” os heróis Capitão América (que torna-se membro do grupo Vingadores, formado em 1963) e Namor, e reformular outros já anteriormente criados, como o Tocha Humana: a Marvel Comics, ou “Casa das Idéias” renova o gênero super-herói e agita o mercado das HQ;• 1962 – Nos EUA, Little Annie Fanny, de Harvey Kurtzmann e Bill Elder, na revista Playboy, a princípio uma sátira a Aninha, a Pequena Órfã, mas que ganha identidade própria; Em uma história da revista Flash # 123, o Flash da Era de Prata (Barry Allen) encontra o da Era de Ouro (Jay Garrick), dando início, assim, ao multiverso (diversas realidades da Terra coexistindo em diferentes freqüências, e constantemente se cruzando, algo que se torna muito comum nas HQ de super-heróis); Na Itália, Diabolik, de Luciana e Angela Giussani; Na França, Iznogoud, de René Goscinny e Jean Tabary, e Barbarella, de Jean-Claude Forest (foi o sucesso desta série que desencadeou, na Europa, o início das discussões e estudos “sérios” sobre o papel das HQ na cultura, levadas a cabo por intelectuais da França e professores da Universidade de Roma, na Itália, ao mesmo tempo em que, no rastro de Barbarella, apareciam outras séries de cunho erótico, como Jodelle [França, 1966, de Guy Pellaert e Pierre Bartier], Phoebe Zeit-Geist [EUA, 1967, de Michael O’Donoghue e Frank Springer] e Saga de Xam [França, 1968, de Nicolas Devil], entre outras. Além disso, Barbarella ganhou, em 1968, uma adaptação cinematográfica, por Roger Vadim); Na Argentina, Mort Cinder, de Alberto Breccia (uruguaio radicado em Buenos Aires, Breccia também é conhecido por utilizar em suas histórias, produzidas entre os anos 60 e 70, técnicas de desenho e pintura que só seriam popularizadas nos EUA e na Europa nos anos 80);• 1963 – Na Argentina, é publicado Mundo Quino, o primeiro livro de humor gráfico de Quino (Joaquin Lavado), um dos maiores cartunistas do país. Quino também tem outras compilações de seus cartuns, publicados em diversos periódicos da Argentina e do mundo, tais como A mi no me grite, Déjenme inventar, Quinoterapia e Que mala esla gente!; No Japão, Eito Man (Oitavo Homem), de Kazumasa Hirai e Jiro Kuwata, mangá que gerou a célebre série de anime;• 1964 – Nos EUA, O Mago de Id, de Johnny Hart e Brant Parker; a editora Warren Publishing, de propriedade de Jim Warren, lança nesse ano a revista Creepy, em formato magazine, que renova o gênero terror, hostilizado desde a cruzada antiquadrinhos. A editora, que também ficaria célebre pelos títulos Eerie (“irmã” da Creepy, que apareceu no ano seguinte, no rastro do sucesso da antecessora) e Vampirella, publica histórias produzidas por artistas como Joe Orlando, Steve Ditko, Frank Frazetta e Reed Crandall, entre outros; na Argentina, Mafalda, de Quino, a mais famosa kids strip do país (e também a mais crítica e politizada); No Japão, Kamui-Den (A Lenda de Kamui), de Sampei Shirato (que ganha uma continuação nos anos 80); Cyborg 009, de Shotaro Ishinomori; Pia no Shouzo, o primeiro grande sucesso de Machiko Satonaka, pioneira mulher desenhista de shoujo mangá, até então elaborado por homens – a partir de então, os shoujo mangá passam a ser elaborados quase que exclusivamente por mulheres;• 1965 – Nos EUA, Fritz the Cat, de Robert Crumb, o maior artista do underground americano, criador também de Mr. Natural (Fritz the Cat ganha uma célebre adaptação para desenho animado em 1972, dirigida por Ralph Bakshi e primeira animação a ser proibida para menores de 18 anos; em resposta, Crumb mata o personagem, avesso que era à fama); Inicia-se o célebre seriado de TV do Batman, então marcado por uma fase leve e “sorridente” nas HQ; Primeira aparição da Turma Titã, equipe formada pelos ajudantes mirins dos super-heróis da DC Comics, na revista The Brave and the Bold # 60, por Bob Haney e Nick Cardy (nos anos 80, a equipe seria reestruturada, e sob o nome Os Novos Titãs, viveria sua melhor fase nas histórias escritas por Marv Wolfman e desenhadas por George Pérez); Na Itália, Valentina, a personagem erótica mais conhecida de Guido Crepax, aparece pela primeira vez dentro das histórias de Neutron; e nesse mesmo ano, acontece o Primeiro Congresso Internacional de Quadrinhos, em Bordighera (sucedido, no ano seguinte, pelo festival de quadrinhos de Lucca, um dos mais importantes do mundo. É no festival de Lucca que é entregue o Yellow Kid, uma das mais importantes premiações para HQ do mundo [o Yellow Kid foi considerado o “Oscar” das HQ antes da instituição do Prêmio Eisner]); surge, também na Itália, a célebre revista humorística Linus;• 1966 – No Japão, Mach Go Go Go (Speed Racer), de Tatsuo Yoshida, que gerou a célebre série de anime (em 2008, a série ganhou uma adaptação cinematográfica produzida nos EUA, por Andy e Larry Wachowski); Estréia o anime Mahou Tsukai Sally, criação de Mitsuteru Yokoyama, série precursora do gênero Mahou Shoujo (meninas mágicas). Representantes famosas, nos mangás, desse gênero são as séries Sailor Moon e Sakura Card Captor; Hani Hani no Suteki na Bouken (Honey Honey), de Hideko Mizuno, discípula de Osamu Tezuka e grande nome dos shoujo mangá;• 1967 – Nos EUA, Freak Brothers, de Gilbert Sheldon, outro artista underground bastante representativo; Na Bélgica, Valérian – Agente Espacio-temporal, de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, na revista Pilote; Na Itália, na revista Sgt. Kirk, aparece pela primeira vez o marinheiro Corto Maltese, criação de Hugo Pratt, cujos álbuns inauguram o chamado “romance em quadrinhos”;• 1968 – Nos EUA, surge a revista Zap Comics, iniciativa de Robert Crumb, realizando a síntese da contracultura nas HQ. Entre os colaboradores da revista, estão Crumb, Sheldon, S. Clay Wilson, Robert Williams e Rick Griffin; O desenhista Neal Adams assume a arte do personagem Batman, devolvendo-lhes o aspecto sinistro, como em suas primeiras histórias; Na Argentina, Che, biografia do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, por Hector Oesterheld e Alberto e Enrique Breccia (essa HQ, no entanto, foi um dos motivos que determinaram o “desaparecimento” de Oesterheld pela ditadura argentina, em 1977. A obra foi apreendida, mas republicada recentemente); No Japão, Golgo 13, de Takao Saito, o segundo mangá mais vendido de todos os tempos (atrás apenas de Dragon Ball); surge a revista Shounen Jump, o mais conhecido título de shounen mangá do país, pela editora Shueisha (é nessa revista que surgiram os principais sucessos do mangá e, posteriormente, do anime japonês, como Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Video Girl Ai, Yu-Gi-Oh!, One Piece e Naruto);• 1969 – No Japão, Kozure Okami (Lobo Solitário), de Kazuo Koike e Gozeki Kojima (essa HQ, na década de 80, seria o responsável pela entrada dos mangás japoneses no ocidente), Fire!, de Hideko Mizuno (shoujo mangá que revoluciona o gênero com a inclusão de temáticas adultas), e Doraemon, de Fujiko F. Fujio (pseudônimo usado pela dupla Hiroshi Fujimoto e Motoo Abiko), um dos mais famosos mangás infantis do Japão.
Para concluir, mais três tiras inéditas de Letícia.



Até mais!
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