Hoje, continuo a publicação da versão revista e ampliada da História das HQ, uma vez que aproxima-se o dia 30 de janeiro, dia do Quadrinho Nacional. Próximo a esse dia, começarei a publicar a História das HQ no Brasil.
Dando segmento à empreitada, eis as décadas de 70 e 80.
DÉCADA DE 70 OU PERÍODO DE ENTRESSAFRA
A recessão econômica que tem início em 1973, em função da crise do petróleo, provoca queda nos títulos. Algumas criações isoladas se destacam, como Garfield, Hagar e Corto Maltese. Além dessas, destacam-se também os seguintes fatos:
• 1970 – Nos EUA, Doonesbury, de Garry Trudeau, sátira política e primeira HQ a ganhar o Prêmio Pullitzer, em 1975; Conan, o Bárbaro, personagem literário criado por Robert E. Howard em 1932, nos pulps, chega às HQ, pela editora Marvel (texto de Roy Thomas e desenhos de Barry-Windsor Smith; o nome que ia se sobressair na arte de Conan, no entanto, é o de John Buscema, nos anos seguintes). O personagem ganha duas adaptações cinematográficas, em 1982 e 1984; inicia-se a célebre saga Lanterna Verde e Arqueiro Verde, de Denny O’Neill e Neal Adams, onde, dentro de uma HQ de super-heróis, discutem-se temas sociais e uso de drogas; É criado o célebre evento San Diego Comic Con, uma das maiores convenções de HQ da atualidade, sediada na cidade de San Diego, estado da Califórnia, EUA (nesse evento, atualmente, também acontece a entrega do prêmio Eisner, o “Oscar” das HQ); Na França, Paulette, de Georges Wolinski (autor célebre por seus desenhos de humor) e Georges Pichard;• 1971 – Nos EUA, Vampirella, de Forest Ackerman; Primeira aparição do personagem Monstro do Pântano, numa história da revista House of Secrets # 92 (por Len Wein e Berni Wrightson); Jack Kirby, que no ano anterior mudara-se da Marvel Comics para a DC Comics, inicia a série Novos Deuses. Com efeito, Kirby se tornaria o primeiro desenhista a ganhar “tratamento especial” de uma grande editora, e abriu caminho para que os artistas passassem a ter voz ativa dentro das editoras; A Marvel polemiza, nesse ano, ao publicar uma história do Homem Aranha (nas revistas Amazing Spider-Man # 96 a 98) onde um dos personagens aparece consumindo drogas; Na Argentina, Dick El Artillero ou Gunner, de Alfredo Julio Grassi e José Luis Salinas, HQ que tematiza o futebol; No Chile, é publicado o polêmico livro Para Ler o Pato Donald, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart, que relaciona os quadrinhos Disney ao imperialismo norte-americano (seus autores tinham orientação socialista). Mais tarde, Dorfman e Mattelart admitem terem exagerado nas críticas feitas no livro;• 1972 – Nos EUA, Animal Crackers (Os Bichos), de Rog Bollen (a partir de 1994, com a morte de Bollen, a tira passa a ser desenhada por seu assistente Fred Wagner), e Frank e Ernest, de Bob Thaves; aparecem pela primeira vez: pela Marvel, o Motoqueiro Fantasma, por Roy Thomas, Gary Friedrich e Mike Ploog, representativa combinação de super-heróis com horror (o personagem foi adaptado para o cinema em 2006, por Mark Steven Johnson), e, pela DC Comics, o caubói Jonah Hex, de John Albano e Tony De Zuñiga; Na França, surge a célebre revista humorística Écho des Savanes, iniciativa de Claire Brétecher (que lança, nessa revista, Les Frustres [Os Frustrados], sua obra mais conhecida), Marcel Gotlib e Nikita Mandryka; Na Argentina, Boogie, o Seboso, de Roberto “El Negro” Fontanarrosa (criador, também, do gaúcho Inodoro Pereyra, Fontanarrosa é conhecido, também, por suas charges sobre futebol, sua obsessão máxima); No Japão, Hadashi Gen (Gen, Pés Descalços), de Keiji Nakazawa, o retrato mais contundente da tragédia da bomba atômica de Hiroshima, e Berusaiyu no Bara (A Rosa de Versalhes), de Ryoko Ikeda, série considerada a definidora de todas as características dos shoujo mangá;• 1973 – Nos EUA, Hagar, o Horrível, de Dik Browne (após a morte de Dik, em 1989, a tira passa a ser desenhada por seu filho Chris Browne); a saga A Morte de Gwen Stacy, dentro das histórias do Homem-Aranha, é considerada o marco inicial da chamada “Era de Bronze” dos super-heróis, quando os heróis deixaram, de certa forma, de serem invencíveis. Além disso, as HQ passaram a tratar de temas até então tabus dentro desse tipo de publicação, como as drogas e o alcoolismo; primeira aparição do personagem Howard the Duck, criação de Steve Gerber (o personagem ganha adaptação cinematográfica em 1986, por Willard Huyck, fracasso de público e crítica);• 1974 – Nos EUA, aparecem pela primeira vez, pela Marvel, os personagens Wolverine e Punisher (Justiceiro), os mais destacados anti-heróis das HQ, dentro de histórias, respectivamente, do Hulk (Incredible Hulk # 181) e do Homem Aranha (Amazing Spider-Man # 129). O Justiceiro ganharia, mais tarde, seu próprio título (e três adaptações cinematográficas, em 1989, 2004 e 2008); já o Wolverine seria incorporado aos X-Men, tornando-se seu membro mais popular (e ganhando também, mais tarde, seu próprio título e uma adaptação cinematográfica em 2009, spin-off dos filmes dos X-Men, por Gavin Hood); Na França, Papyrus, de Lucien de Gieter, na revista Spirou;• 1975 – Nos EUA, na revista Giant-Sized X-Men # 1, estréia a nova formação dos heróis mutantes: era o primeiro passo para os X-Men se tornarem realmente populares; Na França, surge a revista Metal Hurlant, influente publicação de fantasia e ficção (iniciativa de Jean Pierre Dionnet, Moebius, Phillippe Druillet e Bernard Farkas), que mais tarde geraria uma famosa “filha” nos EUA, a revista Heavy Metal (surgida em 1977, por iniciativa de Len Mogel. Dentre os vários artistas que publicaram na Heavy Metal, um de seus maiores destaques foi Richard Corben e sua série Den. Em ambas as revistas, também já publicaram trabalhos Jordi Bernet, Alejandro Jodorowsky, Magnus, Enki Bilal, Paolo Serpieri, entre outros). Além disso, a revista inspira, em 1981, um polêmico e cultuado filme de animação. Na Argentina, Alack Sinner, de José Muñoz e Carlos Sampayo; No Japão, Orpheus no Mado (Janela de Orfeu), de Ryoko Ikeda; Candy Candy, de Kyoko Mizuki (baseado no seu romance homônimo) e Yumiko Igarashi; é criado o evento Comic Market (ou Comiket), por iniciativa de um grupo de artistas marginais liderados por Yoshihiro Yonezawa (que se torna presidente do evento), Harada Teruo e Aniwa Jun. De um início modesto, o evento evoluiu para a maior feira de fanzines do país. Os fanzines japoneses (por lá chamados doujinshis) são de grande importância no Japão, uma vez que não apenas artistas consagrados nos mangás iniciaram suas carreiras nas publicações alternativas, mas também alguns fanzines ajudam a alavancar o sucesso de alguns mangás e animes consagrados.• 1976 – Nos EUA, Cathy, de Cathy Guisewite, uma das mais conhecidas HQ feministas; é publicado o primeiro crossover (encontro de personagens) entre heróis de diferentes editoras: do Superman (DC) com o Homem-Aranha (Marvel), escrito por Gerry Conway e desenhado por Ross Andru. Os crossovers tornam-se bastante comuns nas décadas de 90 e 2000; o funcionário público Harvey Pekar começa a escrever a série American Splendor, HQ autobiográfica desenhada por artistas como Robert Crumb, Frank Stack e Joe Sacco (Pekar é considerado o primeiro autor a fazer HQ a partir da vida real. Em 2003, a HQ ganha adaptação cinematográfica em forma de documentário: Anti-Herói Americano, de Shari Springer e Robert Pulcini); Na Argentina, Alvar Mayor, de Carlos Trillo e Enrique Breccia (filho de Alberto Breccia, que atualmente também desenha para editoras dos EUA); No Japão, Garasu no Kamen (Máscara de Vidro), de Suzue Miuchi, o maior e mais importante mangá shoujo da autora, um dos maiores nomes do gênero;• 1977 – Nos EUA, Cerebus, de Dave Sim, revista independente, bastante conhecida pelo fato de seu autor ter estabelecido seu término no # 300; Na Inglaterra, surge a célebre revista 2000 A. D., iniciativa de Pat Mills e John Wagner. Dentre os vários personagens célebres surgidos nessa revista, estão Judge Dredd, de John Wagner e Carlos Ezquerra, Rogue Trooper, de Gerry Finley-Day e Dave Gibbons, e Slaine, de Pat Mills e diversos artistas (os mais célebres foram Glenn Fabry e Simon Bisley). Outros artistas conhecidos que publicaram nessa revista foram Brian Bolland, Alan Moore, Alan Davis e Grant Morrison. Além disso, Judge Dredd ganha uma adaptação cinematográfica em 1995, por Danny Cannon; No Japão, Captain Harlock e Galaxy Express 999, ambas de Leiji Matsumoto, célebre também como o co-criador do anime Patrulha Estelar – Yamato (em 1974);

Outro destaque da década é Jean Giraud, o Moebius. Nos anos 60, ele trabalhava com o western Tenente Blueberry. Ao adotar o pseudônimo artístico, Moebius passa a tratar de temas fantásticos e poéticos, sobretudo nas histórias publicadas nas revistas Metal Hurlant (que ele ajudou a fundar) e Heavy Metal (suas principais obras nessa temática são: Garagem Hermética, Arzach e a célebre O Incal, com texto do chileno Alejandro Jodorowsky).
DÉCADA DE 80
É a época em que se cristaliza o conceito dos “quadrinhos adultos”: as edições tornam-se mais luxuosas e as histórias mais violentas. A arte dos álbuns de luxo ficaria mais requintada, com o uso de técnicas como a aquarela e a colagem. Os japoneses começam a se tornar conhecidos no mercado ocidental (as obras publicadas no Japão anteriormente citadas só chegam ao ocidente a partir do final da década de 80), e aparecem como os maiores produtores e consumidores de HQ, ao lado dos americanos. Aliás, dali em diante, a produção japonesa influenciaria a ocidental. Destaques:
• 1980 – Na França, Enki Bilal, artista nascido na Iugoslávia, inicia sua Trilogia Nikopol (composta por Os Imortais, A Mulher Enigma e Frio Equador), a mais conhecida da vasta obra de ficção científica deste autor (e que foi, em 2004, adaptada para o cinema [Immortel, escrita e dirigida pelo próprio Bilal]); Alejandro Jodorowsky e Moebius iniciam O Incal, uma das mais importantes HQ de ficção científica de todos os tempos (posteriormente, Jodorowsky expande o universo do Incal em outras séries: Antes do Incal, com arte de Zoran Janjetov, e A Casta dos Metabarões, com arte de Juan Gimenez); No Japão, Dr. Slump, de Akira Toriyama, seu primeiro grande sucesso antes de Dragon Ball;• 1981 – Na Espanha, inicia-se a série Torpedo 1936, de Enrique Sanchez Abuli e Alex Toth (desenhista americano também conhecido como o criador dos personagens Space Ghost e Homem Pássaro, para os desenhos animados dos estúdios Hanna-Barbera). Dois anos depois, Torpedo passa a ser desenhado por Jordi Bernet. A série de violência cínica destaca-se na produção espanhola (com efeito, Barcelona e Bruxelas tornam-se os principais centros irradiadores de HQ na Europa, enquanto que França e Itália enfrentam uma crise de mercado nos anos 90); No Japão, Captain Tsubasa (Super Campeões), de Yoichi Takahashi, mangá que estimulou a prática do futebol entre os jovens;
• 1982 – Nos EUA, Maus, de Art Spiegelman, HQ agraciada com o prêmio Pullitzer de literatura; Pela DC, sai Camelot 3000, de Mike W. Barr e Brian Bolland, considerada a primeira HQ “adulta” da editora (essa HQ é revolucionária pelos elementos “adultos” que introduz, até então inéditos no gênero heróis: violência acima dos padrões de então, nudez e até lesbianismo); Groo, o Errante, de Mark Evanier e Sergio Aragonés (série que satiriza as histórias de bárbaros – do gênero de Conan – que na época faziam sucesso); Os irmãos Gilbert e Jaime Hernandez iniciam a revista Love & Rockets, importante publicação de HQ underground; Dreadstar, de Jim Starlin; Na Inglaterra, V for Vendetta (V de Vingança), de Alan Moore e David Lloyd, na revista Warrior (que também publica as histórias de Marvelman [Miracleman nos EUA] de Moore e Alan Davis) – a obra chega aos EUA em 1988, de carona no sucesso de Watchmen, e ganha adaptação cinematográfica em 2006, por James McTeigue; Na Espanha, Sarvan, a primeira parceria entre Antonio Segura e Jordi Bernet (no ano seguinte, os dois publicam Kraken, outra célebre série - concomitante ao trabalho de Bernet com Torpedo); No Japão, saem: Akira, de Katsuhiro Otomo (uma das HQ de ficção científica mais influentes do mundo, e grande representante do gênero gekigá [Otomo também dirige, em 1988, a adaptação de Akira para anime, bem como os filmes Memories, de 1996, e Steamboy, de 2004, exemplos da contribuição do autor para a animação japonesa]), e Kaze no Tani no Naushika (Nausicäa do Vale do Vento), de Hayao Miyazaki, um dos mais importantes animadores japoneses da atualidade, à frente do estúdio de animação Ghibli (dentre a obra de Miyazaki nos animes, podemos destacar: Tenku no Shiro Rapyuta [Laputa – Castelo no Céu, 1986], Tonari no Totoro [Meu Vizinho Totoro, 1988], Mononoke Hime [Princesa Mononoke, 1997, o maior sucesso de bilheteria dos cinemas japoneses], Sen to Chihiro no Kamikakushi [A viagem de Chihiro, 2001, o primeiro anime japonês a ganhar o Oscar de Melhor Longa-Metragem de Animação, em 2003], Hauru no Ugoku Shiro [O Castelo Animado, 2004], entre outros);• 1983 – Nos EUA, Ronin, de Frank Miller; American Flagg, de Howard Chaykin; Em uma história dos Omega Men, personagens interplanetários da DC Comics, aparece pela primeira vez o personagem Lobo, um dos heróis mais violentos das HQ (por Keith Giffen e Roger Slifer, mais tarde por Alan Grant e Simon Bisley, sob novo conceito); Na Itália, aparece, na cidade de Bolonha, o grupo vanguardista Valvoline (um de seus fundadores foi Lorenzo Mattotti), que revolucionou as HQ italianas, tanto no aspecto estético quanto lingüístico; O Clic, de Milo (Maurilio) Manara (o artista italiano é considerado o maior autor erótico das HQ, ao lado de nomes como Guido Crepax, Paolo Serpieri, Rotundo, Magnus e Vittorio Giardino. Além de suas obras-solo [entre elas, Giuseppe Bergman, publicada em 1978, Kama Sutra e Gullivera], Manara é conhecido pelas parcerias com artistas como o cineasta Frederico Fellini [Viagem a Tulum], Hugo Pratt [El Gaucho e Verão Índio], Neil Gaiman [uma história do álbum Sandman: Noites Sem Fim] e Alejandro Jodorowsky [a série Bórgia]);



Outro artista de grande relevância nesse período é o espanhol Miguelanxo Prado, autor de, entre outras obras, Fragmentos de História Délfica, Stratos e Quotidiano Delirante.
Para encerrar, mais um triplex de Bitifrendis, conforme o combinado.



Até mais!
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