Ainda no clima do Dia do Quadrinho Nacional - que foi ontem, 30 de janeiro - , trago hoje a vocês a segunda parte da minha versão revista e ampliada da História das HQ no Brasil. Hoje, trazendo as décadas de 50 e 60.
Agora, com mais informações e ilustrações - algumas já publicadas anteriormente!
DÉCADA DE 50
Nessa época, as editoras já estavam consolidadas – elas investiam mais em material estrangeiro, embora já houvesse uma tentativa de se promover uma “indústria” brasileira de HQ. Um dos gêneros de maior popularidade no país é o de terror, que floresceu no Brasil na década de 50, enquanto que nos EUA o gênero sofria com a “cruzada antiquadrinhos” que estava sendo empreendida na referida época (como as primeiras histórias de terror publicadas no Brasil eram estrangeiras, quando elas foram proibidas nos EUA artistas brasileiros produziram histórias para suprir a demanda das editoras). Muito embora, no Brasil, também houvesse um Código de Ética dos Quadrinhos, que determinava as regras sobre o que deveria ser publicado ou não nas revistas em quadrinhos; e, além disso, de muitos pais e pedagogos desaconselharem as crianças a lerem HQ. Dentre os artistas que celebrizaram-se nas HQ de terror, estão: Júlio Yoshinobu Shimamoto (artista descendente de japoneses, celebrizado também por suas violentas HQ de samurais, no estilo gekigá, similar ao japonês), Flávio Colin, Eugênio Colonnese, Rubens Francisco (R. F.) Luchetti, Nico Rosso, Rodolfo Zalla (argentino) e Gedeone Malagola. Também nessa época, as HQ ficaram em evidência, pois a Primeira Exposição Internacional de HQ (ver adiante) adiantou-se aos estudos “sérios” sobre o papel das HQ na cultura mundial que os europeus promoveriam a partir da década de 60. Principais acontecimentos da década:
• 1951 – Por iniciativa de Álvaro de Moya, Jayme Cortez, Syllas Roberg, Reinaldo de Oliveira e Miguel Penteado, foi realizada, em São Paulo, a I Exposição Internacional de Histórias em Quadrinhos, no Centro Cultura e Progresso, a primeira do mundo, e reconhecida pela imprensa européia pelo pioneirismo. No evento, que atrai a atenção do público e da mídia para as HQ, são mostrados originais de Alex Raymond, Hal Foster, Al Capp, Milton Caniff e Will Eisner, dentre outros;• 1952 – Roberto Marinho funda a editora RGE (Rio Gráfica Editora, atualmente Editora Globo), outra importante editora de HQ do século XX;• 1954 – É criado o Código de Ética da Ed. Brasil-América, objetivando salvaguardar os interesses dos editores contra possíveis críticas à violência e à suposta falta de moral de algumas historinhas; Estréia, na TV Record, o programa do herói Capitão 7, que consagrou seu intérprete, o ator Ayres Campos (a família do falecido ator detém, atualmente, os direitos sobre o personagem). Da série, é derivado o gibi, publicado a partir de 1959 pela editora Continental/Outubro, e produzido por Jayme Cortez e Júlio Shimamoto (a aparência do herói nos quadrinhos, entretanto, é diferente da versão da TV).• 1956 – a RGE lança a série Romance em Quadrinhos, de adaptações de romances literários para HQ, na mesma linha da Edição Maravilhosa da EBAL. Dentre os artistas dessa série, podemos citar os nomes de Gutenberg Monteiro (um dos primeiros artistas brasileiros a desenhar no exterior, para editoras dos EUA), Eduardo Barbosa e Gil Coimbra.
• 1957 – O personagem radiofônico Jerônimo, Herói do Sertão, criação de Moysés Weltman, chega às HQ, pela editora RGE, com arte de Edmundo Rodrigues;• 1959 – Jayme Cortez, José Sidekerskis, Victor Chiode, Heli Otávio de Lacerda, Cláudio de Souza, Arthur de Oliveira e Miguel Penteado fundam, no bairro da Mooca, em São Paulo, a Editora Continental (mais tarde, Editora Outubro, e, posteriormente, editora Taika, que funcionaria até o final dos anos 70). Essa editora era uma das que mais incentivava a produção nacional de HQ, publicando exclusivamente obras de artistas brasileiros (alguns títulos dessas editoras são listados adiante); O Anjo, personagem radiofônico criado por Álvaro de Aguiar, chega às HQ, pela editora RGE, com arte de Flávio Colin (este personagem foi homenageado no filme O Escorpião Escarlate, dirigido em 1990 por Ivan Cardoso). Flávio Colin, um dos artistas mais prolíficos do Brasil, é conhecido tanto pelas suas HQ de terror, publicadas em revistas como Calafrio e Spektro, quanto pelas suas HQ de aventura, de temática regionalista, como O Boi das Aspas de Ouro, Histórias Gerais e Fawcett (em parceria com André Diniz), entre outras; É publicada a primeira história produzida no Brasil para os Estúdios Disney. O primeiro artista brasileiro dos quadrinhos Disney foi Jorge Kato, que produziu histórias do Zé Carioca (personagem criado nos EUA em 1942 por Disney), junto com Valdir Igayara. (ficou famoso, inclusive, o caso do “Zé Fraude” – quando, em histórias de Pato Donald e Mickey publicadas no exterior, esses personagens eram substituídos pelo Zé Carioca nas publicações brasileiras – sendo que algumas destas histórias foram desenhadas por Igayara – expediente utilizado para atender a demanda). Mais tarde, em 1971, o gaúcho Renato Canini assume as HQ de Zé Carioca, criando conceitos na série no sentido de “nacionalizar” o personagem – que, anteriormente, seguia o estereótipo americano acerca dos brasileiros. O Estúdio Disney Brasileiro, mantido pela Editora Abril, contou com inúmeros artistas, como: Ivan Saidenberg, (criador de muitos personagens exclusivos das HQ Disney brasileiras, como Morcego Vermelho e Senhor X), Arthur Faria Jr., Primaggio Mantovi, Gerson B. Teixeira, Oscar Kern, Rodolfo Zalla, Fernando Ventura e Marcelo Cassaro. O Estúdio Disney Brasileiro, no entanto, parou de produzir HQ por volta de 1997; o cachorrinho Bidu, que aparece pela primeira vez em tiras publicadas no jornal Folha da Manhã, de São Paulo (atual Folha de São Paulo), e posteriormente ganharia um gibi pela editora Continental/Outubro, é o primeiro personagem criado por Maurício de Souza, o mais influente artista do gênero infantil (ver adiante);• 1960 – Ziraldo Alves Pinto, outro grande expoente das HQ e literatura infantis e do desenho humorístico (ver mais criações deste artista adiante), lança o gibi do personagem Pererê, pela editora O Cruzeiro, que, mais que uma HQ infantil, é uma profunda reflexão sobre o Brasil da era populista (em 1998, Pererê ganhou uma adaptação para a TV, em forma de seriado com atores, pela TVE – e uma segunda temporada estreou em 2010).
Outro artista célebre da década foi José Lanzellotti, um dos maiores ilustradores do Brasil, criador do personagem Raimundo, o Cangaceiro.
No início dessa década, também aparece, em São Paulo, a editora Júpiter, fundada por Gedeone Malagola, Auro Teixeira e Victor Chiode. Entre os gibis publicados por essa editora, está Capitão Astral, de Malagola.
Entre os anos 50 e 60, também vale destacar o aparecimento dos “catecismos”, ou “revistinhas de sacanagem” – quadrinhos pornográficos de desenho canhestro e roteiros que exploram fantasias sexuais masculinas. Por muitos anos, os “catecismos” serviram de guia de iniciação sexual para muitos adolescentes. Seu autor assinava como Carlos Zéfiro, e sua identidade permaneceu em segredo até 1991, quando reportagem do jornalista Juca Kfouri, para a revista Playboy, revelou que era o funcionário público e compositor Alcides Caminha, que faleceu poucos meses depois.
DÉCADA DE 60Nos anos 60, começaram a aparecer os primeiros super-heróis brasileiros. Alguns eram cópias de material estrangeiro (diz-se que isso era consenso entre os artistas brasileiros, já que os heróis estrangeiros eram os que vendiam mais). No entanto, os heróis estrangeiros suplantam os nacionais, pois, entre outros motivos, a publicação daqueles no Brasil é mais barata que o investimento necessário para produzir uma HQ do gênero. Com o aparecimento da Mônica de Maurício de Souza, o mercado das HQ infantis amplia-se – Maurício de Souza, com efeito, é o único artista brasileiro a viver de HQ, enquanto que outros artistas precisam exercer funções paralelas, como a publicidade. Por volta de 1963, havia já mais de 30 títulos de terror nas bancas. Também nessa época aparece o germe dos chamados “mangás brasileiros” – descendentes de japoneses publicavam trabalhos em pequenas revistas de pequena tiragem e vida curta, mas que não passavam de cópias de páginas de artistas japoneses de mangás de terror-erótico. O primeiro contato dos brasileiros com a produção japonesa se deu através da televisão, com os live-action (seriados com atores), como National Kid e Ultraman, e os animes (desenhos animados), como A Princesa e o Cavaleiro, Speed Racer, Fantomas, Patrulha Estelar-Yamato, entre outros. No entanto, após o Golpe de 1964, que instaurou o Regime Militar no Brasil, as HQ humorísticas e de terror começam a sofrer a pressão da censura. Fatos do período:
• 1961 – No Rio Grande do Sul, aparece a CETPA – Cooperativa Editora de Trabalhos de Porto Alegre, idealizada pelo desenhista José Geraldo Barreto Dias e apoiada pelo então governador do RS, Leonel Brizola. A CETPA objetiva a progressiva nacionalização das HQ editadas no Brasil – numa tentativa de responder política e culturalmente ao consumo em massa dos comics estrangeiros. Entre os trabalhos desenvolvidos pelos membros da Cooperativa, estão: Zé Candango, de Renato Canini, e Aba Larga, de Getúlio Delphin. Outros artistas que colaboraram com a CETPA foram Flávio Colin, Júlio Shimamoto e Ivan Saidenberg; aparece o seriado de TV do Vigilante Rodoviário, criação e direção de Ary Fernandes, na TV Tupi, estrelado por Carlos Miranda. Vigilante, o primeiro seriado brasileiro de TV, ganha no mesmo ano um gibi, pela editora Outubro, com roteiros de Gedeone Malagola e arte de Flávio Colin e Osvaldo Talo.• 1962 – Pela editora O Cruzeiro, Dr. Macarra, revista editada por Carlos Estevão, estrelada por seu personagem mais célebre, durou nove números. Estevão é conhecido também pelos desenhos que fez para a revista O Cruzeiro.
• 1963 – Millôr Fernandes, que publicava cartuns e textos dentro da revista O Cruzeiro sob o pseudônimo de Vão Gôgo, produz A Verdadeira História do Paraíso, que desperta polêmica entre os conservadores e ocasiona a demissão de Millôr da revista; surge a Mônica de Maurício de Souza, dentro das tiras do personagem Cebolinha (criado em 1960). Em 1970, a personagem ganha gibi próprio, pela editora Abril (passando, posteriormente, pela Editora Globo e, atualmente, pela Editora Panini). Com isso, Maurício inicia a mais bem-sucedida experiência editorial das HQ brasileiras, criando um rico elenco de personagens, muitos deles ganhando suas próprias revistas: Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali, Chico Bento, Jotalhão e a Turma da Mata, Bidu, Astronauta, Papa-Capim, Piteco, Horácio (este, o único personagem desenhado pelo próprio Maurício nos dias de hoje), Penadinho, Louco e muitos outros. A Turma da Mônica também é uma das poucas HQ brasileiras publicadas no exterior, e a sobreviver à crise dos anos 90 – muito se devendo a isso o fato de a personagem também ter estampado diversos produtos e rendido incursões nos desenhos animados e campanhas educativas.







Foi também no início dessa década que Júlio Shimamoto, na revista Histórias Macabras # 19, da Editora Outubro, lançou O Fantasma do Rincão Maldito, a primeira história de samurais produzida fora do Japão.
Para encerrar, hoje temos Letícia, em um novo ciclo de tiras.



Até mais!
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